domingo, 30 de setembro de 2018

DEDICO AO MAR


Que do seu barco caiu
O rio te engulio
O teu corpo sumio
Nunca mais ninguem te viu
Foste levado para o mar
Eu sempre te senti perto mim
Algo que não sei explicar
Tantas noites estás junto de mim
Como tenho esse sentimento
Pouco a pouco trasmitido
Deve fazer parte de algo
O qual eu não acredito
Á noite prescuto o mar
Oiço um cantar
Custa-me a acreditar
Sérá que alguém quer falar
No verão ou no Inverno
Sinto o teu chamar
Olho para o mar
Até que me mandas deitar
Adoravas o mar como eu
Un dia nos vamos encontrar
Abraços e cantigas
Vamos os dois ensaiar
Deste-me o amor pelo mar
Eu nunca te agradeci
Temos tempo para partilhar
Eu prometo que vou lá estar
Vais continuar a cantar
Eu ouvindo canções de embalar
Meus olhos sempre postos no mar
Pois muito perto de ti estou a morar
O Satanás 

M.P."Bica"

domingo, 23 de setembro de 2018

AOS AMIGOS


Poeta? Não sou! Pois tudo quanto escrevo em verso
Esvai-se como fumo em sombra de lonjura 
Ou como fogo-fátuo em noite espessa, escura,
E sinto-me em vazio tristemente imerso!

É certo que por todo o vasto Universo
Me lanço com ardor e sempre na procura
De harmonia, de luz, de beleza e de candura,
Que possa traduzir em poema lindo e terso.

Mas ao reler o que traduzo em poesia,
Vejo nesse intenso desejo que me guia,
Uma pálida imagem dum sonho de infância.

Porém... relendo, uma vez mais, o que escrevi,
Talvez eu seja um poeta em musa que sorri
Ao meu gosto secreto duma inata ânsia.


J. Corredeira

domingo, 16 de setembro de 2018

O MEU PEDIDO


---Quando eu morrer!
Quero que ninguém chore por mim,
Que me dêm sepultura...
Pobrezinha, como os demais,
Um monte de terra escura
Bem juntinho ao de meus pais!
Onde eu possa finalmente,
Voltar como toda a gente,
Ao triste pó de onde vim!...
É só isto que espero,
Quero um caixão pobrezinho!
Onde não ponham flores,
Pois eu, corpo triste,
Chaga sem dores,
Comecei a viver
Na saudade dos que vivem.
E se eu lá longe morrer,
Não me deixem lá ficar,
Não se esqueçam que pedi;

Eu só quero repousar,
---Na terra onde nasci!...

Floriano H. Silva
HC,


domingo, 9 de setembro de 2018

A IDADE DO ESCURO


Como uma criança que pára no ângulo de um quarto escuro
Antes de entrar avalia os ruídos intocáveis, os silêncios
Que podem estar no fundo dos móveis, conhece com a luz
O que as gavetas guardam, mas no escuro outros receios
Vêm à flor da pele, Como uma criança que está perante
Os doces escondidos no armário e aguarda
Porque as mãos recusam, o que a ideia de pecado faz sentir
Deus atrás das latas, Como uma criança que ouve a sua
Estranha respiração enquanto espera.
20/01/2018
© João Tomaz Parreira

domingo, 2 de setembro de 2018

OS LIVROS E AS ÁRVORES


verto nas mãos os livros. como a águaque escorre livre do folhear das árvores,semeio a sede nos lábios, a frágua
que aquece a raiz das palavras breves.
a nervura do verbo no pecíolo
que sobe até às flores, no suporte
das páginas, dos ramos, o capítulo
das pétalas labiadas de tal arte.
é o tronco que traz a seiva pura,
o rio da palavra que murmura
e desagua após mil marinhagens
no mar da língua. na total candura
transporto os livros. a palavra dura
enquanto duram todas as viagens.
os livros são das árvores, as vagens
cujas sementes gradam na leitura
josé félix

domingo, 26 de agosto de 2018

O RELÓGIO


O tempo vai passando
O medo continuando
Soluções protelando
O fim vai chegando
O tempo sempre a fugir
O agora é o amanhã
O tempo vai passando
velhos vamos ficando
A vida vai avançando
O tempo vai passando
Nós vamos ficando
O relógio vai avançando

M.P.

domingo, 19 de agosto de 2018

MONTESINHO-OU A VOSSA AMIZADE


...E ao contemplar as rosas do meu jardim,
Eu sinto nova aragem dentro de mim
Diluindo a pensativa soledade.
E amo do sol a luz, que gera a cor,
O encanto e a beleza duma flor,
Mas muito mais eu amo a amizade.
Jc
In" espelho de poesia"

domingo, 12 de agosto de 2018

E SOU FELIZ....


Hoje não escrevo
Nem quadras
Nem poemas
Nem nada.
Não quero inventar problemas
Por todos resolvidos.
Deixem-me ser
Um homem qualquer,
Tão saudável
Como um pintor da construção civil
Num domingo de sol,
Ou como um rouxinol
Que canta sem saber que canta
E nos agrada.

Hoje não fiz
Nem versos
Nem poemas
Nem nada
E sou feliz...

Floriano H. Silva
HC, 16/4/1968

domingo, 5 de agosto de 2018

MENINA DE ANGOLA, 1969



A tua pele dissolvia-se na brancura
Dos teus olhos, olhavam-me mais com surpresa
Do que tristes, estavas compenetrada

Na respiração do teu irmão junto ao coração
Braços e mãos de menina mulher durante todo o dia
Nenhuma outra virgem seria tão imaculada
Sentada na quietude do chão quente de África.


12/07/2018
© João Tomaz Parreira 
(Fotografia minha)

domingo, 29 de julho de 2018

BUCÓLICA


as cabras trazem
o cheiro de montanhas impossíveis
e como numa história infantil
a mãe sossega a água na neblina.
vêm os pássaros, o canto
gregoriano detrás da muralha
e o desejo da sede
no poço do caminho.
há dias na pergunta dos murmúrios
que ficam presos na brisa das árvores.
josé félix

domingo, 22 de julho de 2018

RAZÃO/SOLIDÃO


Deito-me com a tua imagem
Tentando entender a razão
Encetamos uma viagem
Vais junto do meu coração
O que provocou tal sensação
Será simplesmente atração
Ou o medo da solidão
Acordo sem perceber a razão
Novo dia já começou
A sensação continuo
A dúvida me assaltou
Atração ou solidão.
M.P.

domingo, 15 de julho de 2018

CRAVOS DE SONHO


Porque te vi nascer, porque os abutres te secaram pétalas, sonho poesia. JC

Sermos livres
livres como o desejo
na liberdade de pensamento
de olhos que olhem e não vejam
senão o que se vê
de línguas limpas
que não apeteçam a podridão
de códigos que não sejam
letra morta onde tudo se lê
menos a palavra amor e liberdade


J.Corredeira

domingo, 8 de julho de 2018

Ó DEUS !


Já me conheces, Deus.
Tenho pecados,
Mas não é minha culpa toda.
Eu fui conviva
Da grande boda,
Dos seus cuidados,
Que não ouviram cuidados teus.

Vai longa a festa.
Prazer esgotado.
Nódoas de fado...
Pouco mais resta,
Nada mais digo.

Ó Deus!
Se podes,
Sê meu amigo.


Floriano H. Silva
HC, 20/4/1968

domingo, 1 de julho de 2018

AEROGRAMA DA GUERRA COLONIAL


“Sabe o ícone a escutá-la, grave, com pesar,
Que o filho que ela espera nunca há-de voltar.”
Konstandinos Kavafis

Filho, o teu silêncio só Deus sabe por que
Nós sabemos que depois de algum tempo
Esfria a vontade de escrever e o assunto
Vai passando de moda ou espera
Mas a tua carta sempre foi tão pontual
E riamo-nos à mesa, como se o que escrevias
Fosse a tua voz, Filho o teu silêncio agora
Que nos não dá respostas, sabe Deus por que.


5/2018
© João Tomaz Parreira

domingo, 24 de junho de 2018

POEMA DA NOITE


a luz. a noite. a palavra pedra
na iluminação escura do caminho.
prende-se a voz nas fragas transmontanas,
na sombra dos duendes e na sombra
das outras sombras que caminham sós
em nocturnais conversas, fantasias
de outras realidades consentidas.
destinos são caminhos programados
na luz escura dos desejos que
sombreiam águas, também margens secas
que suportando o leito da viagem
cansam chegadas numa sede calma.
as pedras no caminho são sinais
das luzes mais intensas da jornada.
josé félix

domingo, 17 de junho de 2018

SAURIMO É A BANDA !


Saurimo é a banda
Lunda sul é a minha terra
Eu sou da terra do Mamu
Eu sou da terra do mu mavu
Eu sou da terra do Kalapacana
Eu sou da terra Lunda Chokwe
Eu sou da terra do Nkumbi nkumbi
Eu sou da terra do Txicumbi do mucanda e do txole
Eu sou da terra do rei Mwatxissengue Watembo
Eu sou da terra do Camanga( diamante)
Eu sou da terra que é governada por um Homem
Eu sou da terra da matamba ( kizaca )
Eu sou da terra do Ufatchi ( chamado molho sujo )
Eu sou da terra do makunde landa ( feijão )
Eu sou da terra do Ika
Eu sou da terra da Mwana pwó
Eu sou da terra em que anteriormente era denominada de vila Henrique de Carvalho
Eu sou da terra em que no dia 28 completa 62 anos desde o dia que foi reconhecida como cidade
Eu sou da terra do kutxi kanawa
Eu sou da terra da rainha Lueje A'Nkonde
Eu sou da terra do rio Mwangueji
Eu sou da terra do rio Chicapa
Eu sou da terra do rio Txihumbué umas das maravilhas de angola
Eu sou da terra sagrada Lunda Sul que tem a capital de Saurimo
E tem 4 municípios
Nomeadamente
Dala
Saurimo
Cacolo
Muconda
Eu sou da terra em que todo mundo se conhece rsrsr
Eu sou da terra do Txianda e do kafundeji
Eu amo a minha banda



Publicado por Dionisio Solochi UB em Adm. Municipal de Saurimo
28/5/2018

domingo, 10 de junho de 2018

A MINHA BICA


As marchas a desfilar
A companhia espectacular
Nós todos a vibrar
Com a BICA a actuar
Rapazes e raparigas a cantar
Todas as marcações no lugar
Nós sempre a encorajar
Este ano é para ganhar
As pedras das escadinhas
Vão todas ecoar
Recordando todas as vitórias
deste lindo bairro milenar
M.P.

domingo, 3 de junho de 2018

EUTANÁSIA (Porque é Domingo)


Também eu me divido
Na controversa opinião,
Mas antes que decidam
“Capem-se”!...
Sem rebuço e em vida,
Os abutres vilões da Nação!


Jc

domingo, 20 de maio de 2018

SAUDADES


Na vida morta!...
Se tudo é sofrer
Só poderei ter
Saudades do mal;
Ah, triste afinal
Quem não tem ninguém,
Nem saudades tem.


Floriano H. Silva
HC, 15/10/1967

domingo, 13 de maio de 2018

AINDA QUE O ARAME FARPADO


Podem os amantes aos olhos de quem passa 
Ignorar os ramos pontiagudos
Do arame farpado, podem ignorar o futuro

Um ombro e um coração que sai do peito
Um homem e uma mulher
Com palavras infinitas nos ouvidos
Cercados - não importa - de ruídos, ambos
Se abraçam ao ritmo invisível do silêncio.

03/10/2017
© João Tomaz Parreira 


(Fotografia de Robert Doisneau)

domingo, 6 de maio de 2018

PORQUE OS TEUS OLHOS PROMETIAM PARAÍSOS...


...diamantes, pérolas e rubis
que só as névoas dos meus garantiam
construí-te sólido sobre balsa e gesso,
ilhas e lagos que não existiam
e que a ampulheta sempre me avisou,
não fosses tu voar sobre sonhos
de papel, de quimeras e desejos
etéreas pétalas, fugazes...
.

LOVE SONG TO A STRANGER

(Words and Music by Joan Baez)

domingo, 29 de abril de 2018

O OUTRO - À GUISA DE EPITÁFIO


o outro - à guisa de epitáfio
não tenho a ousadia dos incautos
nem a subserviência dos fracos
e toda a vida me tenho pautado
na verticalidade das palavras.
estas, tal como o homem que constrói
a catedral para divinizar
o maior anseio das almas feridas,
estão sujeitas à mediocridade
pela contemplação vã, desmedida,
da semântica fútil e tão breve.
pois é. só que as palavras e o homem
fazem parte do mesmo tronco vivo;
a palavra declina o livre arbítrio
e faz o homem cego ou iluminado
que espelha sempre o outro no seu eco.
josé félix

terça-feira, 24 de abril de 2018

CRAVOS DE SONHO


(Porque te vi nascer, porque os abutres te secaram pétalas, sonho poesia).JC
Sermos livres
livres como o desejo
na liberdade de pensamento
de olhos que olhem e não vejam
senão o que se vê
de línguas limpas
que não apeteçam a podridão
de códigos que não sejam
letra morta onde tudo se lê
menos a palavra amor e liberdade
Jcorredeira


domingo, 22 de abril de 2018

AMANHÃ, ANGOLA!


Chega a noite triste e mansa

Parte o dia devagar,
Fica uma réstia de esperança
P´ra quando a manhã chegar.
Vêm meninos da rua
Não sabem ter alegria,
Trazem graxa na sacola
Nunca foram à escola
Esperando o novo dia.
Camiões de chapa amolgada
Levando na carga o povo,
Seguem ao longo da estrada
Toda ela esburacada,
Esperando o dia novo.
Chegam do lado do mar
São mulheres de quem as queria,
Sempre a mesma viagem
Trazem filhos na bagagem,
Esperando o novo dia.
Saco cheio de nada,
Na barriga nada de novo,
È o regresso malvado
Desse tempo metralhado,
Esperando o dia novo.
É na esperança do povo
Qual paz tão fugidia
Que se espera o dia novo
Que se aguarda o novo dia.


Angola,Lobito,10 de maio de 1999
Faria Costa

domingo, 15 de abril de 2018

E ASSIM É O VIVER


Quando eu era criança e inocente
e nem sequer sabia o que era a vida
só queria ser grande e crescido
e ser considerado gente.

Cresci, fui-me fazendo adolescente
e mais me deu a fúria da corrida
tecendo nessa altura e iludido,
castelos belos e lindo, no presente.

Mais tarde, já homem, em modos francos
aos poucos fui sabendo, os contratempos
que a vida nos traz sempre, quando avança!

E hoje , com alguns cabelos brancos
recordo com saudade os outros tempos
e choro por não ser sempre criança.




AO

domingo, 8 de abril de 2018

FOTOGRAFIA



O lado exterior da alma destas crianças.
Cresceram, já por certo não caberão nos corpos, nenhum
pintor escurecia assim estes olhos infantis.
Jamais se repetirá a altura, o riso, um olhar
à espera, um pé descalço
a receber o calor que vem do chão.
As tais crianças onde estão? Tão perto de mim
esta fotografia capturou a eternidade.

27/7/2017
© João Tomaz Parreira


domingo, 1 de abril de 2018

JESUS, PÁSCOA OU UM POEMA PRESENTE


Era verão
um sol ardente, abrasador,
queimava de vento
teu áspero caminho.
E tu, “junto ao poço de Jacob”,
fatigado, sozinho,
contemplavas as searas loiras
do calor.
Do Homem,
vivias a tremenda dor,
a soledade atroz,
dos sem pão e sem ninho
e vias já tão presente,
como um fogoso espinho
teus dias tenebrosos,
como Redentor.
vieste
pelo sofrer da humanidade,
por tal escondeste
a tua Divindade,
sob a capa frágil do homem
contingente.
Eu sei, que ouves a voz
de todo o que implora,
do que, o seu infortúnio
e sua angústia chora,
também, de todo o abandonado
velho e doente...
Jcorredeira
(fotos-net)

domingo, 25 de março de 2018

ACORDEI ESTA MANHÃ…


…com a fragilidade forte, e a força frágil. 
Dei comigo alto mar, fraco bote em forte balançar 
Dos Deuses esperei acalmia, âncora para a força que me fugia, 
E um cais onde me aconchegar. 
Frágil, descobri-me então seguro, pedra-parte-de-muro, 
E percebi a força das asas da borboleta, leve aragem que afaga o mar. . 

fpb 2014

domingo, 18 de março de 2018

{LEMBRANDO...}


objectiva
os espelhos reflectem a imaginação
possível da criação.
a obra alquímica da vida é a obra do pai
como autor da renovação contínua.
são os golpes imaginários de vidros partidos,
mas sempre espelhos, que traçam os flashes
na câmara da existência.
espelhos, reflexos, golpes, e um conjunto
de fotografias sobrepostas
reflectidas sobre si mesmas;
incongruentes, inexpressivas,
esquecidas na objectiva do instante.
somos sempre o nosso reflexo
até na forma apassivante,
gramaticalmente, se.
o reflexo da própria passiva, és.
vida, morte, vida, morte.
a verdade é o reflexo da mentira.
bastam golpes de espelhos.
josé félix

domingo, 11 de março de 2018

MARIA


Desconfiemos das águas dos oceanos
Desconfiemos da poesia das nuvens
muito brancas
São uma central eléctrica que rodopia
um redemoinho a quinze quilómetros no céu
Desconfiemos da força do sol
sobre as águas, de onde os furacões são
válvulas de escape. Senhor, livrai-nos
de Maria e do aquecimento dos mares.


20/09/2017
© João Tomaz Parreira

domingo, 4 de março de 2018

INVISÍVEL


"Estamos mais ligados ao invisível do que àquilo que vemos".
(F. von Ardenberg, 1772-1801)

Na face amável de olhos anelantes
Há caracteres profundos mas sem cor
Longo poema escrito em sangue e amor
No silêncio de noites vigilantes
Quantos escombros pela existência fora
Dos viajores cansados da viagem
Em socalcos encerram sua imagem
Na angústia esquecida da memória


Jc
In " espelho de poesia"

domingo, 25 de fevereiro de 2018

POR AQUI, A HISTÓRIA AGARRA-SE ÀS PAREDES...


...e por aqui as paredes contam histórias
…de muçulmanos, de judeus e gentios, de cristãos, castelhanos, e de outros aventureiros, de Geraldo, impante, sem pavor. 
Por aqui, os recantos cheiram a esteva, as janelas escondem memórias de amores proibidos, mouras raptadas, por aqui se tropeça nos séculos do chão...

Imagem e texto de Fernando Bastos
(Monsaraz, Maio 2014)

domingo, 18 de fevereiro de 2018

A TEXTURA DA MARÉ - I


um grito. e todas as águas revoltas se aquietam.
faço festas aos peixes e escamo viagens proibidas
na areia molhada. murmúrio das ondas.
quanta amplidão trágico-marítima há numa flor fresca
poisada nos dedos. o banho das águas traz o crescente da lua.
um grito. molha a água o eco das rochas.
o som da palavra mistura a areia, as conchas, os búzios.
ressuscitam as pedras na geometria do espaço.
descansam os pássaros brancos a beber maresia
antes do início do voo, perpendicular, os olhos redondos prendem-.se à espuma.
são ecos. são gritos. as pedras guardam caladas.
josé félix

domingo, 11 de fevereiro de 2018

O MILÉNIO


O leão não será mais rápido que o boi
em busca de pastagens
o cordeiro e o pássaro nascerão

de uma fórmula poética e o lobo
terá um beijo na sua boca
Os jogos das crianças
serão com as aves
uma pomba e uma águia
hão-de navegar para o mesmo lado
em águas de branco lôdo
Um anjo passará da forma mais lírica
possível sobre a terra.


© João Tomaz Parreira

domingo, 4 de fevereiro de 2018

FLOR MULHER


Ela tem
A cândida serenidade
Dos eleitos e dos profetas.

No regaço sereno da esperança,
Essa virtude admirável
Que está para a bem- aventurança,
Como o amor para os poetas,
Como o sono para a eternidade,
Ela tem
O despertar de uma princesa,
A felicidade espelhada no olhar,
O sonho para além do firmamento,
O corpo de flor despida,
A vontade que desperta o momento,
A fantasia nas palavras do falar,
A chama perene de vela acesa.
Ela tem
Tudo o que uma flor pode dar!


Jc

domingo, 28 de janeiro de 2018

É DE OURO


É DE OURO a luz que entardece os muros… 
…mansa e lenta, brincando com as janelas.
Segura de que os lampiões montarão guarda, 

esconde-se no poente, sonolenta.
Voltará fresca, mil vezes e mais uma, sem pedir …


Imagem e texto de Fernando Bastos
(Monsaraz, Maio 2014)

domingo, 21 de janeiro de 2018

DA IMPOSSIBILIDADE


na chuva miudinha um arco-íris
planta a infância de deus
no rosto de água.
desenha relevos de transparência nos olhos
a observar silêncios, o aroma preso nos dedos,
as sombras na intermitência das luzes.
não se abarca um grito aberto.
não se despe um desejo sem o fruto,
ainda que um olhar de névoa
revele todas as fontes.
josé félix

domingo, 14 de janeiro de 2018

VAN GOGH


Vivia no paraíso até que o inferno destruiu
A sua orelha, as cores
Abundantes e os ares azuis do mar

As searas de corvos sobre a sua cabeça
Haja arte
E houve os céus a entrarem em colapso
Em fusão nuclear a rebolarem nos ventos
Haja trevas
E houve montes de feno no lugar das estrelas.


08/09/2017
© João Tomaz Parreira 

(Imagem: os furacões Katia, Irma e José)

domingo, 7 de janeiro de 2018

BORBOLETA-OU SIMPLESMENTE VOAR.


Voar de alma aberta na paz das consciências
Que já não suportam senões nem letra morta...
Voar serenamente,
Insofismavelmente,
Que é isso o que mais importa!
Borboleta avençada, tem cautela!
Desavença-te depressa e se tens ainda força
Voa livre que logo é tarde!
Abre as tuas asas em alacridade
E voa longe, voa, que a seara arde
E como Deus também tu és bela!
Voa longe...que se o lume o pão consome,
Pois morra-se de fome
Mas viva-se em liberdade!

Jc
"In espelho de poesia"

domingo, 31 de dezembro de 2017

INSEGURA A FONTE


Nasce insegura a fonte.
Quando escuto o tempo
dos lábios uterinos
abre-se a serigrafia:
a forma do horizonte.
Sétima, a maré
traz a água vitelina
que alimenta a emoção
da pedra em movimento.
Passa tranquila a água.
José Félix

domingo, 24 de dezembro de 2017

O NATAL DE UM MENINO NEGRO


Não havia pastores em redor, andavam longe
As cabras cheirando no chão o alimento
O chão era igual, como há dois mil anos
Duro como na estrebaria, nem sequer a leveza
Da estrela a aquecer o lugar, a rua
Tinha a porta aberta como uma casa
E o menino igual a Ti, um Jesus africano dormia
Guardado por uns olhos tão grandes
Como o Amor, nas mãos a descreverem
O Amor. Eu vi uma mulher menina
Como Maria, com um pano tão branco
Como o silêncio a segurar os cabelos crespos.
14/12/2017
© João Tomaz Parreira

domingo, 17 de dezembro de 2017

NATAL PARA TODOS: QUANDO?


Mais uma vez, felizes as crianças
Afagam com amor os seus brinquedos;
São dias de prazer, suaves, ledos;
Nos corações renascem as esp’ranças.
No luxo dos salões há festa e danças,
Nas ruas enfeitadas há folguedos,
Brilham jóias no colo e longos dedos
Onde se guardam álacres esperanças.
Ressoam pelos ares lindas canções
A convidar a mente e os corações
Ao desejo de paz e de alegria.
Mas também ouço o coro tão lugente
De crianças e pais, de tanta gente,
A chorar em miséria e agonia!...
Jcorredeira
(Mindelo, Cabo Verde, Natal 1999)

domingo, 10 de dezembro de 2017

A FESTA


Só o boi e o jumento comparecem.
E os anjos em multidão
já não desferem o cântico
- que é o céu caindo na noite.
Na grande hospedaria do azul,
no mundo, ou apenas em metade
do mundo, as manjedouras dormem
vazias.
As mãos dos homens sentem
o que faz o coração, fecham
as janelas de Belém
uma vez mais sobre os ruídos.
Sobre quem passa preso à vida
.
1992
© João Tomaz Parreira

domingo, 3 de dezembro de 2017

O LUGAR DA POESIA AO JOSÉ ANTÓNIO GONÇALVES


eu sei onde vou pôr a minha poesia
vou colocá-la detrás dos buracos das fechaduras
nas frinchas das portas
e nos parapeitos das janelas.
vou vê-la andar por aí a fazer jogging
passeando o cão como se ele fosse
o psicanalista de serviço em domingos assim
imaginados pelo ruy belo
que até o sol do meio-dia agarra a melancolia
num girassol seco de sede e solitário
na carícia de uma papoila rubra
no fim da estação.
eu sei caro amigo que as coisas não são simples
e verei a poesia pendurada nos candeeiros
escondida em papel de prata dos maços de cigarros
ou em papel barato embrulhando
as figuras mais ridículas e rejeitadas
atiradas para o sótão onde o lixo aguarda
o tempo propício para que o index resolva
definitivamente a morte feita de gangrena
raiva ódio desprezo e de um amor
incompreensível que só os ratos
na sua extrema compreensão
terão o entendimento possível
das palavras semeadas a esmo
na lavradura de uma terra infértil
esganada pela ditadura de sacanas
que cortam rente as flores silvestres
a língua com o gosto das amoras
o primeiro sabor de um pêssego
e até a infrutescência de um figo lampo.
há tantos lugares onde se põe a poesia
esquecida nos sofás ou a mexer um copo de gin
nas noites que se pretendem mais escuras
do que as noites mais escuras na imaginação
do pedreiro de um poema feito com tijolo
de sete furos para a construção de uma casa-poema
onde cabe o sol de todo o ano e um riso cristalino
a começar as madrugadas.
eu sei onde vou pôr a minha poesia
no canto dos lábios de vinho de um homem do leste
no rap a passear no rossio ou nos restauradores
nos bares das docas da 24 de julho
e no corpo das putas possíveis que amam
na plenitude a vida como as outras mulheres.
ah com tanto lugar onde pôr a poesia
ainda verei gente como numa procissão de
homossexuais e lésbicas com bandeiras de poemas
e caixas parecidas com as dos bombons
a oferecerem a todos os filhos da puta
a poesia travestida de grandeza
como a humanidade se importasse
com as palavras presas numa garrafa
atirada ao oceano à procura de uma areia
longínqua uma ilha do dia antes
como se fosse uma sombra na imaginação
de um poeta-judeu ou de um judeu-poeta
que é precisamente a mesma coisa.
e como não há outra alternativa
eu sei onde vou pôr a minha poesia.
josé félix

domingo, 26 de novembro de 2017

INCOMPLETO QUERER




O dia sobe no azul nublado duma quimera.
Escasseia berço nessa espuma de vento colorido.
Desencanto a bocejar
Na rama adormecida dos pinheiros.

A brisa desenlaça o abraço
Que se prende numa papoila virgem.

Caudal de rio...
Água de beijos em lábios queimados.
Sol ardente esfria,
A alma dum corpo despido.

O despertar busca no nascer do dia,
Um sorriso em cada pranto!...

Jc
In"espelho de poesia"

(Freixo E. Cinta-Congida)
(foto:-heli José Carvalho)

domingo, 19 de novembro de 2017

O REGRESSO


A beleza sentava-se neste espaço do Éden
a cadeira de baloiço espera no alpendre
que o homem regresse
às noites tranquilas, às nostalgias frescas
das manhãs, atravessadas por aves audazes
que fazem um cântico do silêncio do jardim
seja o que for que cantem
que o homem regresse aos aromas
do jardim, com cabelos tranquilos, com os olhos
limpos, com vestes do campo, aberto
para as pequenas coisas da divindade.


27-07-2016
© João Tomaz Parreira

domingo, 12 de novembro de 2017

NIHIL


foi contra o autocarro
que fazia a última viagem
com passageiros da noite
na mão esquerda ainda tem a garrafa
de london com restos de gin
e a marca de lábios de mulher no rótulo.
o sangue jorra-lhe da cabeça.
a espada de dâmocles
suspensa do fio de crina do cavalo
cortou-lhe a vida contínua
que levava dentro de um fruto maduro;
queria perceber a filosofia de existir.
o último gesto ficou suspenso
junto da paragem de autocarros
sem olhares curiosos
só a sereia da polícia de giro
corta o sossego da noite
cumprindo com um sorriso
e gestos comprometidos
outra forma de estar
agarrado à existência.
josé félix

domingo, 5 de novembro de 2017

O SABOR DAS CHAMAS €€€


São falsos patriotas
Figurões, agiotas.

Nas chamas escondidos
Feitos "bandidos"!
...
Num abraço,
Por Alighieri eternizado
A sombra misteriosa
Dum inútil acomodado.
Asteróides sem luz,
Sublimam a conveniência
Do negócio escondido
Na guitarra e no fado.

Vocifera veneno o imbecil,
De bandeira na lapela
No cobarde aproveitar,
Asno, igual a tantos mil
Bebe na desgraça da capela!

...Triste povo que celebras em festa
A razão da incompetência!...


Jc