Mostrar mensagens com a etiqueta FILIPE RAIMUNDO. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta FILIPE RAIMUNDO. Mostrar todas as mensagens

domingo, 27 de setembro de 2020

SOLDADO FEITO


De mim fizeram
Um soldado e me mandaram
P'rás terras de ninguém,
Lutar com alguém
Que não conheço
E não odeio.

De mim fizeram
Aquilo que agora sou:
Máquina de lutar,
Homem que não pode pensar.

De mim fizeram,
Um soldado e me impuseram
Condição de matar,
Para satisfazer ambições de glória
De homens sem razão.

De mim fizeram
Um soldado sem história,
Mais um soldado sem história.

Fizeram.
São eles que fazem tudo.
Fizeram soldado mudo
E deram-me uma espingarda.

Fizeram
um robot e me disseram:
“Vai para a guerra matar,
Que quando a guerra acabar,
Nós damos-te uma medalha.”

E deram-me,
Um uniforme e um número
Que é a minha identidade,
E disseram-me:
“Agora não tens idade,
Não tens nome,
Não tens nada,
A não ser o corpo pronto
Para receber uma bala.”

Filipe Raimundo, AB4, 1972

domingo, 12 de julho de 2020

TANTOS


Eramos muitos!
Eramos tantos que por vezes,
Nos não encontrávamos no meio da multidão.
Mas eramos!...Estávamos lá!...e existiamos;
Em grupos!...Aos magotes!...
Gregáriamente unidos, como animais com medo!
Gregáriamente unidos, na esperança de uma vós.
Nós!...Soldados que nos fizeram.
Tantos, e contudo tão sós.
Nós!...Que nunca aceitámos ser
Aquilo que éramos.
Mas éramos!...
Uma colónia de loucos em busca de nós mesmos.
Por isso nos embriegávamos,
Para nos libertarmos da farda,
Que nos transformáva em máquinas humanizadas.
Por isso nos drogávamos,
Para alcançarmos nas abstrações do nada,
A dimensão dos nossos sonhos frustrados.
A realidade que nos impunham
Era demasiado cruel!...
Era brutal;
E nós nunca aceitamos ser
A incarnação do mal.
Mas eramos,
Lá!... Em África!...
Nesse Continente que eu antes sonhara virgem,
Natural.
Lá!...Nós fomos os desbravadores dos seus mistérios,
Lá!...Nós fomos os desfloradores
Da sua selvagem virgindade.
Lá!...Eu fui soldado sem vontade,
Por vontade de ditadores de gema;
E foi lá que eu colhi,
A fúria!...A raiva!...E a revolta
Com que escrevi este poema.



Escrito em Tancos em Maio de 1973
Filipe Raimundo

domingo, 21 de junho de 2020

PÉROLA NEGRA


Não sei explicar este enigma!
Os outros dizem que é feia.
E eu concordo,
Sou forçado a concordar
Porque ela, é mesmo feia.
Mas!...Paradoxo!
Encontro nela uma beleza singular,
Talvez na forma de rir,
Talvez na forma de olhar,
Talvez!
Sim, talvez porque ao rir,
Não utiliza a hipocrisia,
E não sufoca a gargalhada,
Ri sem fantasia
De qualquer coisa engraçada,
E comunica alegria
Aos outros,
Como ela, malfadados.

Chama-se ROSA!
E a ROSA tem de humano,
A posição vertical.
O resto...
O resto
É de animal irracional.
Não tem ódio no olhar,
Nem rancor pelos tiranos;
Ambições também não tem,
Que a vida
Sempre lhe deu desenganos,
E ela deixou de ambicionar.

Um dia vi-a chorar!
Um soldado lhe batera,
E ela para mim correra a gritar...
- Raimundo! - Raimundo!
- Os tropa me bateu,
- Os tropa me bateu, Raimundo!

- Ah! porco imundo!
- Rosnei eu.
Heróis da podridão,
Vejam...
Um valentão.

Passei-lhe uma das mãos
Pela face tremente,
Duas pérolas rolavam lentamente
Pela face da negrita,
E naquele momento...
Naquele momento,
Achei-a ainda mais bonita.

Não chores Rosita,
Disse eu.
E ela deixou de chorar.
E uma lágrima quente
Veio-se aconchegar,
Na minha outra mão,
Que pendia, inconsciente.
- Os tropa me bateu!
Disse ela novamente.
- O tropa é mau!
Disse eu.
E calei-me
Sem saber que dizer mais.
Aquela é uma rosa
Que não se encontra nos rosais!
Pétalas negras,
Pistilo de marfim,
E dois estigmas dardejantes de pureza,
Que beleza!
Nunca vi outra assim.

De ambos os lados
Tinha um botão a abrir,
Eram os filhos
A olhar para mim!
O Jorge e a Amelonga,
Dois rebentos da desgraça,
Que nasceram para sofrer,
E para provar ao mundo
Que viver,
É uma infinita graça ,
É um supremo poder.

No ventre,
Tinham a marca do pirão,
Farináceo que dilata os intestinos;
No rosto,
Um sorriso de gratidão,
Pela minha compreensão.
Só eu,
Ao que parece,
Compreendia os seus destinos.
Os outros
Viam na Rosa
A carne satisfeita.
Faziam dela a prostituta eleita,
E depois partiam, sem mais contemplações.
E ela,
A máquina humana do prazer,
Satisfazia machões,
Para alimentar os filhos,
Para os não deixar morrer


Filipe Raimundo, AB4, 1971.

domingo, 24 de maio de 2020

RÁDIO FAROL


Rádio farol, desterro e solidão!
E o barulho de um motor roncando.
E quando à noite, os ratos vão ratando…
O resto é silêncio e escuridão.

As pretas que vêem pedir água,
Chegam à porta,…. Falam em Quiôco,
Na minha face há um sorriso louco,
Mas cá no fundo, somente existe a mágoa.

Mágoa pelo velho negro, que à tardinha,
Sai do capim, como uma cobra esguia.
E a medo vem para mim, falando de mansinho
-“Moio, branco bom, mi dá gasóleo p’rá minha mentolia”.

Mágoa também por mim, aqui perdido….
Algures no Leste de Angola sem ter fim.
Mágoa sim, por mim, aqui perdido!
No meio de uma guerra sem sentido.



Filipe Raimundo, AB4, 1970

domingo, 14 de julho de 2019

MORTE NO MATO


sexta-feira, 25 de maio de 2012

NOITES DE ANGOLA de Filipe Raimundo



NOITES DE ANGOLA


 Em Angola,
 As noites eram tão quentes
 Como a febre dos doentes.

 Eram tão quentes as noites!
Tão vermelhas, das queimadas,
Tão negras...tão revoltadas...
Tão sequiosas...tão belas...
Como as mulatas deitadas
Nas cubatas sem janelas.

Angola 20-10-1972

  
Filipe Raimundo

sexta-feira, 13 de abril de 2012

A QUEIMADA - de Filipe Raimundo


A QUEIMADA



Houve hecatombes na selva
De feras surpreendidas nos covis.
Holocaustos ofertados
Aos deuses desconhecidos
Dos caçadores de ambições.

E as chamas em convulsões,
Traçavam rasgos no ar,
Para imitar o luar
Das noites iluminadas.

Gritavam macacadas espavoridas.
E as gazelas queimadas,
Gemiam no estertor das despedidas.

Os leões e as panteras
Lançavam roncos com eco
Na noite violentada.
E por cada baforada,
Extinguia-se uma vida com nobreza.

A noite ganhou mais vida
Com a morte da natureza.
Da terra brotava o sangue
Das bestas causticadas.
E as chamas ensanguentadas,
Davam matizes ao céu
De tintas nunca criadas.

Pinceladas,
Que um artista não traçou
Por impotência.
E do meio da violência
Sobressaia a imponência
Da grandeza da ribalta.
A noite já ia alta
E a selva sempre a arder.
Para trás ficava a cinza
Com um sabor quente ao prazer
Das grandes emoções.

E árvores velhas,
De milenares gerações,
Erguiam troncos queimados,
Plantados em orações.
Mas os deuses assustados
P'los homens destruidores,
Ficavam paralisados nos andores,
Enquanto os vis ditadores
Da morte e destruição,
Derrubavam com paixão,
A tiros de balas certeiras,
As feras que mais ligeiras,
Fugiam à expiação.

Filipe Raimundo
Imagem - Quadro de 
Lourdes Ximeno Lopes

sexta-feira, 9 de dezembro de 2011

CICLO INEXISTENTE por Filipe Raimundo


CICLO INEXISTENTE

Se a cada borrasca
Se segue uma acalmia.

Se às trevas de cada noite
Se segue a luz de um novo dia.

Se tudo é
Tão ciclicamente certo
Nesta Terra;

Porque razão a paz não vem
E só existe a guerra?

Henrique de Carvalho - 20/07/1972


Filipe Raimundo

sábado, 15 de outubro de 2011

SAUDADES DO ALENTEJO - por Filipe Raimundo


SAUDADES DO ALENTEJO

Ventos espanhóis
Rasgam charnecas verdes, de esperança
E de saudades;
E há donzelas campestres,
Nas portas de castanho,
Sem pintura.
De formosura real,
Sem cosméticos enfeites,
Essas deidades esquecidas
Dos montes alentejanos,
Vêem passar os zagalos
Com seus olhares maganos
De brejeiros,
Conduzindo p'las tardes mornas
De primaveras de Nilo,
Os rebanhos de carneiros.
Há idílios campesinos
Naqueles rostos trigueiros
De sóis sem poluição.
E em cada coração,
Palpita a afrodízia das vontades.
Saudades!
Saudades tenho-as eu,
Das tardes nos chaparrais,
Em que robustos ganhões,
Cantavam picando os bois,
A caminho dos currais.
E as canções entoadas,
Eram por força inspiradas
No tédio das solidões.
Ilusões,
De noites quentes,
Serões,
De luas inspiradoras,
Em que zagalos e pastoras
Entoavam melopeias,
Nas eiras,
De espigas e milho roxo atafulhadas.
Desfolhadas,
Vinho tinto,
Beijos roubados,
E violões dedilhados
Por lavradores de charrua.
A noite já não está nua.
Há volúpias de canções
A rastejar pelo brejo,
E nem as musas do Tejo
Para aqui foram chamadas,
Que estas gentes inspiradas
P'las raias da nostalgia,
Arrancam vozes trinadas
Às línguas sempre caladas,
Com extractos de poesia.


Angola, Maio de 1972


Um abraço
Filipe Raimundo

sábado, 25 de junho de 2011

SOLDADO FEITO por Filipe Raimundo


SOLDADO FEITO


De mim fizeram
Um soldado e me mandaram
P'rás terras de ninguém,
Lutar com alguém
Que não conheço
E não odeio.

De mim fizeram
Aquilo que agora sou:
Máquina de lutar,
Homem que não pode pensar.

De mim fizeram,
Um soldado e me impuseram
Condição de matar,
Para satisfazer ambições de glória
De homens sem razão.

De mim fizeram
Um soldado sem história,
Mais um soldado sem história.

Fizeram.
São eles que fazem tudo.
Fizeram soldado mudo
E deram-me uma espingarda.

Fizeram
um robot e me disseram:
“Vai para a guerra matar,
Que quando a guerra acabar,
Nós damos-te uma medalha.”

E deram-me,
Um uniforme e um número
Que é a minha identidade,
E disseram-me:
“Agora não tens idade,
Não tens nome,
Não tens nada,
A não ser o corpo pronto
Para receber uma bala.”



Filipe Raimundo
















domingo, 12 de junho de 2011

O QUE SOU? Por Filipe Raimundo


O que sou?

Tu meu amigo
Que vens não sabes de onde
E vais
Não sabes para onde
Em busca do que não tens…
Permite-me que te acompanhe
Pois também procuro o mesmo.

Eu…camarada
Procuro há muitos milénios
O que sou…e de onde vim.
E tu também és assim…
Tens a condição humana
De nunca estar satisfeito;
E o muito que tens feito
Para te poderes defenir
Só te abre novos abismos
Dde que não podes sair.

Mas não te digo que pares
Na marcha que iniciaste.
Vai…Corre pelas calhas da vida
Que eu correrei a teu lado,
E assim serei mais um louco,
Que o faz para não estar parado.
Farei perguntas aos deuses
Só para não ficar calado,
E sentirei a revolta
De não estar realisado;
E um dia morrerei
Com esta pergunta nos lábios:
O que fui?
Ou: O que sou?
De onde vim?
Para onde vou?
E a resposta não virá.
E tu também morrerás,
E todos hão-de morrer
Sem que venham a saber
O que foram
Ou porque o eram.
E o esforço que fizeram
Não lhes deu compensação.

Por isso presta atenção!
Vive a vida intensamente,
Mas vive-a…Vive-a mesmo!
Vive-a tão ferozmente
Que a sintas dentro de ti
A borbulhar…A ferver.
A vida….Essa vida que medimos
Em séculos ou em segundos
Segundo a pressa que temos,
Essa vida meu amigo,
Essa vida vale a pena ser vivida.
Acredita! Crê em mim
Pois não te estou a mentir.
Viver…meu amigo
Viver é muito mais do que existir.


Fortios, Janeiro de 2011

segunda-feira, 16 de maio de 2011

PEQUENO POEMA UTÓPICO por Filipe Raimundo



PEQUENO POEMA UTÓPICO


Se cada bomba, ao explodir,
Derramasse mil flores
E vitaminas.


Se cada bala, ao partir,
Levasse salmos de amor
E agasalhos.


Se cada canhão, troando,
Difundisse melodias.


Se assim fosse...


A guerra seria abençoada
Pelas suas vítimas.




Filipe Raimundo

terça-feira, 15 de março de 2011

PSICO-RACIAL por Filipe Raimundo



PSICO-RACIAL


No café,
Faustosamente recostados,
Comendo, bebendo e rindo
Estão homens brancos
Que os negros vão servindo.


Psico-racial,
- Li à dias no jornal.
Direitos cívicos para os africanos
Iguais aos que têm os metropolitanos.


- Li isto num jornal
E afinal,
O negro continua a ser o animal
Incorporado no material de consumo.


Este é o balanço,
Em resumo,
Da minha apreciação:
- Ainda há descriminação.


Filipe Raimundo

quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011

A DESPEDIDA por Filipe Raimundo



A DESPEDIDA



Mãe!
Quero dizer-te agora,
Que da partida
A hora está chegando.
E antes que vá por esses mundos fora,
Quero que fiques sabendo.
Mãizinha! quero que saibas
Que eu nunca te esquecerei,
Porque, mãe...
Sempre te amei...
E quando queria dizer-to,
Palavras nunca encontrei.
Agora, que vou partir
Para terras de além-mar,
Oiço, ao longe, o soluçar
Do teu coração partido...
Eu sou o teu filho querido,
Que não soube respeitar,
O muito que tu sofreste,
Para uma vida lhe dar.
Mas amo-te, cá no fundo,
E sei que para vir ao mundo,
Dores de parto tu sofreste,
E quando a vida me deste,
Sorriste, da dor esquecida.
Agora vou-te deixar...
Já sou grande,
Estou crescido,
Estou de soldado vestido
P´rá pátria ir defender,
Mas vou dizer-te, mãe querida,
Para que fiques a saber
Que te continuo a amar...
E quando um dia voltar,
A teu lado vou ficar,
Para o resto da minha vida.

Filipe Raimundo

quarta-feira, 24 de novembro de 2010

A camarata dos sonâmbulos


A noite já ia a meio

Mas o sono não chegava

Ao fundo o Gésu chorava

O Pilas gritava ao meio



E eu que também era recheio

Do maldito pavilhão

Não encontrava razão

Para aquele meu devaneio



Mil vezes corri pelo corredor

Tentando encontrar uma solução

Mas de mim ninguém tinha compaixão

Todos fingiam não ver a minha dor



Autómato mecanizado

Objecto de consumo nesta guerra

Ao ser deportado para esta terra

Disseram-me – “vai, és maior e vacinado”.



Filipe Raimundo

segunda-feira, 5 de abril de 2010

TANTOS










TANTOS

Eramos muitos!
Eramos tantos que por vezes,
Nos não encontrávamos no meio da multidão.
Mas eramos!...Estávamos lá!...e existiamos;
Em grupos!...Aos magotes!...
Gregáriamente unidos, como animais com medo!
Gregáriamente unidos, na esperança de uma vós.
Nós!...Soldados que nos fizeram.
Tantos, e contudo tão sós.
Nós!...Que nunca aceitámos ser
Aquilo que éramos.
Mas éramos!...
Uma colónia de loucos em busca de nós mesmos.
Por isso nos embriegávamos,
Para nos libertarmos da farda,
Que nos transformáva em máquinas humanizadas.
Por isso nos drogávamos,
Para alcançarmos nas abstrações do nada,
A dimensão dos nossos sonhos frustrados.
A realidade que nos impunham
Era demasiado cruel!...
Era brutal;
E nós nunca aceitamos ser
A incarnação do mal.
Mas eramos,
Lá!... Em África!...
Nesse Continente que eu antes sonhara virgem,
Natural.
Lá!...Nós fomos os desbravadores dos seus mistérios,
Lá!...Nós fomos os desfloradores
Da sua selvagem virgindade.
Lá!...Eu fui soldado sem vontade,
Por vontade de ditadores de gema;
E foi lá que eu colhi,
A fúria!...A raiva!...E a revolta
Com que escrevi este poema.


Escrito em Tancos em Maio de 1973
Filipe Raimundo