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domingo, 29 de março de 2020

UM ANTI-REQUIEM NO HOSPITAL


Deitado num convés de lençóis ondulados
Os barcos ao lado ostentam o próximo
Remanso dos adormecidos
A certa altura o tecto é uma ilusão de óptica
Torna-se um limite que os olhos perfuram
A certa altura de uma certa altura
Apagam-nos a claridade, é a hora
De atravessar as águas da noite
Como um bálsamo de Gileade
No silêncio hospitalar.
06/10/2018
© João Tomaz Parreira

domingo, 5 de janeiro de 2020

PARA DANÇAR UM TANGO


Um tango dança-se com faca
no olhar
e sapatos a acolchoar o silêncio
Um tango estilhaça
tudo o que está perto
o ar onde o corpo se contorce
onde as mãos afogam
mãos ou na cintura
navegam como se fosse
um rio de prata.

domingo, 30 de junho de 2019

SELVAGEM E TERNA RAPARIGA COM GALINHA, 1900


A ternura da rapariga do campo com uma galinha
Com os cabelos como um arbusto silvestre
Mas não é só isso, é também a tristeza
De amanhecer com roupa velha que repete os dias
E dos dóceis olhos
Distantes do futuro, mas ainda assim
O brilho do silêncio na sua solidão
Como um salgueiro em pé
Com o leve peso da galinha no seu ninho
Como uma branca tenra couve flor firme.
10/10/2018
© João Tomaz Parreira

domingo, 26 de maio de 2019

BANHO DE MAR


Começam por entrar as pernas
nuas hesitantes
e fincam-se como Rodes sobre o Egeu
a cintura depois
de inundados os calções
por fim o próprio umbigo
cordão que sempre nos ligou à vida
os braços nus abraçam
o que do sal começa a fervilhar na onda
como um feixe de dedos nossas mãos
vão abrindo sulcos na imaginação
até ao horizonte.


© João Tomaz Parreira

domingo, 5 de maio de 2019

A CATIVA

E os vendedores trouxeram uma mulher
apanhada na condição de ser mulher;
E, pondo-a no meio da praça, disseram:
Está à venda, manda a lei
do mais forte que a tal, como está
seja vendida, cubram por 800 moedas
a viagem e os despojos.
O seu nome é Rosa, e como a rosa
cobre o seu corpo com a nudez das pétalas.


09-09-2016
© João Tomaz Parreira
"Una Esclava en Venta" (c.1897) - óleo de José Jiménez Aranda (Sevilha, 1837 - 1903). A inscrição diz: “Rosa, 18 anos, venda por 800 moedas”

domingo, 24 de março de 2019

A MELANCOLIA DO PRÓDIGO


Tenho de chegar a casa
Tão longe a casa, cada dia é uma eternidade
Que não se completa
É preciso chegar a casa, como posso
Ter-me afastado tanto, as vides que vestiram
Os campos estão secas, quero de novo
As flores de macieira alegres
A espreitarem entre rostos de crianças
Tenho de chegar a casa, deixei tanto amor
E perda, a canção do mundo é vã
E cansou os meus ouvidos.




23-11-2016
© João Tomaz Parreira

domingo, 10 de fevereiro de 2019

IRREGULAR ODE AO ÓDIO


Houve estranhos frutos nos ramos
A balançar
Na brisa do Mississippi
Houve sangue nos olhos e sangue nas raízes
Mais fundas da alma
Cenas de cordeiros mansos guiados por lobos
Nas brisas do Sul, cenas pouco galantes
Fora de tempo, inspiradas de longe
Por um Führer louro
Faltará pouco para os alfaiates
Costurarem uma farda preta.
15/08/2017
© João Tomaz Parreira

domingo, 6 de janeiro de 2019

A PONTE DOS LAÇOS


A Ponte das Artes de Paris transfe-
Riu-se para o Canal Central de Aveiro.
À Ponte, a autêntica, a des Arts começaram

A chegar os cadeados já no século vinte e um
Quer dizer que não teve hipótese nenhuma
Apollinaire de o saber quando disse que o Sena
E seu amor passavam sob as pontes. Ele disse
A Mirabeau. As águas do Canal Central de
Aveiro passam sem amores, despercebidas
Sob uma pequena ponte que imita
A des Arts de Paris. As águas passam silen-
Ciosas, de pequenas vagas quando um
Moliceiro desempregado apenas com turistas
Passa agora. Os cadeados começam a prender
Pequenas fitas coloridas, com frases terríveis
A dizer Amo-te. L’amour c’est une imitacion.


03/08/2017
© João Tomaz Parreira

domingo, 25 de novembro de 2018

POEMA DO DIA DE HOJE


Nos teus derradeiros anos, sentávamo-nos
No café e antes que as palavras arrefecessem
Bebíamo-las de um sorvo, com alguns verbos
Psicológicos à mistura ( como dizia Wittgenstein)
Como crêr, pensar, imaginar
Como tudo seria se não houvesse a morte
Depois ficávamos com o silêncio quebrado
Por quem entrava e saía, como quem atravessava
Um relógio parado em ponto da tarde.
19/03/2018
© João Tomaz Parreira

quarta-feira, 17 de outubro de 2018

RESPOSTA QUE O POETA ENCONTROU ÀS SUAS QUESTÕES


Quando eu estiver mais cansado e a doença
Me der a tristeza das coisas belas, quando tiver
Apenas palavras para enxugar
Nos meus olhos as lágrimas, lerei
Os meus Salmos favoritos e os montes
Serão lagos de água clara no azul
Todas as montanhas são para subir
Lerei o trecho favorito
Da oração sacerdotal de Jesus Cristo
Onde deixou uma ponte entre nós e o Pai
E sentirei nos glóbulos doentes o valor
Da Graça bastante do meu Deus.

02/10/2018
© João Tomaz Parreira

domingo, 9 de setembro de 2018

A IDADE DO ESCURO


Como uma criança que pára no ângulo de um quarto escuro
Antes de entrar avalia os ruídos intocáveis, os silêncios
Que podem estar no fundo dos móveis, conhece com a luz
O que as gavetas guardam, mas no escuro outros receios
Vêm à flor da pele, Como uma criança que está perante
Os doces escondidos no armário e aguarda
Porque as mãos recusam, o que a ideia de pecado faz sentir
Deus atrás das latas, Como uma criança que ouve a sua
Estranha respiração enquanto espera.
20/01/2018
© João Tomaz Parreira

domingo, 5 de agosto de 2018

MENINA DE ANGOLA, 1969



A tua pele dissolvia-se na brancura
Dos teus olhos, olhavam-me mais com surpresa
Do que tristes, estavas compenetrada

Na respiração do teu irmão junto ao coração
Braços e mãos de menina mulher durante todo o dia
Nenhuma outra virgem seria tão imaculada
Sentada na quietude do chão quente de África.


12/07/2018
© João Tomaz Parreira 
(Fotografia minha)

domingo, 1 de julho de 2018

AEROGRAMA DA GUERRA COLONIAL


“Sabe o ícone a escutá-la, grave, com pesar,
Que o filho que ela espera nunca há-de voltar.”
Konstandinos Kavafis

Filho, o teu silêncio só Deus sabe por que
Nós sabemos que depois de algum tempo
Esfria a vontade de escrever e o assunto
Vai passando de moda ou espera
Mas a tua carta sempre foi tão pontual
E riamo-nos à mesa, como se o que escrevias
Fosse a tua voz, Filho o teu silêncio agora
Que nos não dá respostas, sabe Deus por que.


5/2018
© João Tomaz Parreira

domingo, 13 de maio de 2018

AINDA QUE O ARAME FARPADO


Podem os amantes aos olhos de quem passa 
Ignorar os ramos pontiagudos
Do arame farpado, podem ignorar o futuro

Um ombro e um coração que sai do peito
Um homem e uma mulher
Com palavras infinitas nos ouvidos
Cercados - não importa - de ruídos, ambos
Se abraçam ao ritmo invisível do silêncio.

03/10/2017
© João Tomaz Parreira 


(Fotografia de Robert Doisneau)

domingo, 8 de abril de 2018

FOTOGRAFIA



O lado exterior da alma destas crianças.
Cresceram, já por certo não caberão nos corpos, nenhum
pintor escurecia assim estes olhos infantis.
Jamais se repetirá a altura, o riso, um olhar
à espera, um pé descalço
a receber o calor que vem do chão.
As tais crianças onde estão? Tão perto de mim
esta fotografia capturou a eternidade.

27/7/2017
© João Tomaz Parreira


domingo, 11 de março de 2018

MARIA


Desconfiemos das águas dos oceanos
Desconfiemos da poesia das nuvens
muito brancas
São uma central eléctrica que rodopia
um redemoinho a quinze quilómetros no céu
Desconfiemos da força do sol
sobre as águas, de onde os furacões são
válvulas de escape. Senhor, livrai-nos
de Maria e do aquecimento dos mares.


20/09/2017
© João Tomaz Parreira

domingo, 11 de fevereiro de 2018

O MILÉNIO


O leão não será mais rápido que o boi
em busca de pastagens
o cordeiro e o pássaro nascerão

de uma fórmula poética e o lobo
terá um beijo na sua boca
Os jogos das crianças
serão com as aves
uma pomba e uma águia
hão-de navegar para o mesmo lado
em águas de branco lôdo
Um anjo passará da forma mais lírica
possível sobre a terra.


© João Tomaz Parreira

domingo, 14 de janeiro de 2018

VAN GOGH


Vivia no paraíso até que o inferno destruiu
A sua orelha, as cores
Abundantes e os ares azuis do mar

As searas de corvos sobre a sua cabeça
Haja arte
E houve os céus a entrarem em colapso
Em fusão nuclear a rebolarem nos ventos
Haja trevas
E houve montes de feno no lugar das estrelas.


08/09/2017
© João Tomaz Parreira 

(Imagem: os furacões Katia, Irma e José)

domingo, 24 de dezembro de 2017

O NATAL DE UM MENINO NEGRO


Não havia pastores em redor, andavam longe
As cabras cheirando no chão o alimento
O chão era igual, como há dois mil anos
Duro como na estrebaria, nem sequer a leveza
Da estrela a aquecer o lugar, a rua
Tinha a porta aberta como uma casa
E o menino igual a Ti, um Jesus africano dormia
Guardado por uns olhos tão grandes
Como o Amor, nas mãos a descreverem
O Amor. Eu vi uma mulher menina
Como Maria, com um pano tão branco
Como o silêncio a segurar os cabelos crespos.
14/12/2017
© João Tomaz Parreira

domingo, 10 de dezembro de 2017

A FESTA


Só o boi e o jumento comparecem.
E os anjos em multidão
já não desferem o cântico
- que é o céu caindo na noite.
Na grande hospedaria do azul,
no mundo, ou apenas em metade
do mundo, as manjedouras dormem
vazias.
As mãos dos homens sentem
o que faz o coração, fecham
as janelas de Belém
uma vez mais sobre os ruídos.
Sobre quem passa preso à vida
.
1992
© João Tomaz Parreira