domingo, 26 de julho de 2020
SONHO E REALIDADE
Adormeço. E perco a consciência
De qualquer ruído ou voz de gente
Que me desperte à existência.
Mergulhado no vazio do não-ser,
Nem sei mesmo se existo,
Com espírito e figura
Mergulhados no seio
Da noite muda, escura.
Onde estará o pensamento,
A emotividade, o sentimento
A liberdade, a fantasia,
Que me davam novo alento,
Quando, ao romper da aurora,
Já consciente e atento,
Eu via nesse agora,
Que acabava de emergir,
Mais um novo dia
Misterioso e consciente reflexo
Do passado, do presente e do porvir?
Onde o velho relógio, que fiel, obediente,
Me despertava a recordar a hora,
Ponto de referência
Para o ontem e o agora
A olhar, com esperança on amanhã?
Jc
domingo, 19 de julho de 2020
NÃO HÁ MÃOS
Não há mãos quando a morte sobrevém.
a palavra, o esqueleto da linguagem
ganha formas bizarras no caminho
da vida carpideira, com a imagem
a palavra, o esqueleto da linguagem
ganha formas bizarras no caminho
da vida carpideira, com a imagem
do sol inatingível cocegando
o rosto que da sombra tira luz
bebendo a parca sede que lhe resta
do fio de água que já não conduz.
o rosto que da sombra tira luz
bebendo a parca sede que lhe resta
do fio de água que já não conduz.
na escuridão da fala não há nomes
nem há figura de estilo que valha
que sobreviva a tanta quietude.
nem há figura de estilo que valha
que sobreviva a tanta quietude.
é que morte é simplesmente morte.
até de um corpo belo de desejo
não ná mais do que ter esta atitude
até de um corpo belo de desejo
não ná mais do que ter esta atitude
se é luz ou se é a sombra dela
José Félix, Teoria do Esquecimento, Temas Originais, Lda., 2009, pág. 37
domingo, 12 de julho de 2020
TANTOS
Eramos muitos!
Eramos tantos que por vezes,
Nos não encontrávamos no meio da multidão.
Mas eramos!...Estávamos lá!...e existiamos;
Em grupos!...Aos magotes!...
Gregáriamente unidos, como animais com medo!
Gregáriamente unidos, na esperança de uma vós.
Nós!...Soldados que nos fizeram.
Tantos, e contudo tão sós.
Nós!...Que nunca aceitámos ser
Aquilo que éramos.
Mas éramos!...
Uma colónia de loucos em busca de nós mesmos.
Por isso nos embriegávamos,
Para nos libertarmos da farda,
Que nos transformáva em máquinas humanizadas.
Por isso nos drogávamos,
Para alcançarmos nas abstrações do nada,
A dimensão dos nossos sonhos frustrados.
A realidade que nos impunham
Era demasiado cruel!...
Era brutal;
E nós nunca aceitamos ser
A incarnação do mal.
Mas eramos,
Lá!... Em África!...
Nesse Continente que eu antes sonhara virgem,
Natural.
Lá!...Nós fomos os desbravadores dos seus mistérios,
Lá!...Nós fomos os desfloradores
Da sua selvagem virgindade.
Lá!...Eu fui soldado sem vontade,
Por vontade de ditadores de gema;
E foi lá que eu colhi,
A fúria!...A raiva!...E a revolta
Com que escrevi este poema.
Escrito em Tancos em Maio de 1973
Filipe Raimundo
domingo, 5 de julho de 2020
TENTEI SER POETA
Um dia, nem sei como, tentei escalar
O Parnaso, alto monte, onde os grandes poetas,
Que, na Terra, atingiram as difíceis metas
Da poesia em que tudo é arte e é sonhar!
E fui subindo, a custo e com muito vagar,
Olhando para o alto e seguindo as setas,
Que essas almas dos vates sempre irrequietas
Gravaram na estrada para nos guiar.
Mas o caminho é longo, áspero e tortuoso,
Umas vezes escuro e outras luminoso,
E tantos se ficaram a meio da viagem!
Depois de muito andar e já quase esgotado,
Olhei por largo tempo o cume desejado,
E vi que, para mim, era apenas miragem...
júlio corredeira
domingo, 28 de junho de 2020
NÃO HÁ MÃOS
Não há mãos quando a morte sobrevém.
a palavra, o esqueleto da linguagem
ganha formas bizarras no caminho
da vida carpideira, com a imagem
a palavra, o esqueleto da linguagem
ganha formas bizarras no caminho
da vida carpideira, com a imagem
do sol inatingível cocegando
o rosto que da sombra tira luz
bebendo a parca sede que lhe resta
do fio de água que já não conduz.
o rosto que da sombra tira luz
bebendo a parca sede que lhe resta
do fio de água que já não conduz.
na escuridão da fala não há nomes
nem há figura de estilo que valha
que sobreviva a tanta quietude.
nem há figura de estilo que valha
que sobreviva a tanta quietude.
é que morte é simplesmente morte.
até de um corpo belo de desejo
não ná mais do que ter esta atitude
até de um corpo belo de desejo
não ná mais do que ter esta atitude
se é luz ou se é a sombra dela
José Félix, Teoria do Esquecimento, Temas Originais, Lda., 2009, pág. 37
domingo, 21 de junho de 2020
PÉROLA NEGRA
Não sei explicar este enigma!
Os outros dizem que é feia.
E eu concordo,
Sou forçado a concordar
Porque ela, é mesmo feia.
Mas!...Paradoxo!
Encontro nela uma beleza singular,
Talvez na forma de rir,
Talvez na forma de olhar,
Talvez!
Sim, talvez porque ao rir,
Não utiliza a hipocrisia,
E não sufoca a gargalhada,
Ri sem fantasia
De qualquer coisa engraçada,
E comunica alegria
Aos outros,
Como ela, malfadados.
Chama-se ROSA!
E a ROSA tem de humano,
A posição vertical.
O resto...
O resto
É de animal irracional.
Não tem ódio no olhar,
Nem rancor pelos tiranos;
Ambições também não tem,
Que a vida
Sempre lhe deu desenganos,
E ela deixou de ambicionar.
Um dia vi-a chorar!
Um soldado lhe batera,
E ela para mim correra a gritar...
- Raimundo! - Raimundo!
- Os tropa me bateu,
- Os tropa me bateu, Raimundo!
- Ah! porco imundo!
- Rosnei eu.
Heróis da podridão,
Vejam...
Um valentão.
Passei-lhe uma das mãos
Pela face tremente,
Duas pérolas rolavam lentamente
Pela face da negrita,
E naquele momento...
Naquele momento,
Achei-a ainda mais bonita.
Não chores Rosita,
Disse eu.
E ela deixou de chorar.
E uma lágrima quente
Veio-se aconchegar,
Na minha outra mão,
Que pendia, inconsciente.
- Os tropa me bateu!
Disse ela novamente.
- O tropa é mau!
Disse eu.
E calei-me
Sem saber que dizer mais.
Aquela é uma rosa
Que não se encontra nos rosais!
Pétalas negras,
Pistilo de marfim,
E dois estigmas dardejantes de pureza,
Que beleza!
Nunca vi outra assim.
De ambos os lados
Tinha um botão a abrir,
Eram os filhos
A olhar para mim!
O Jorge e a Amelonga,
Dois rebentos da desgraça,
Que nasceram para sofrer,
E para provar ao mundo
Que viver,
É uma infinita graça ,
É um supremo poder.
No ventre,
Tinham a marca do pirão,
Farináceo que dilata os intestinos;
No rosto,
Um sorriso de gratidão,
Pela minha compreensão.
Só eu,
Ao que parece,
Compreendia os seus destinos.
Os outros
Viam na Rosa
A carne satisfeita.
Faziam dela a prostituta eleita,
E depois partiam, sem mais contemplações.
E ela,
A máquina humana do prazer,
Satisfazia machões,
Para alimentar os filhos,
Para os não deixar morrer
Filipe Raimundo, AB4, 1971.
domingo, 14 de junho de 2020
AFETIVIDADE
A todos os amigos.- Porque nas circunstâncias actuais, não posso abraçar. ❤️
--//--
Afetividade
--//--
Afetividade
Eu sou entendimento e sou vontade,
Sou corpo, sou paixão e também dor;
Sou alegria, coração e amor,
Sou presente, futuro e também saudade.
Sou corpo, sou paixão e também dor;
Sou alegria, coração e amor,
Sou presente, futuro e também saudade.
Floresce dentro em mim essa amizade,
Como na Primavera a bela flor
Espalhando nos campos seu olor,
Feita de abraço e feita de verdade.
Como na Primavera a bela flor
Espalhando nos campos seu olor,
Feita de abraço e feita de verdade.
E da férrea vontade do meu ser,
Com força de mistério e sem eu ver,
Emerge o afecto mágico e profundo.
Com força de mistério e sem eu ver,
Emerge o afecto mágico e profundo.
E através dele eu entro em relação
Comigo, com outro – meu irmão –
E mesmo com as formas deste mundo.
Comigo, com outro – meu irmão –
E mesmo com as formas deste mundo.
Jc
In: espelho de poesia
domingo, 7 de junho de 2020
TODAS AS COISAS
Sentado ao fim da tarde, vendo o sol esmorecer,
A despedir-se de mim num acenar sorridente,
Colorindo com mil cores o céu do entardecer,
Prometendo calma a noite, suave aconchego quente.
E reservo esta noite, é meu desejo sereno,
Uma noite solitária, bem na paz do meu viver,
Sem cuidar de vãs promessas, sem esperar um aceno,
Preparando um novo dia, fazendo o que há a fazer.
E recordo outros momentos, ecos vindos do passado,
Outros sonhos e desejos, tanta ilusão perdida...
Quando nada se ganhou em trabalho esforçado,
Mas é de pequenos nadas que é feita esta vida.
Não venci grandes batalhas, como um audaz general,
Mas não semeei a morte em duvidosas vitórias,
Nem lutei de forma vã, confundindo o bem e o mal,
Quando tanto horror se esconde em ilusórias glórias.
Todas as coisas na vida podem ter razão de ser,
Mas muito do que pensamos não passa de ilusão,
Errado é passar a vida a pensar sem a viver,
Tudo passa nesta vida, com razão ou sem razão.
(Miguel Pimenta, 2018)
domingo, 31 de maio de 2020
DA VIAGEM
Eu quero ir viver para mariposa
plantar um canavial e um jardim na popa
e inundar-me de água do rio Leie.
Goedmorgen, mijn naam is Félix
quando vier o correio de longe
e trouxer notícias do país das caravelas
não pensar nos bolinhos de bacalhau
e, por simpatia, desenhar numa
folha de papel a Torre de Belém
depois, nos dias azedos
quando a saudade marítima
pintar o rosto, transformo a folha de papel
com a Torre de Belém, faço um barco
e deito-o, com displicência
nas águas turvas do Leie
até que um pato bravo o afunde.
plantar um canavial e um jardim na popa
e inundar-me de água do rio Leie.
Goedmorgen, mijn naam is Félix
quando vier o correio de longe
e trouxer notícias do país das caravelas
não pensar nos bolinhos de bacalhau
e, por simpatia, desenhar numa
folha de papel a Torre de Belém
depois, nos dias azedos
quando a saudade marítima
pintar o rosto, transformo a folha de papel
com a Torre de Belém, faço um barco
e deito-o, com displicência
nas águas turvas do Leie
até que um pato bravo o afunde.
Vou para Graslei. É lá que identifico
a minha errância nas casas miudinhas.
Cego de arquitectura, compro
uma grade de cerveja Jupiler
e só ou com amigos de circunstância
que o pouco conhecimento da língua permite
bebo a olhar a água turva do rio
quando a duplicidade da imagem da torre
da igreja de Sínt Baaf me cansa.
a minha errância nas casas miudinhas.
Cego de arquitectura, compro
uma grade de cerveja Jupiler
e só ou com amigos de circunstância
que o pouco conhecimento da língua permite
bebo a olhar a água turva do rio
quando a duplicidade da imagem da torre
da igreja de Sínt Baaf me cansa.
Eu quero ir viver para mariposa
e, no silêncio da noite
ouvir grasnar os patos bravos
em cima de um bote meio afundado.
ao lado, na Rua Visserig, o contador de bicicletas
azula à passagem do ciclista.
e, no silêncio da noite
ouvir grasnar os patos bravos
em cima de um bote meio afundado.
ao lado, na Rua Visserig, o contador de bicicletas
azula à passagem do ciclista.
-/-
Um corvo sossega a tarde em Sint Jacob
e nós abraçados um no outro admiramos
a arquitectura das paredes medievais
ao longo do rio Shelbe.
Centenas de passeantes olham para cima
Com a ausência de Deus que há muito tempo
deixou de honorar centenas de viajantes
que se recolhem ali.
Olhares vagos e indiferentes compram
chocolates e waffles para memória futura
ou para oferecer aos amigos no regresso da viagem.
O corvo, em Sint Jacob, mudou de árvore
e continua a sossegar a tarde soalheira
quando passam dezenas de escoteiros
numa algazarra adolescente.
Nós abraçamo-nos e tecemos
Comentários de circunstância
abafados pelo trote dos cavalos do coche.
e nós abraçados um no outro admiramos
a arquitectura das paredes medievais
ao longo do rio Shelbe.
Centenas de passeantes olham para cima
Com a ausência de Deus que há muito tempo
deixou de honorar centenas de viajantes
que se recolhem ali.
Olhares vagos e indiferentes compram
chocolates e waffles para memória futura
ou para oferecer aos amigos no regresso da viagem.
O corvo, em Sint Jacob, mudou de árvore
e continua a sossegar a tarde soalheira
quando passam dezenas de escoteiros
numa algazarra adolescente.
Nós abraçamo-nos e tecemos
Comentários de circunstância
abafados pelo trote dos cavalos do coche.
José Félix, Antologia de Escritas, N.10, Marco de 2013
domingo, 24 de maio de 2020
RÁDIO FAROL
Rádio farol, desterro e solidão!
E o barulho de um motor roncando.
E quando à noite, os ratos vão ratando…
O resto é silêncio e escuridão.
As pretas que vêem pedir água,
Chegam à porta,…. Falam em Quiôco,
Na minha face há um sorriso louco,
Mas cá no fundo, somente existe a mágoa.
Mágoa pelo velho negro, que à tardinha,
Sai do capim, como uma cobra esguia.
E a medo vem para mim, falando de mansinho
-“Moio, branco bom, mi dá gasóleo p’rá minha mentolia”.
Mágoa também por mim, aqui perdido….
Algures no Leste de Angola sem ter fim.
Mágoa sim, por mim, aqui perdido!
No meio de uma guerra sem sentido.
Filipe Raimundo, AB4, 1970
domingo, 10 de maio de 2020
ENTRE O CAPIM
Entre o capim,
O malvado capim,
Jaz um filho de Portugal.
Quem será?
Um político?
Um banqueiro?
Um futebolista?
Não !
É mesmo um soldado Português !
Este soldado como tantos outros,
Morreu pela Pátria.
Este soldado, nem sequer teve direito,
A uma singela caixa de pinho.
Reflitam!
Luis Faria Costa
domingo, 3 de maio de 2020
TANKA DE ABRIL
abril está morto
— na lapela dos casacos
só há cravos murchos
— na lapela dos casacos
só há cravos murchos
a lebre está escondida
do ímpeto da raposa.
do ímpeto da raposa.
José Félix
2020.4.25
2020.4.25
domingo, 26 de abril de 2020
25 DE ABRIL
Porque sou abrilista assumido,
No tempo, desiludido! 💕
No tempo, desiludido! 💕
Clarim ao toque, despertar!...
Ideal em restolho queimado.
Alma de heróis a cantar
Setenta e quatro...Abril,
No peito livre dum soldado.
Ideal em restolho queimado.
Alma de heróis a cantar
Setenta e quatro...Abril,
No peito livre dum soldado.
Orgulho meu de ser migalha
Do teu nascer em desalinho.
Saltar das amarras a muralha
Setenta e quatro...Abril,
Lençol branco de puro linho.
Do teu nascer em desalinho.
Saltar das amarras a muralha
Setenta e quatro...Abril,
Lençol branco de puro linho.
Ai tempo futuro, que não entendeste
O sofrimento de quem tanto fez.
Ai tempo frio que arrefeceste
Setenta e quatro...Abril,
Hoje alfobre insane, de estupidez!
O sofrimento de quem tanto fez.
Ai tempo frio que arrefeceste
Setenta e quatro...Abril,
Hoje alfobre insane, de estupidez!
Agora o sonho é apenas miragem
Ideal de vergonha enrubescido.
Horto de um "fartar vilanagem"
Setententa e quatro...Abril,
Melhora fora, não teres nascido.
Abril de 74, sempre!
Jc
Ideal de vergonha enrubescido.
Horto de um "fartar vilanagem"
Setententa e quatro...Abril,
Melhora fora, não teres nascido.
Abril de 74, sempre!
Jc
domingo, 19 de abril de 2020
TRÍPTICO
é quando me embriago nos mamilos
já turva a voz que me lancina o peito
eu ouço o som dos pássaros
já turva a voz que me lancina o peito
eu ouço o som dos pássaros
são eles que despertam a voracidade dos dedos
na insónia de um corpo
que prende a noite nas escarpas da vigília
e o desejo, ó o desejo, é a dor
que se atravessa na literatura
na insónia de um corpo
que prende a noite nas escarpas da vigília
e o desejo, ó o desejo, é a dor
que se atravessa na literatura
faço como baudelaire
e, além das três escolhas
procuro outras tantas e mais de mil
para que pereça sem a mais leve memória
de mim e dos outros
e, além das três escolhas
procuro outras tantas e mais de mil
para que pereça sem a mais leve memória
de mim e dos outros
*
Nos dedos há a combustão possível.
Na carta velha as palavras doem
no esquecimento da emoção da frase
e no relâmpago do tempo soa
o trovão de uma tempestade fria.
Há milhares de brincadeiras femininas
que se colam ao filme, e de tão cegas
na luminosidade dos holofotes
as personagens constroem figuras
que são as simples sombras irrequietas.
Há, claro, a possibilidade lúdica
da intervenção da escrita literária
que persegue o desejo do pão claro
na seara semeada no próprio tempo
Na carta velha as palavras doem
no esquecimento da emoção da frase
e no relâmpago do tempo soa
o trovão de uma tempestade fria.
Há milhares de brincadeiras femininas
que se colam ao filme, e de tão cegas
na luminosidade dos holofotes
as personagens constroem figuras
que são as simples sombras irrequietas.
Há, claro, a possibilidade lúdica
da intervenção da escrita literária
que persegue o desejo do pão claro
na seara semeada no próprio tempo
*
Na subversão da escrita
o desejo não é uma falácia.
Se escolho o texto, escolho a emoção
que persegue a frase transfigurada.
o desejo não é uma falácia.
Se escolho o texto, escolho a emoção
que persegue a frase transfigurada.
a mulher é sintagma, flor-palavra
poema-árvore, erotismo, ruga-de-tronco
floração para todas as estações.
poema-árvore, erotismo, ruga-de-tronco
floração para todas as estações.
Toco no texto, acaricio o corpo;
na escrita leio a forma
da escultura das letras, o desenho
com a voz que permanece no rosto.
na escrita leio a forma
da escultura das letras, o desenho
com a voz que permanece no rosto.
Na leitura das mãos, o nome é a substância
que lavra o texto.
que lavra o texto.
José Félix
domingo, 12 de abril de 2020
PORQUE VAI SER UMA PÁSCOA DIFERENTE...
Sobre a Páscoa em Trás-os-Montes, tenho excertos de memórias das quatro terras onde vivi. Freixo de Espada à Cinta, Vila Flor, Foz-Côa e Bragança.
Foz-Côa já é Beira Alta, mas fica logo a seguir à ponte.😃 Neste texto, faço uma mescla de lembranças entrelaçadas dos usos e costumes pascais destas quatro povoações.
Se tiverem paciência para me ler, espero que gostem e que vos desperte algumas imagens adormecidas na nossa infância e juventude.
Em jeito de prosa, aí vai um longo poema. Com um pouco de paciência conseguem ler até ao fim. Obrigado.
😀😀Boa e santa Páscoa para todos vós!
__//__
--Deixa-me apertar o passo que já deram as três...
Rap... rap...
Aos magotes, aos pares, as mais belas moças da aldeia,
Da Rua Nova, do Alto e doutros lugares
Faziam a estrada cheia
De hieráticas sombras que vão...
Toda curvada, a Marquinhas de S. João
Saiu às quatro de casa
Para ser a primeira a chegar.
À porta do lado, na entrada para a sacristia
A chumieira que a guiara, quando cheguei inda ardia...
E a Sãozinha do Pinheiro
(Deus a tenha em bom lugar!)
Mai-la criada a Maria,
Vieram um pouco mais tarde...
Na véspera estiveram a assear
O altar-mor, que dava um cheiro
De a gente ficar pasmada:
--Ele eram goivos e lírios,
Ele eram cravos e círios,
Jarras de prata e toalhas finas,
Galhetas, de cromo, salvas, gomil
"Cachepôs" e serpentinas,
Tudo tão limpinho, tudo tão novo,
Tão surpreendente e etéreo
Que o povo,
Sentiu bem todo o mistério
Daquele Domingo de Abril.
Domingo! Que belo dia que a semana tem!
Mas este Domingo é o mais belo que o ano encerra:
--Domingo de Páscoa! Aleluia!
E terra em terra
Monte em monte, além e além,
Desabrocham no peito perfumes quentes...
Como agora me lembro--profunda nostalgia!
Os sons estridentes
Desse velho sino que toca e berra
(Saudade que não morre! )
Sacudindo a parede que era toda a Torre
Perto da igreja nobre da minha terra!
O padre vestia todo de branco
E o povo mais apertado que eu sei lá!
Oa rapazes cheiravam a brilhantina
E não havia escada bem banco
Que não ocupassem já
Desde as tantas da matina.
O senhor Augusto sacristão, estou a vê-lo, de longas contas na mão
Cara rosada e de branco cabelo,
Ao que não se portasse bem
Mandava-lhe um safanão
Por irreverência,
Que para isso tinha muito jeito:
--sim, porque na igreja
--Dizia... tem de haver decência e respeito.
O Luís Sobreira, colarinhos de esticador,
Cabelo todo branco e de risca feita,
Pegava em opa nova de seda
E dizia: "Assim seja, assim seja!...
(E mudava o missal da direita para a esquerda
E da esquerda para a direita...)
Sempre era o dia do Senhor!
O Chico Nicolau
De olhos arremelados
Sabia bem do reportório:
Saco de pano na mão, pulmões afinados,
Regougava recolhendo dinheiro:
--"P'ràs almas do purgatório"!
E se caía uma nota... em breve cicio
Dizia sempre não ter troco...(ou não fosse ele filho do pai c'o mesmo ofício...)
Depois da missa era uma girândola toda no ar!
Eram foguetes a estoirar
Flores a cair,
O Senhor a beijar
E a visita pascal a sair...
Ah! que rico cheirinho que o Senhor botava!
E como Ele ia lindo nas mãos calosas do juiz
De cabelo cortado e camisa branca...
Pela igreja abaixo, todos em festa:
O rapaz tocava a campainha, tocava,
Como o mais feliz dos mortais...
A Aninhas Manca,
Sem dentes, levantava as mãos e truca truca,
Corria para casa ajustando o avental
E apertando na nuca,
Um lenço de merino ainda do bragal
Que ageitara em menina
E que tresanda a a naftalina...
As "Ribeiras"
Que moravam no adro da Igreja
São as primeiras
A receber a cruz que logo toda a gente beija:
--As escadas estavam cheias de alecrim e de erva cidreira
E havia no oratório uma luzinha acesa...
Cá de fora, via-se bem, tanto pão de ló na mesa
Que até fazia água na boca
Sem a gente querer...
E o rapaz da campainha, toca que toca,
Dlim...dlim...dlim!...
Pela escada abaixo, todo fresquinho,
Sacudia a sineta como um dementado
De opa nova de cetim
Que até era um pecado
Se a rasgasse pelo caminho...
O senhor Reitor, entrava aqui, ali, acolá,
Hissope em cruz, hissope ao alto,
Água benta e santa aleluia!
Na Rua do Vale, Rua do Adão, no Tablado e no Toural...
E logo mais um salto
Lá vai a cruz para o Tombeirinho , Rua da Portela, Senhora da Veiga e Praça de Freixo,
O lugar onde eu nasci!
Aí, ricos mentrastes do quintal dos Junqueiros,
Alecrim florido, lilás, rosas e esterpão,
Perfumes inesquecíveis da infância
Aos mil e aos mil
A mais pura e bela recordação de Abril
Infinita recordação!
E pela noitinha,
Ao lusco-fusco desse dia inesquecível,
Juntavam se as cruzes e as gentes
Numa indizivel romaria
Para a noite posta
Bênção final, ovos pintados,
Semana fora, Páscoa fremente,
Dos desgraçados,
Brasas acesas, sol à compita,
Tudo aqui era a melhor resposta
Para dar ao Senhor...
Gentes que aclamaram
A Santa e infinita Trindade!
Ide! Aleluia! Os caminhos são largos e o amor infindo!
--Larga, também muito larga... A saudade!
Jcorredeira
in:"fragmento de memórias"
domingo, 5 de abril de 2020
TEMPOS DO TEMPO!
Foste embora tempo!
Que faço agora sem tempo?
Não sei tempo!
Que fazes tu tempo,
Para além de tirar o tempo?
Que faço agora sem tempo?
Não sei tempo!
Que fazes tu tempo,
Para além de tirar o tempo?
Não sei que fazer,
Não sei que escrever,
Que te posso dizer?
Para além de saber,
Que fiquei sem tempo.
Não sei que escrever,
Que te posso dizer?
Para além de saber,
Que fiquei sem tempo.
O tempo que partiu,
A vida que ruiu?
O mundo que saiu,
Nunca ninguém o viu,
Mas o tempo partiu.
A vida que ruiu?
O mundo que saiu,
Nunca ninguém o viu,
Mas o tempo partiu.
Tempo, e agora?
Corona virus
domingo, 29 de março de 2020
UM ANTI-REQUIEM NO HOSPITAL
Deitado num convés de lençóis ondulados
Os barcos ao lado ostentam o próximo
Remanso dos adormecidos
A certa altura o tecto é uma ilusão de óptica
Torna-se um limite que os olhos perfuram
A certa altura de uma certa altura
Apagam-nos a claridade, é a hora
De atravessar as águas da noite
Como um bálsamo de Gileade
No silêncio hospitalar.
Os barcos ao lado ostentam o próximo
Remanso dos adormecidos
A certa altura o tecto é uma ilusão de óptica
Torna-se um limite que os olhos perfuram
A certa altura de uma certa altura
Apagam-nos a claridade, é a hora
De atravessar as águas da noite
Como um bálsamo de Gileade
No silêncio hospitalar.
06/10/2018
© João Tomaz Parreira
© João Tomaz Parreira
domingo, 22 de março de 2020
A VOZ DO MAR
Ofereço este soneto, a todos aqueles que passam o tempo em segurança,
A minha esperança no povo português. Como outrora, sem medo e corajoso, desbravou o mundo com a sua fé e valentia. Vamos vencer.!...🇵🇹❤️
A minha esperança no povo português. Como outrora, sem medo e corajoso, desbravou o mundo com a sua fé e valentia. Vamos vencer.!...🇵🇹❤️
A voz do mar
Fugi da multidão anónima e cinzenta,
De cafés cheios de olor a fumo e aguardente
Onde me sinto ignoto a toda aquela gente,
Numa atmosfera amorfa, opaca e barulhenta.
De cafés cheios de olor a fumo e aguardente
Onde me sinto ignoto a toda aquela gente,
Numa atmosfera amorfa, opaca e barulhenta.
E sigo para o mar de vaga suave e lenta
Que vem pousar na costa um ósculo ardente,
E em sua voz de segredo, mágica, lugente,
Me narra um historial, que me seduz e tenta.
Que vem pousar na costa um ósculo ardente,
E em sua voz de segredo, mágica, lugente,
Me narra um historial, que me seduz e tenta.
E vejo tanto herói a enfrentar a morte,
E tantas caravelas sem leme e sem norte
Após desafiarem louca tempestade.
E tantas caravelas sem leme e sem norte
Após desafiarem louca tempestade.
E nestas descobri as marcas do meu povo
Que para um dia haver um mundo extenso e novo
A tudo disse adeus, excepto à saudade.
Que para um dia haver um mundo extenso e novo
A tudo disse adeus, excepto à saudade.
Jc
foto: do próprio
domingo, 15 de março de 2020
UM DEDO ENTRE OS OLHOS
É no vidro cendrado que descubro
o olhar de sombra
que observa e lê a máscara de ternura
e afaga o lírio morto entre os dedos
o olhar de sombra
que observa e lê a máscara de ternura
e afaga o lírio morto entre os dedos
Neste cubo fechado andam vultos
que digladiam gestos com as bocas
hiantes de palavras perdulárias
que digladiam gestos com as bocas
hiantes de palavras perdulárias
O tempo é o desenho no vidro
que viaja com o sopro da fuligem.
que viaja com o sopro da fuligem.
José Félix
2020.1.24
2020.1.24
domingo, 8 de março de 2020
UM "PAI" EM DESESPERO.
Encontrei-o sentado junto à porta
Da sua barraca feita de pobreza;
No semblante, estampava-se a tristeza
Que a sua vida já quase não comporta.
A face era enrugada quase morta;
Olhou-me de alto a baixo com frieza
E respondeu com laivos de aspereza
À mensagem que, penso, até conforta.
Segui o meu caminho a meditar
Nas palavras que tentavam consolar
Um homem na miséria e meu irmão...
E pareceu-me ouvir Cristo Jesus:
<< Ao homem infeliz e sob a cruz
Diz lhe a palavra, mas envolta em pão>>!...
Jc
domingo, 1 de março de 2020
CHUVA DE MARÇO - LUANDINA
na folha de zinco
o cio dos gatos arrasta a chuva.
ouve-se o chiar dos morcegos
à roda dos mamoeiros.
os passos, serenos, de minha mãe,
calam-se na porta do quarto,
e a água distancia-se
na sombra dos olhos.
o cio dos gatos arrasta a chuva.
ouve-se o chiar dos morcegos
à roda dos mamoeiros.
os passos, serenos, de minha mãe,
calam-se na porta do quarto,
e a água distancia-se
na sombra dos olhos.
o cheiro forte, da pitangueira,
alerta um par de cílios.
alerta um par de cílios.
José Félix
domingo, 26 de janeiro de 2020
HOMEM
Um coração de pomba com olhar de durão.
Quem escreve um poema destes, só pode ser um homem bom!🍀❤️
Célia Corredeira
16-8-19
——
HOMEM,
Tu não precisas de pisar ninguém
Para seres “um homem de bem”!
Basta que penses nas tuas mãos:
-Com elas poderás amar e sofrer,
Enxugar lágrimas e esculpir sorrisos
Nos lábios de uma criança...
Firmar o bordão de um velhinho, sem ninguém,
Dar uma ajuda aos que perderam a esperança,
Pegar numa faca e sem desdém
Repartir o pão da mesa... todo quanto tiveres!
Podes abrir um livro de versos e ler poesia,
Escrevê-lo até se quiseres...
Jc
domingo, 19 de janeiro de 2020
O PEQUENO POETA
Percorrendo ruas sem rumo
Ele vai devagar caminhando
Com o rio se aproximando
As redes ao fundo balançando
Elas o peixe vão esperando
Com o sono mandando
Sua tristeza vai carregando
O rio o vai desafiando
Pelo poeta está esperando
Será hoje amanhã quando?
Ele vai devagar caminhando
Com o rio se aproximando
As redes ao fundo balançando
Elas o peixe vão esperando
Com o sono mandando
Sua tristeza vai carregando
O rio o vai desafiando
Pelo poeta está esperando
Será hoje amanhã quando?
O Kapeta M.P.
domingo, 12 de janeiro de 2020
A VOZ DO DESEJO
na sala nem a sombra de um retrato
nomeia a luz do rosto que pertence
aos cílios finos da memória intrusa.
eu queria, mãe, ver-te envelhecer
sem que a escrita comprometesse a vida
e o engelhar da folha fosse só
um pequeno sorriso na respiração da árvore.
construo-te ruga a ruga na velhice
perfeita de uma tela antiga
mas dói-me a fala porque a tua juventude
cala a voz do desejo da flor íntima.
que coisas poderíamos ter dito
na geografia de gestos e na
paciência das estações.
nomeia a luz do rosto que pertence
aos cílios finos da memória intrusa.
eu queria, mãe, ver-te envelhecer
sem que a escrita comprometesse a vida
e o engelhar da folha fosse só
um pequeno sorriso na respiração da árvore.
construo-te ruga a ruga na velhice
perfeita de uma tela antiga
mas dói-me a fala porque a tua juventude
cala a voz do desejo da flor íntima.
que coisas poderíamos ter dito
na geografia de gestos e na
paciência das estações.
josé félix
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