sexta-feira, 28 de outubro de 2011

OLHARES ITALIANOS - por J.T.Parreira




OLHARES ITALIANOS


Vem à superfície das ondas
cinzentas
o branco da sereia

Como uma linha perfeita
de um caule amanhecido
ou uma linha de horizonte
vertical
para onde os olhos nas órbitas
rodam em cardume


É uma estátua sem sombras
passa, como a aurora
sem deixar provas, só indícios
de um perfume.

4/10/2011

J.T.Parreira
O assunto do poema é a poesia

sábado, 15 de outubro de 2011

SAUDADES DO ALENTEJO - por Filipe Raimundo


SAUDADES DO ALENTEJO

Ventos espanhóis
Rasgam charnecas verdes, de esperança
E de saudades;
E há donzelas campestres,
Nas portas de castanho,
Sem pintura.
De formosura real,
Sem cosméticos enfeites,
Essas deidades esquecidas
Dos montes alentejanos,
Vêem passar os zagalos
Com seus olhares maganos
De brejeiros,
Conduzindo p'las tardes mornas
De primaveras de Nilo,
Os rebanhos de carneiros.
Há idílios campesinos
Naqueles rostos trigueiros
De sóis sem poluição.
E em cada coração,
Palpita a afrodízia das vontades.
Saudades!
Saudades tenho-as eu,
Das tardes nos chaparrais,
Em que robustos ganhões,
Cantavam picando os bois,
A caminho dos currais.
E as canções entoadas,
Eram por força inspiradas
No tédio das solidões.
Ilusões,
De noites quentes,
Serões,
De luas inspiradoras,
Em que zagalos e pastoras
Entoavam melopeias,
Nas eiras,
De espigas e milho roxo atafulhadas.
Desfolhadas,
Vinho tinto,
Beijos roubados,
E violões dedilhados
Por lavradores de charrua.
A noite já não está nua.
Há volúpias de canções
A rastejar pelo brejo,
E nem as musas do Tejo
Para aqui foram chamadas,
Que estas gentes inspiradas
P'las raias da nostalgia,
Arrancam vozes trinadas
Às línguas sempre caladas,
Com extractos de poesia.


Angola, Maio de 1972


Um abraço
Filipe Raimundo

terça-feira, 11 de outubro de 2011

OUTONAL - por José Felix



outonal

na manhã de outono
respiram as aves.
o gesto que me
consome no corpo
o texto, a emoção
é um fogo fátuo
fruto, danação
de que permanece
a cinza, o sabor
acre do epicarpo.

a respiração
fácil do desejo
manhã transumante
voluta de fumo
no meu corpo aceso

Jose Felix
2011.9.26