segunda-feira, 29 de junho de 2015

RETROSPECTIVA

Portugal houve um tempo em que
dei-te tudo, na minha juventude
um pouco quase fatal do meu sangue
em África, as candeias da noite
estiveram com esse sangue a iluminar
a escuridão, dei-te tudo
Portugal, e agora não sou nada.
Os cofres estão cheios, alguns
que nunca souberam o que era uma guerra
dizem-no, Portugal, mas eu como tantos
não sou nada. Como diria o Allen
Ginsberg. Vai-te lixar
com os teus merceeiros enriquecidos.


23-03-2015
© João Tomaz Parreira

domingo, 21 de junho de 2015

UM OLHAR AO PÔR DO SOL


Poema dedicado a um amigo, que prematuramente perdeu a vida num voo de instrução noturno, na Base Aérea de S. Jacinto.
UM OLHAR AO PÔR DO SOL
(Para ti Chorão de Carvalho)
Fui para lá do horizonte
vaga,onda daquele vogar,
pôr do sol, lágrima fonte!
por ti,
plumas brancas a chamar.
mandei recado pelo vento
recanto imaginário,
ouvi vozes de lamento
Por ti.
luta inglória, triste fadário .
no peito asas dum sonho
deleite gesto, audácia
farol da ria risonho
por ti,
perfume simples,acácia.
subida ligeira,céu aberto
noite escura a desbravar,
sorte em flor ali tão perto
Por ti,
nas profundezas do mar!

Julio Corredeira

domingo, 14 de junho de 2015

NENHUMA BELEZA VÍAMOS

Nenhuma beleza nos cravos que romperam
a carne, nas mãos
nenhuma beleza prendia o olhar
nenhuma beleza no peito
aberto pelo ímpeto da lança
nos olhos, como um espelho negro
onde a dor adormece lentamente
nenhuma beleza havia que nos agradasse
nenhuma beleza na melodia
do salmo do abandono
nenhuma beleza nos pés, como folhas
secas no madeiro, sem outra saída
senão dar beleza à sua morte.

s/data
© João Tomaz Parreira


(Dali, El Cristo de San Juan de la Cruz, 1951)

domingo, 7 de junho de 2015

REENCONTROS


Espero que não tenhais mudado!
Estou certo de que não haverá “rugas”,
Pois, o ferro das nossas recordações,
Tem-se mantido ao rubro.

De homens que pensávamos ser….
(As fotos da altura não mentem)
Confirmamos agora, no conta Knots do tempo,
Que, afinal, todos éramos meninos.

Aquele que, penso, conhecer melhor,
Levava, à partida, todo o seu espírito de aventura;
Ia ao encontro do desconhecido ….
E, não ficou defraudado,
Pois teve o privilégio de voar Africa!!!

A CHAMA continua: nem que seja parta ‘alimentar’ insónias.

No presente,
Sois também Vós,
Que aqueceis o ar que impulsiona
As asas sustentadoras
Dos motores /estrelas dos meus sonhos.

Não sei se é apelo ou pesadelo, mas,
De quando em vez,
Sonho que Lá estou a chegar….. pela 5ª vez!

Mudemos o “passe” de hélice,
Desta rotação tangueira,
Para outra mais sanzaleira:

M O Y O !!
Riquier ( Menino)

segunda-feira, 1 de junho de 2015

DESAVERGONHADOS QUE GOVERNAM!

A degradação do ser humano começa com a perda da vergonha!
Muitas vezes escuto,bem atento,
Vossa palavra a traduzir conceitos
Sobre democracia e direitos
Como expressão do vosso pensamento!

Parecem infundir um novo alento
Aos sonhadores de um mundo sem defeitos,
Dar esperança aos corações desfeitos
E aos escravos da morte e do tormento.

Mas ao ver tanto povo e
tanta gente
Em vão, clamando o vosso auxílio urgente
P'ra refrear a dura tirania,

Sinto em mim um terrível desencanto
Ao ver que o interesse vence o pranto
E desmascara a vossa hipocrisia
...

J.C.

segunda-feira, 18 de maio de 2015

CHUVA NA SEARA


Primeiro o vento, raivoso, em turbilhões
Move a seara numa louca dança
Anunciando a chuva que avança
Distribuindo faíscas e trovões.

Vibrando, a chapa de zinco do telhado
Ensurdece quem dela faz abrigo
Enquanto que lá fora o loiro trigo
Pela chuva e pelo vento é fustigado.

Cai forte, sim, mas não demora
A chuvada que por essa terra fora
Vai formando charcos e torrentes

E quando a nuvem negra vai embora
O sol, brilhando, activa e revigora
A vida adormecida nas sementes.

José Carvalho
Ouaninou, 22 AGO 95

domingo, 17 de maio de 2015

TALVEZ TESTAMENTO POÉTICO:


[ESTOU SEM DÚVIDA ENTRE AQUELES QUE FALHARAM]
“A man has every place to lay his head.”
Philip Levine

Estou sem dúvida entre aqueles que falharam
Como Philip Levine o poeta dos operários, trabalhei
Também no turno da noite,
Onde tive os melhores propósitos
Nos versos que me acordavam. Muitas vezes,
Entre aqueles que falharam
Conto com David e Pedro que amargamente choraram
Com a alma nos olhos, um rei que fez poemas e o pescador
Que deixou barco e redes e não teve, como Quem o chamou
Onde reclinar a cabeça.

Um homem tem todo o lugar para reclinar
A cabeça, o que está sobre os meus ombros
É o peso que me diz há sessenta e tantos anos que falhei.
Como Paulo que entendia os gentios, o que quis
Fazer não o fiz, miserável corpo para a morte.

Não sou pior nem melhor que os demais
Gosto de poucas coisas, do sol, os dias de chuva
São inconvenientes para os meus nervos, golpeiam-me
As pedras que ouço às vezes nas vozes.


Quero dizê-lo agora, porque é uma questão
De tempo, ser honesto e que todos saibam
Que apesar de tudo não tenho escondido sob rótulos
Os poemas que possam ser eu mesmo.

18-02-2014
© João Tomaz Parreira

terça-feira, 12 de maio de 2015

ODE AO T6


Uma letra, um algarismo,
Símbolo mais mítico
Que o do ‘cavalinho’ da Ferrari,
Stradivarius (que delírio!) voador!

T 6

Nesse teu pequeno cockpit
Conténs a enormidade
De quase 40 anos da Minha vida,
Dos quais, pareço não ter referências.

Entre isso,
Existe a Época em que por lá passámos e,
Este momento, presente,
Do voo de experiência
A que estou a ser sujeito.

Não quero falar por Vós, mas penso,
Que nunca pusestes aqueles 2 anos no sótão:
Continuam na prateleira,
E, de quando em vez,
Ao limparmos-lhes o ‘pó’ ,
Que é composto pela ´terra’ que lá pisámos,
Fazemos libertar, novamente,
Aquele Passado,

Que vem estrangular
A garganta das Nossas emoções.

Estou a relembrar Isto, porque, ontem,
Na ‘catedral’ do silêncio da noite,
Visionei fotos, da autoria do José de Sousa,
De um CD Rom, da época de 68/70:

A nr.
Apresenta o interior de um cockpit de um T 6!
‘Instalei-me’ lá dentro, e,
As longarinas do meu Ser, foram,
Totalmente, sacudidas,
Pelo ‘Sism’ da’saída da picada’,
De um ‘passe de fogo’!

Depois, mais refeito,
Tentei re-identificar os instrumentos,
As manetes: gás, mistura, passe de hélice, flaps,
Os instrumentos: horizonte artificial, conta rotações, etc.,
E ainda, a alavanca manual para o caso de………

O cheiro de óleo, rasgou o Tempo
Misturado na tinta das recordações.
Que ‘desfile’,
Dentro de um ‘palco’ tão diminuto!
Gostaria de ser capaz de exteriorizar,
Em ‘cenário’ de autenticidade,
Os G’s a que fui submetido!

A foto nr……
À vertical de H. Carvalho…….
Estive Lá?
Tudo Aquilo Me pertenceu,
Ou Eu contínuo a Pertencer-lhe?

M O Y O ! !
Riquier ( Menino )



domingo, 3 de maio de 2015

"INDÓMITOS PILOTOS"


A Vós indómitos pilotos de "rapadas" nas Avenidas de Henrique de Carvalho,
Briosos fuzileiros até, das àguas revoltosas das piscinas de H. de Carvalho e Luso.
Não arredáveis pé nos Maca de Sanzara,
E enfrentáveis os perigos da noite,
Nos quimbos das "Marias, Bêbeda e Marreca".
Levantadores de "pesos" das hostes rivais da Cuca e Nocal,
Apenas “derrotados” e “caídos por terra”
Nas lutas domingueiras em que enfrentáveis
O Temível “Galo Cantou”.

Expandiste-vos por Terras do Camaxilo, Cazombo e Gago Coutinho,
Nos intervalos das blenorragias, curadas em Luanda,
Terra de partida e chegada dos Mininos com Banga.

Vou meter uma bandeirada ,
Pois este motor é da guerra de 40.
Assim chegarei ao fim deste voo ,
Planando, suavemente, como convém à minha vetusta aeronave.


M O Y O ! !

Riquier ( Menino)

segunda-feira, 20 de abril de 2015

A VERDADE DE UM OLHAR


Olho este nosso país e vejo hipocrisia
Entre pobres incultos e doutos barões
Entre os homens comuns e os grandes patrões,
E até em governantes que o povo cria.

São milhões trucidados ou em agonia
Por criminosos e autênticos vilões
Quantas vezes movidos por falsas razões
Ou a cobiça que os mortais cega e enfria.

E os crimes cometidos neste nosso "mundo"
Geram em mim uma ansiedade e um dó profundo
Ante esses fratricidas de sangue sem pudor.

E parece-me ouvir o grito dum pobre
Debruçado em contentor por algo que sobre
E sonho com o dia da bonança e do amor!

Júlio Corredeira

segunda-feira, 13 de abril de 2015

A LÍNGUA

há quem adopte países e cidades
há quem afilhe a língua e a linguagem
há quem sublinhe a forma de sentir
e até subscreva o pensamento estranho
na emigração, no exílio da palavra.
mas a substância da raiz perdida
esgota a seiva salva no lio de água;
memória, pronúncia da larva ovo.
cravado, prometeu lamina a língua
que corta os elos lisos de lidar
onde o poder dos deuses corta a fala.
o sémen da palavra reaprendida
não poliniza a língua de outra fonte
e de que águas feita escorre límpida
em qualquer leito largo de sinais.

José Félix OPCART

terça-feira, 7 de abril de 2015

A RESSURREIÇÃO

Sem nada por que chorar
senão o túmulo vazio
e dois anjos a arrumarem a casa
vazia para sempre
sem nada sobre o que derramar o seu incenso
as mulheres
recém chegadas ao sepulcro
vão gastar os olhos na vigília
as mulheres sem um corpo onde encostar
o seu olhar silencioso
o fio das suas lágrimas
e regressam, as mulheres
regressam com o vento nas sandálias
as mulheres que vêm com o medo
mas com os cabelos como os ramos
perfumados de alegria.

© João Tomaz Parreira

domingo, 5 de abril de 2015

SEXTA FEIRA SANTA



A terra chora lágrimas de sal...
Há no seu rosto palidez sombria,
E ouvem-se, na treva densa e fria,
As gargalhadas cínicas do mal.

O ódio negro, como um vendaval,
Fustiga o monte inteiro noite e dia ,
Escorre o sangue rubro,em agonia.
Sobre a face dum luto universal.

E Tu, ao longe,ó Cristo solitário ,
Contemplavas o cimo do calvário
Donde, em sangue viria a redenção.

E na fronte do Homem pecador
Punhas um beijo de infinito amor,
Dizendo: Meu amigo e meu irmão!


Julio Corredeira

segunda-feira, 30 de março de 2015

POEMA SOBRE O AMOR, NÃO DE AMOR


Não podes dizer-me o que é o Amor antes
De sentires a alegria das mãos de Deus
A criarem no interior das costelas de Adão

Não podes dizer o que é o Amor
Senão depois de ficares sem palavras
Como o Pai
A olhar o Filho no Calvário
Sem uma caneta, senão a pena antiga dos evangelistas
Para nos transmitir esse acto de Amor
Não podes dizer-me de que trata o Amor
Sem que o mundo te rejeite, o sonho
O mundo ainda não gosta de sonhadores.

8-02-2015
© João Tomaz Parreira


(Arte: Marc Chagall)

segunda-feira, 23 de março de 2015

CAEM DO TELHADO

caem do telhado
em desenhos de água
as palavras que
se furtam ao sol
num lamento débil
soltam do salgueiro
finas transparências
as eternidades
que se vão partindo
espelhos narcisos
numa fixação
que é tão luminosa
quanto é a brevidade.
josé félix

terça-feira, 10 de março de 2015

O ANO NUM MINUTO

Cheguei hoje cedo
Com medo
Receios sem nexo,talvez!
O que sobrou de ontem,
Levaram as nuvens em segredo.
Procuram poiso em manso rio,
Alvoroço , manhãs de frio,
Sóis e luas relembram rotinas,
Estou diferente? A alma renega,
Novas sem sem futuro , "sorrio"!
Já espero Primavera em flor,
Penas sem asas perdem a cor,
Estio sem tempero, passa ligeiro,
Caem folhas, como sempre, afinal !
Chega apressado de novo o amor.


Natal outra vez!
Hoje como sonho,o mesmo mês .
O mundo gira, nora sem água,
O tempo, combate a mudança ,
Voltei a ontem, que estupidez!
De Júlio Corredeira

terça-feira, 3 de março de 2015

ÊXODO

A casa seria para guardar as memórias
dos nossos pais, a porta
a última pela qual sairíamos no Egipto,
do metro quadrado chamado gueto e do
pequeno espaço da luz
de cada casa, para caminhar ao sol derramado
no deserto, para separar a impaciência do Mar.
Com os olhos afeitos à limpidez da noite
depois do Anjo que passou rasgar as trevas e os corpos,
sairíamos com pressa dessas memórias
sem danças, nem cantigas, só as orações
ainda sem livro, nenhum
solo de salmo nas cordas das nossas liras.



31-12-2014
© João Tomaz Parreira

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2015

ARTE DA PESCA

















Arte da pesca

Componho a linha
aparelho a arte da paciência
e espero que o peixe morda o anzol
em aflitiva luta contra a escuridão
Não cabe no poema a estranha amargura
da visão da quietude e o que resta
é cortar a linha que segura a vida
perante o pensamento do conceito da morte
que todos esperamos sem remissão
A paciência é um jogo de xadrez
que acaba sempre com um xeque mate
depois de muitas jogadas de estratégia
Não sei porque filosofamos acerca angústia
quando percebemos cedo que o fim
é a cinza que tem a última jogada
A pesca é o leitmotiv
para nos esquecermos dos ossos
no meio de tanto mar e de tanto horizonte.

De José Félix

domingo, 15 de fevereiro de 2015

"REQUIEM" POR UM AMIGO

A minha singela homenagem ao Anacleto, no primeiro aniversário da sua partida. 15/2/2015.

Vi-te chegar "maçarico" e sorridente a Gago Coutinho, na tua primeira missão em T-6 no leste de Angola. 
Partilhamos voos em DO-27, no saudoso Cazombo. Por terra Luena espalhámos coragem e juventude.No Luso brindámos tantas vezes ao companheirismo e amizade. Na Ota fomos companheiros de liberdade e respirámos o mesmo ar durante muitos meses.
Separou-nos a "vida", mas sempre acompanhados na amizade!
Cumpriste primeiro a tua ultima missão, com a coragem e dignidade que dos bons sempre se espera.
Um dia entrarei na final para aterrar nesse imenso território celeste.
Dir-me-ás,com esse teu olhar sorridente e trocista: Bem vindo,
a esquadra precisava de ti!...
Nesse dia,serei eu o maçarico!
Abraço-te com este humilde poema.
Aceita-o como um "drink"e brindemos com a nostalgia da saudade e distância. -À TUA TRINITÁ!...

"Requiem"por um amigo
Que estranho sentimento de ansiedade
A dominar meu todo-corpo e alma-
Quando, naquela tarde amena e calma,
Te deixei com abraço de amizade.

Não era uma certeza. Mas em verdade,
Eu pressentia um pôr-do-sol sem alva
Um mal estar que nem a mente acalma
Talvez o despertar duma saudade.

E quando tu de mim te despediste
Ainda vi em teus olhos confiança,
Alheio ao teu finar amargo e triste.

E eu amaldiçoaria fado e sorte
Se não alimentasse a esperança
De te encontrar mais p'ra além da morte.

Júlio Corredeira
Ex Piloto FAP

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2015

RECORDAR UM PASSADO

Meu pensamento ausentava-se
Do corpo sem esperança
E vogava,sem rumo, por regiões incertas,
Paragens ínvias e desertas,
Dum mundo imaginário,
Onde apenas eu sou,
Qual fantasma solitário
Ou atrevido e louco vagabundo .
E entrei a sonhar:
Era um mundo
De fantásticas imagens,
Realidades ou miragens,
Nem eu sabia!
Mas era um lugar novo onde o calor,
Em frémitos de amor,
Beijava a planície virgem e calma,
E de cada beijo brotava uma flor...


De Júlio Corredeira

domingo, 1 de fevereiro de 2015

GENTES DA SAVANA


Na terra quente, desfazendo-se em poeira

E mal sustendo as raízes ressequidas,
Vão suportando as tormentas repetidas
E resistindo à fornalha soalheira.

Como será que perduram estas vidas?
Por que ideal lutam? Que bandeira
Os arrasta à dura prova derradeira
Sem que as razões vitais sejam ouvidas?

Nem o vento quente do deserto
Nem as feras, enormes, que ali perto
Esperam um passo em falso, em demasia...

Nada os mudará do seu intento
Porque a razão que os move e dá alento
É, pura e simplesmente, ...a TEIMOSIA!

Odienné, FEV 95

José Carvalho

quinta-feira, 29 de janeiro de 2015

[NÓS QUE ESTAMOS ACIMA DOS NOSSOS MORTOS]

“Ó, vós que estais acima dos mortos”
Hart Crane
Nós que estamos acima dos nossos mortos
queridos, devíamos passar com os pés celebrantes
do silêncio, como se fossemos pelo chão
como uma sarça ardente
como se os seus rostos nos olhassem do fundo
à contraluz, eles estão vivos, sem ruído
para não perturbar o sono, nem agitar
a terra que guarda a semente do nada
para se erguer depois no dia
que há-de vir em que a Morte acaba.


28-12-2014
© João Tomaz Parreira

segunda-feira, 5 de janeiro de 2015

NOITE DE NATAL


A minha singela homenagem ao Natal da esperança!
NOITE DE NATAL
Só! Absolutamente só, à mesa.
Parentes e amigos tão dispersos,
Levados por destinos bem diversos ,
Comungam na alegria e na tristeza.
A noite fria, de chuvisco e vento,
Escuta, no silêncio, as orações
E o eco longínquo de canções
A evocar de Cristo o nascimento.
Mas na tela da minha fantasia,
Vejo agora, em minha companhia ,
Os amigos distantes e os parentes.
E contemplo também esse caudal
De tantos para os quais não há Natal
Sobretudo famintos e doentes!...

De Júlio Corredeira

terça-feira, 30 de dezembro de 2014

31 DE DEZEMBRO





















31 de Dezembro
Por doze badaladas se ganha
Uma ESPERANÇA!
Um frenesim louco procura
Nome a preceito.
Requintada dama!
Traz-nos felicidade, paz desejada ,
Em seu regaço a bonança !
Luzes e perfumes
Esperam por ela !
Cetins coloridos chamam-lhe
NOVA.
É vela em chama, que chega
Criança,
Menina prodígio,alegres canções,
Inebriada de sonhos
Abre corações ,
O povo clama ao som de trova.
Viva, senhora ESPERANÇA !!!

Júlio Corredeira

quinta-feira, 20 de novembro de 2014

LIBERDADE-DEMOCRACIA



Tanta gente a cantar, em nossa sociedade,
Em amplas praças ou qualquer estreita rua
Duma pequena aldeia sem calçada e nua,
Com raro frenesim, a sua liberdade!

Porém, vejo passar esguio, em ansiedade ,
Um pelintra sem pão , magrote,, esfomeado;
Que não tem para si nem sequer um telhado;
E outro passeia farto e muito aperaltado .
E muitos em vivendas ricas , luxuosas,
E tantos em barracas frias, horrorosas,
A dormirem sem cama, sobre a terra fria.
E eu escuto, de novo o " todos são iguais "
E à "deusa"Liberdade os vivas triunfais!
Não será isto um paradoxo, uma ironia ?!...

Julio Corredeira

sexta-feira, 8 de agosto de 2014

ANGOLA 1968-1970


ANGOLA 1968-1970
“Recuerdo que escribía cartas” 
Fernando Luis Perez Poza
Recordo-me de escrever cartas
Eram cartas de um lugar obscuro
Mas cartas verdadeiras, recordo
Que as invejava porque iam 
Tocar os dedos da família, ficar sobre os móveis
Da casa que deixei, recordo-me de escrever
Cartas sobre mim, transparentes
A única palavra que recordo
Era amor.
06-08-2014
© João Tomaz Parreira

sexta-feira, 27 de junho de 2014

Os homens são seres de vida breve

in Odisseia de Homero


1.

na morte
presente e iluminada
atravessando o corpo, beijando a noite, fugindo
se sente a aurora no crepúsculo
da flor.

2.
tenho o vestígio da morte no corpo
a doença marítima de um búzio
que perde o grito silencioso quase
a sonolência longa de um sono breve
nos caminhos da areia rarefeita.
o vento de água cura a ferida aberta
e na contemplação das plantas vivas
mais viva é a morte passageira.
um gesto branco nos lábios de inocência.
3.
na areia da praia encontramos tudo
um brinquedo esquecido
pegadas de gaivotas
um adeus desenhado no coração
um bom-dia imprevisto quando estamos sós
e as espinhas dos peixes limpas pela água
o eco da voz vai com as ondas
que limpam já os passos inseguros
doutro caminho iluminado e breve
frágil no pó dos ossos incendiados
todo o fogo se consome a si próprio.
4.
num simples verso vai, na morte, a vida.
5.
restam o caos e o sonho
e na cegueira da luz
uma fonte incendiada
grava o último reflexo
da infância de um sorriso.
6.
nos ossos da manhã
há vestígios da carne madrugada
no quarto de hotel de 3ª classe.
o cheiro forte do gin tónico
conta os dias como um relógio velho
do qual sabemos a tonalidade
no compasso das horas.
é nos lençóis de esperma ressequido
que a vida fácil torce o coração
na clepsidra diária do pó
que dificulta na passagem clara e estreita
uma corrente de luz fina
que segura no grito temperado
uma voz frágil que surge do medo.
7.
há princípios de ausência
no teu rosto
e dos ossos só resta a quietude
da espera convertida
na vertigem dos dias.
desenha-se
a última alegria límpida e lúcida
no vôo de uma pomba.
é pacífica a morte
quando te beija o corpo quente e dado
aos fantasmas do sonho.
quanto mais sobe a vida na montanha
mais escarpas e sulcos de gangrena
se vão formando em direcção ao pó.
8.
nesta raiz apodrecida e frágil
há ecos há vozes no encantamento
dos pássaros feridos pelo tempo
uma lua adormecida engravida
a luz que pasma detrás do casario
há árvores que resplandecem
quando a morte lhes gangrena o tronco.
9.
nasce morta a manhã
nos escombros das casas e das árvores.
o último sorriso jovem escurece
a rua metralhada por deus.
as pombas rodeiam os ossos da cidade
enquanto os corvos comem restos
de humanidade.
10.
dobra o pecíolo na ventania
e a folha
na nervura do tempo cai no fio de água
deixando esporos na margem da sede
na penumbra.

josé félix

sexta-feira, 9 de maio de 2014





Lá Longe

Foi lá que vivi. Lá longe
Onde não havia telefone e ainda não existia telemóveis.
As cartas, essas eram abertas, riscadas e rasuradas.
De lá, tiravam aqueles cinquenta escudos que as Mães
Amealhavam para enviar e consolar os filhotes.
Lágrimas corriam quando líamos e sentíamos a dor
Da distância do amor e dos abraços que não podíamos ter.

Foi lá que vivi, Lá longe
Palavra que só nós sabemos dizer e sentir;  saudade!
Uma foto sem cor, um beijo sentido como fosse dado.
Meia dúzia de palavras  num aerograma e
Mais uma semana de leitura , sempre a mesma
 sempre o mesmo amor.

Foi lá que vivi. Lá longe
E como gostava de poder pôr neste pedaço de papel
Tudo o que vi, senti, odiei e amei.
Tudo que me obrigaram  a fazer e que fiz por ser
Português.

Foi lá que vivi. Lá longe
E lá conquistei a amizade daqueles que não conhecia.
Momentos de dor e sofrimento que com a união de todos
Superamos o tempo que parecia não passar.

Mas chegou esse dia e regressei.

A dor, o sofrimento, o isolamento as saudades,
Lá ficaram mas, não consigo esquecer
O bom e o mau de tudo que vivemos.
Certo sim que ganhamos grandes amizades
Que perduram até hoje e talvez para sempre.

Foi lá que vivi. Lá longe.

Rui Neves

sexta-feira, 11 de abril de 2014

delicadeza da voragem


o teu sorriso ilumina a casa

como um rasto de luz
na película da fotografia
ou como a raiz do sol
que entra pela janela.

a tua sombra acaricia
o silêncio
e como um pássaro azul
pousas no meu ombro
num sopro de água
a asa marítima.

na transparência da noite
no mistério dos sons impossíveis
a ardência do gesto entrega-se
ao novelo do sonho
e tu, tronco da árvore
acariciada até ao húmus
planto-te com o cuidado
do tempo da aurora
na vertigem do relâmpago
que apaga por instantes
o fogo aceso dos lábios.

na permissão da folhagem
há um rumor que permanece
na brisa leve dos sentidos
e nas tuas mãos entrego o mundo
o tesouro construído
na delicadeza da voragem.

josé félix

sexta-feira, 28 de março de 2014


a vida das palavras


ando à procura das palavras úteis

mas tão inúteis que as encontro mortas
numa capa de um livro no jardim.
vadias, as folhas soltam-se
fugindo com o vento
nas mãos da adolescência.
as palavras manuseadas
pelas idades mais diversas percorrem
caminhos de leitura acesa
à procura do labirinto de borges
para aí permanecerem até que as mãos
de um jovem inocente ou o sopro de um velho sábio
as façam florescer em todas as representações.
não importa que elas tragam as metáforas
as hipálages, frases de fazer de conta
hipérboles, metonímias e muitos adjectivos,
verbos, pronomes, e noções do verso.
as
palavras vão trazer a luz, a escuridão
conciliábulos de deuses e de homens.
a mentira, o espelho dos meus olhos
o vómito do dia anterior
a puta que passeia na IC 19
procurando clientes fartos de
mulheres gastas.
muitas folhas espalham-se e perdem-se
como as pombas que sobrevoam a copa
das árvores. o silêncio é o que resta
do prolongamento do olhar.
a capa dura, dura mais no tempo
até que o lixo a há-de levar
para lugar adequado quando
for triturada na reciclagem industrial.
perdidas, as palavras de uma capa
hão de magoar até que elas se percam
no destino dos homens escondidos
numa península.
a vida das palavras tem o tempo
que dura quem as lê, ou as perderam,
ou mortas, espalhadas pelas urbes,
nos caixotes do lixo desprezadas
por quem, precisamente, se serve delas
para significar o pensamento torpe
na pústula que sai dos próprios lábios.

josé félix