sexta-feira, 25 de novembro de 2011

ANTI-ÉPICO - por J.T.Parreira

                                          Mário Cesariny - 1974/1985

 ANTI-ÉPICO

“ Homer's ghost came whispering to my mind”
Patrick Kavanagh


Estou inclinado a perder a fé em Hamlet
quando a tragédia se fecha
na última cortina
e a fé na cegueira de Homero
que criou a beleza de Penélope
e em Sófocles
a modelar o corpo de Antígona
como a sepultura de si mesma
estou inclinado
a perder até a fé nos deuses
que criaram a sua própria importância
contra o homem.


5/10/2011

J.T.Parreira

O assunto do poema é a poesia

sexta-feira, 28 de outubro de 2011

OLHARES ITALIANOS - por J.T.Parreira




OLHARES ITALIANOS


Vem à superfície das ondas
cinzentas
o branco da sereia

Como uma linha perfeita
de um caule amanhecido
ou uma linha de horizonte
vertical
para onde os olhos nas órbitas
rodam em cardume


É uma estátua sem sombras
passa, como a aurora
sem deixar provas, só indícios
de um perfume.

4/10/2011

J.T.Parreira
O assunto do poema é a poesia

sábado, 15 de outubro de 2011

SAUDADES DO ALENTEJO - por Filipe Raimundo


SAUDADES DO ALENTEJO

Ventos espanhóis
Rasgam charnecas verdes, de esperança
E de saudades;
E há donzelas campestres,
Nas portas de castanho,
Sem pintura.
De formosura real,
Sem cosméticos enfeites,
Essas deidades esquecidas
Dos montes alentejanos,
Vêem passar os zagalos
Com seus olhares maganos
De brejeiros,
Conduzindo p'las tardes mornas
De primaveras de Nilo,
Os rebanhos de carneiros.
Há idílios campesinos
Naqueles rostos trigueiros
De sóis sem poluição.
E em cada coração,
Palpita a afrodízia das vontades.
Saudades!
Saudades tenho-as eu,
Das tardes nos chaparrais,
Em que robustos ganhões,
Cantavam picando os bois,
A caminho dos currais.
E as canções entoadas,
Eram por força inspiradas
No tédio das solidões.
Ilusões,
De noites quentes,
Serões,
De luas inspiradoras,
Em que zagalos e pastoras
Entoavam melopeias,
Nas eiras,
De espigas e milho roxo atafulhadas.
Desfolhadas,
Vinho tinto,
Beijos roubados,
E violões dedilhados
Por lavradores de charrua.
A noite já não está nua.
Há volúpias de canções
A rastejar pelo brejo,
E nem as musas do Tejo
Para aqui foram chamadas,
Que estas gentes inspiradas
P'las raias da nostalgia,
Arrancam vozes trinadas
Às línguas sempre caladas,
Com extractos de poesia.


Angola, Maio de 1972


Um abraço
Filipe Raimundo

terça-feira, 11 de outubro de 2011

OUTONAL - por José Felix



outonal

na manhã de outono
respiram as aves.
o gesto que me
consome no corpo
o texto, a emoção
é um fogo fátuo
fruto, danação
de que permanece
a cinza, o sabor
acre do epicarpo.

a respiração
fácil do desejo
manhã transumante
voluta de fumo
no meu corpo aceso

Jose Felix
2011.9.26

sexta-feira, 30 de setembro de 2011

EXPOSIÇÃO DE PINTURA - Por J.T.Parreira




EXPOSIÇÃO DE PINTURA


Um pássaro fractal

sai da parede

um campo de algodão enche

os nossos ouvidos de silêncio

ao lado o rio parte

o estado dos olhos e da alma

do Narciso

a olharem de través

dois olhos num umbigo

e num espelho uma mulher que ocupa

os quatro cantos

Magritte se esfuma num cachimbo

e um trapézio

num corpo de ave.

que esvoaça de fugida.



© J.T.Parreira

terça-feira, 16 de agosto de 2011

PALAVRAS FEROZES - por J.T.Parreira


PALAVRAS FEROZES

“Há palavras impossíveis de escrever”
Mário Cesariny



Há palavras impossíveis de escrever

fazem ranger

nos ossos a realidade

sujam os olhos

como um mau cheiro

corrompem os ouvidos

Morte é uma dessas

impossível

se disser, a morte da criança

abala como um tremor de terra

o coração

terrível a palavra Abismo

que às vezes sentimos nos joelhos

ou a Queda que fez a solidão

no Paraíso.



© J.T.Parreira

domingo, 17 de julho de 2011

BANHO DE MAR - por J.T. Parreira



BANHO DE MAR


Começam por entrar as pernas

nuas hesitantes

e fincam-se como Rodes sobre o Egeu

a cintura depois

de inundados os calções

por fim o próprio umbigo

cordão que sempre nos ligou à vida

os braços nus abraçam

o que do sal começa a fervilhar na onda

como um feixe de dedos nossas mãos

vão abrindo sulcos na imaginação

até ao horizonte.



© J.T.Parreira

sábado, 25 de junho de 2011

SOLDADO FEITO por Filipe Raimundo


SOLDADO FEITO


De mim fizeram
Um soldado e me mandaram
P'rás terras de ninguém,
Lutar com alguém
Que não conheço
E não odeio.

De mim fizeram
Aquilo que agora sou:
Máquina de lutar,
Homem que não pode pensar.

De mim fizeram,
Um soldado e me impuseram
Condição de matar,
Para satisfazer ambições de glória
De homens sem razão.

De mim fizeram
Um soldado sem história,
Mais um soldado sem história.

Fizeram.
São eles que fazem tudo.
Fizeram soldado mudo
E deram-me uma espingarda.

Fizeram
um robot e me disseram:
“Vai para a guerra matar,
Que quando a guerra acabar,
Nós damos-te uma medalha.”

E deram-me,
Um uniforme e um número
Que é a minha identidade,
E disseram-me:
“Agora não tens idade,
Não tens nome,
Não tens nada,
A não ser o corpo pronto
Para receber uma bala.”



Filipe Raimundo
















quinta-feira, 23 de junho de 2011

AS SOMBRAS ESCONDIDAS de José Felix



as sombras escondidas


como um bailado clássico
a espuma da folhagem
reinventa silêncios
em orações de sul.

são tão frágeis os ramos
que a seiva nobre deixa
feridas nas palavras
breves, graves, no tronco
solitário do chão.

dança o tempo no olhar
e o vento chove a água
nas sombras escondidas.


Jose Félix




domingo, 12 de junho de 2011

O QUE SOU? Por Filipe Raimundo


O que sou?

Tu meu amigo
Que vens não sabes de onde
E vais
Não sabes para onde
Em busca do que não tens…
Permite-me que te acompanhe
Pois também procuro o mesmo.

Eu…camarada
Procuro há muitos milénios
O que sou…e de onde vim.
E tu também és assim…
Tens a condição humana
De nunca estar satisfeito;
E o muito que tens feito
Para te poderes defenir
Só te abre novos abismos
Dde que não podes sair.

Mas não te digo que pares
Na marcha que iniciaste.
Vai…Corre pelas calhas da vida
Que eu correrei a teu lado,
E assim serei mais um louco,
Que o faz para não estar parado.
Farei perguntas aos deuses
Só para não ficar calado,
E sentirei a revolta
De não estar realisado;
E um dia morrerei
Com esta pergunta nos lábios:
O que fui?
Ou: O que sou?
De onde vim?
Para onde vou?
E a resposta não virá.
E tu também morrerás,
E todos hão-de morrer
Sem que venham a saber
O que foram
Ou porque o eram.
E o esforço que fizeram
Não lhes deu compensação.

Por isso presta atenção!
Vive a vida intensamente,
Mas vive-a…Vive-a mesmo!
Vive-a tão ferozmente
Que a sintas dentro de ti
A borbulhar…A ferver.
A vida….Essa vida que medimos
Em séculos ou em segundos
Segundo a pressa que temos,
Essa vida meu amigo,
Essa vida vale a pena ser vivida.
Acredita! Crê em mim
Pois não te estou a mentir.
Viver…meu amigo
Viver é muito mais do que existir.


Fortios, Janeiro de 2011

Inédito - de J.T.Parreira

Um pássaro fractal


sai da parede
um campo de algodão enche
os nossos ouvidos de silêncio
ao lado o rio parte
o estado dos olhos e da alma
do Narciso
a olharem de través
dois olhos num umbigo
e num espelho uma mulher que ocupa
os quatro cantos
Magritte se esfuma num cachimbo
e um trapézio
num corpo de ave.
que esvoaça de fugida.

24/5/2011

(c) J.T.Parreira (inédito)


Do Outro Lado da Fala por José Felix


do outro lado da fala

do outro lado da fala
a infância é um duende
na exploração dos pássaros.
caminha sub-reptícia
no segredo das árvores
acariciando ecos
suspensos como frutos
que vão caindo, ou perdem-se
no sabor da linguagem
feita literatura.
é aí que se revive
a cor das plantas íntimas
a sombra dos objectos
e até a ressonância
dos nomes que não moram
nos corpos que vestiram.
do outro lado da voz
a língua é um desejo
no halo de um sol de bruma.


in "do outro lado da fala"


Jose Felix

segunda-feira, 16 de maio de 2011

PEQUENO POEMA UTÓPICO por Filipe Raimundo



PEQUENO POEMA UTÓPICO


Se cada bomba, ao explodir,
Derramasse mil flores
E vitaminas.


Se cada bala, ao partir,
Levasse salmos de amor
E agasalhos.


Se cada canhão, troando,
Difundisse melodias.


Se assim fosse...


A guerra seria abençoada
Pelas suas vítimas.




Filipe Raimundo

INVENTÁRIO MARÍTIMO por J. T. Parreira


Inventário Marítimo


Um mergulhão se despega
das rochas, uma gaivota
prateia o vento..., solta
um pio, que é uma brecha
pequenina no silêncio
uma andorinha
do mar perde-se
no sol
um albatroz erra o seu peso
sobre as águas, que deixam
escapar pequenos ais
nas vagas
de espuma que se erguem.


20/9/2010
João Tomaz Parreira

O PINCEL DE PICASSO por J.T. Parreira



O Pincel de Picasso


Vejo no pincel de Velázquez
a luz branca que penteia
os cabelos das Meninas...


como vejo no pincel de Picasso
como vivem
Les Demoiselles d' Avignon


Não como no pincel de Van Gogh
onde nem sempre os amarelos
são a alegria pura


No pincel de Arles vejo
a dança do vento
na anatomia dos trigos


e o sol que se estende
nas pétalas dos girassóis
e a morte que parte o céu


vejo no pincel de Van Gogh
os corvos e auto-retratos
despenteando o silêncio.


15/3/2011
João Tomaz Parreira

sábado, 16 de abril de 2011

JACOB E O ANJO por João T. Parreira


Jacob e o Anjo


Há as mãos efémeras de Jacob, que tocaram
e palparam o volume suave do eterno
um duelo desigual
...e existe um rio que encheu de cristais
os olhos de água de Jacob
Há uma estrela que apaga, por último
as luzes ao fundo do céu
Existe o dia a nascer repartido
pelos corpos do Anjo e de Jacob
um levando o outro e as suas vozes
pelos veios da água poderiam
ser ouvidas muito longe.


7/3/2011
João Tomaz Parreira

sexta-feira, 15 de abril de 2011

O ENGRAIXADOR, por J.T.Parreira

O ENGRAIXADOR


Nas costas carrega o brilho alheio
dos sapatos dos outros
seus pés desnudam a luz da calçada
...suas costas voltadas
para a laranja do sol
e a brisa da tarde a tremer nos calções
e o dia
quase no chão a ir devagar
O garoto caminha nas pegadas
de regresso a nada.

João Tomaz Parreira

sexta-feira, 8 de abril de 2011

A ODE CHAMADA MARÍTIMA de J.T.Parreira



A ODE CHAMADA MARÍTIMA



«Ah, todo o cais é uma saudade de pedra!»
Á.Campos



Dispondo do vento sobre o papel
e do cheiro a oceano que vem
do meio da multidão
das águas, sozinho, em pé
no baloiço do meu próprio corpo
escrevo como outrora o hebreu
à beira do Eufrates
e o que choro é um
choro nítido a meu modo
ao cair das tardes
no cais molhado de gaivotas
deserto, pequeno e sem viagens.


J.T.PARREIRA

Poemas de 2010

terça-feira, 15 de março de 2011

PSICO-RACIAL por Filipe Raimundo



PSICO-RACIAL


No café,
Faustosamente recostados,
Comendo, bebendo e rindo
Estão homens brancos
Que os negros vão servindo.


Psico-racial,
- Li à dias no jornal.
Direitos cívicos para os africanos
Iguais aos que têm os metropolitanos.


- Li isto num jornal
E afinal,
O negro continua a ser o animal
Incorporado no material de consumo.


Este é o balanço,
Em resumo,
Da minha apreciação:
- Ainda há descriminação.


Filipe Raimundo

A BELEZA A DESCER A RUA por J.T.Parreira


A BELEZA A DESCER A RUA

Dança Pavlova quando passa
seus pés como lírios do campo
ondulam ao vento, alparcas
aladas de outro tempo.

Bebem seus olhos o bulício
das manhãs nas ruas

A rapariga anónima
que estende pelo ar
a sua pressa
e um perfume

Nenhum relógio pára
ou desconta esse momento
da beleza.

J.T.Parreira
2010

sexta-feira, 4 de março de 2011

UM PAR DE BOTAS por J.T.Parreira


UM PAR DE BOTAS


«Os sapatos grosseiros podem ser tão interessantes como as rosas»

Van Gogh


Há botas velhas tão limpas
como rosas
De pétalas dobradas, tristes
canos que adornaram
perónios orgulhosos

Botas à volta das quais
o vento e a poeira
rodopiam, rosas
que esperam a calma
das mãos que as depositem
num canto da sala

Há botas tão interessantes
como as rosas
como o veludo das rosas
para nos adoçar os dedos

Botas velhas para o secreto
movimento dos pés.


J.T.PARREIRA
Poemas de 2010

sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011

O SORRISO DE DA VINCI por J.T.Parreira



O SORRISO DE DA VINCI


O sorriso como uma nuvem
ténue, impreciso, sobre o qual os olhos
de Gioconda se desviam, parou
em vão batemos à porta
do mistério, morremos
e o sorriso continua

Entramos no sorriso
como Leonardo entrou e não há mais
o fundo da paisagem.

J.T.PARREIRA

Poemas de 2010

quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011

A DESPEDIDA por Filipe Raimundo



A DESPEDIDA



Mãe!
Quero dizer-te agora,
Que da partida
A hora está chegando.
E antes que vá por esses mundos fora,
Quero que fiques sabendo.
Mãizinha! quero que saibas
Que eu nunca te esquecerei,
Porque, mãe...
Sempre te amei...
E quando queria dizer-to,
Palavras nunca encontrei.
Agora, que vou partir
Para terras de além-mar,
Oiço, ao longe, o soluçar
Do teu coração partido...
Eu sou o teu filho querido,
Que não soube respeitar,
O muito que tu sofreste,
Para uma vida lhe dar.
Mas amo-te, cá no fundo,
E sei que para vir ao mundo,
Dores de parto tu sofreste,
E quando a vida me deste,
Sorriste, da dor esquecida.
Agora vou-te deixar...
Já sou grande,
Estou crescido,
Estou de soldado vestido
P´rá pátria ir defender,
Mas vou dizer-te, mãe querida,
Para que fiques a saber
Que te continuo a amar...
E quando um dia voltar,
A teu lado vou ficar,
Para o resto da minha vida.

Filipe Raimundo

quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011

FALTA-ME UMA PALAVRA por J. T. Parreira



FALTA-ME UMA PALAVRA

Me falta una palabra sólo
Ángel Gonzaléz


Esquecida em vossos bolsos
podeis ter a palavra
que ocupe a minha boca silenciosa
que preciso
para com ela cavar no escuro
um veio de ouro
por que a escondeis
quando pode ser um vaso
grego um vaso etrusco
a derramar o sol
nestes meus olhos já cansados
Um sorriso esquecido
em vossos bolsos, como estrela
diminuta escondida por uma nuvem
uma palavra sozinha e triste
serve para tirar os meus pés
deste mundo. Uma gaivota
que no vento azul do oceano
interrompe a luz.

J.T.Parreira 2010




segunda-feira, 17 de janeiro de 2011

FADO DO ESPECIALISTA




FADO DO ESPECIALISTA

Onde está o nosso cabo
Esse bravo do passado
Da heróica aviação. (Bis)
Que até com o fato emprestado
Parecia homem honrado
Mas no bolso sem tostão. (Bis)

São Cabos Especialistas,
Mecânicos electricistas
Ou Técnicos de avião. (Bis)
Das boleias nas estradas
Às noitadas bem passadas
São tempos que já lá vão. (Bis)

E entre os controladores
Operadores, aviadores
Do pifão e coboiada. (Bis)
Por causa de um avião
Há confusão discussão
Resolvida à bofetada. (Bis)

Onde está o nosso cabo
Esse bravo do passado
Da heróica aviação. (Bis)
Que até com fato emprestado
Parecia Homem honrado
Mas no bolso sem tostão. (Bis)
***
Enviado por Álvaro de Jesus
1º Cabo OPC / AB-4
1969/1973

quarta-feira, 24 de novembro de 2010

A camarata dos sonâmbulos


A noite já ia a meio

Mas o sono não chegava

Ao fundo o Gésu chorava

O Pilas gritava ao meio



E eu que também era recheio

Do maldito pavilhão

Não encontrava razão

Para aquele meu devaneio



Mil vezes corri pelo corredor

Tentando encontrar uma solução

Mas de mim ninguém tinha compaixão

Todos fingiam não ver a minha dor



Autómato mecanizado

Objecto de consumo nesta guerra

Ao ser deportado para esta terra

Disseram-me – “vai, és maior e vacinado”.



Filipe Raimundo