domingo, 30 de outubro de 2016

CAVEM MAIS FUNDO


“Ele grita cavem mais fundo no reino da terra”
Paul Celan (in Fuga da Morte)
Por que será que eles cavam e cavam
Enterram as pás mais fundo na terra
As pás com os seus fios rombos de navalha
Vão encurtando as horas da vida, eles sabem
O que os olhos já viram, mas agora os seus olhos
Não acompanham as mãos
Sob as ordens como pedras, a voz diz
Cavem mais fundo para o reino dos céus.
18-05-2016
© João Tomaz Parreira

domingo, 23 de outubro de 2016

RAZÃO

Razão,a excelente faculdade,
Que penetra no âmago do ser,
Cuja essência procura entrever
E distinguir o erro da verdade.

É também um farol, luz rutilante
Que rasga a cerração da noite escura
Tornando a rota clara e mais segura
Ao homem, esse inquieto navegante.

Mas na sua vida em permanente luta,
Quanta vez ele desvia sua conduta
Dos caminhos traçados p'la razão!

É que o homem é mais que pensamento;
É afectividade , é sentimento,
É amor puro e é também paixão...
JC

domingo, 16 de outubro de 2016

TODOS OS DIAS O CARTEIRO

todos os dias o carteiro traza depressão que lhe convém. depoisevade-se no elevador do prédioe tira à pressa, da camisa branca,os comprimidos que carregam sonhosou os desfazem, dependendo doponto de vista de cada um. Ulissesanda perdido na cidade, e Atenaconhecedora e sábia dos oráculos,demorará o tempo necessáriopara que algum dos deuses se convençae leve o velho marinheiro a Ítaca;só quando a face da mulher que esperanão for sequer o espelho da partida.

josé félix

domingo, 9 de outubro de 2016

CASA DA CAOTINHA

BENGUELA, TERRA DAS RUBRAS ACÁCIAS


Do alto da rochosa casa a pensar,
Oiço o doloroso ranger dos remos,
Na sombra do jango ouvindo o mar,
Sinto os barcos gritarem nas águas,
Apetece-me rir e chorar,
Não sei que fazer às mágoas.

Caotinha, 28 de Novembro de 1999
Faria Costa

domingo, 2 de outubro de 2016

O BOMBARDEIRO


“Meditai que isto aconteceu”
Primo Levi
Passei aqui muitos voos de joelhos, orando
Com os olhos atentos ao soberano deus
Morte, com a morte de aço entre os meus dedos 
Na mira dos homens, enquanto nas casas cálidas
Ninguém suspeitava e eu era um anjo 
Com asas de alumínio, os meus ouvidos
Longe das súplicas a dez mil pés de altura
Testemunham do meu lugar de bombardeiro
Cada ribombar do trovão na noite iluminada
Eu sou o fogo nas ruínas, uma alma
A destruir as outras almas.

27-10-2015
© João Tomaz Parreira

sábado, 24 de setembro de 2016

“OS RAPAZES" DO MEU PAÍS


Tinham eles vinte anos
Os amores de tanta gente
Fosse ele um amor qualquer
Havia sempre uma mulher
A chorar constantemente

Tinham eles vinte anos
Os rapazes da minha terra
Com sonhos no peito ardendo
Foram pela Pátria morrendo
Foram mandados para a guerra

Tinham eles vinte anos
Rapazes do meu País
São homens rindo e chorando
Que o silêncio vão suportando
De uma guerra que ninguém quis!

Têm muito mais que vinte anos
Têm muito mais que desenganos
E ninguém sabe quem eles são
Não sabem quantos estilhaços
Lhes corta a alma em pedaços
E lhes magoa o coração


São eles heróis sem escolta
Numa Pátria a apodrecer
E eu só quero gritar a revolta
Daqueles que nem querem saber

E se este canto é em alta voz
Foi porque deus assim quis
Que jamais nenhum de nós
Esqueça os “rapazes” do meu País


De:
Loureiro, Lurdes (2005/2006), O bate estradas, ano 4, nº 28, Dez./ Jan.

domingo, 31 de julho de 2016

VOZES AMIGAS


Ouço as vozes tão perto e tão distantes,
Que me chegam repletas de amizade,
A despertar em mim uma saudade
Cujo pungir eu não sentira antes.

Batem os corações mais anelantes
Que aliviam minha alma em ansiedade,
E suavizam a dura soledade
Em noites preguiçosas, fatigantes.

E pra além da distância no espaço
Acompanha-me sempre o vosso abraço
Referto de calor e simpatia.

Ó amigos, que amo e compreendo!
Também eu, tantas vezes, vos relembro
Em horas de tristeza e alegria.



J.C.

domingo, 17 de julho de 2016

A MOLDURA DE BARRO


toco-te
como se acariciasse
um jarro de cerâmica 
acabado de moldar
com as minhas mãos
criador dos sentidos
deus é pouco
no muito que consigo
nos gestos transitórios
se isto é amor
ou não é, não sei
perco-me no barro morno
e recrio outro modelo
enquanto a água goteja
no colo do jarro.

José Felix

domingo, 10 de julho de 2016

TATUAGENS









Era costume, nas décadas de 60 e 70 do século passado, os militares trazerem da Guerra Colonial, tatuagens; cada um trouxe as que pôde:


Estas são as tatuagens do outro lado, de dentro
Da minha alma.

A ponta da agulha
Substituída pelo aparo, a única fronteira
Entre a palavra e a celeste planície
Da poesia, riscava a pele, no papel
Branco, ouvindo o silêncio das palavras, ainda
Sem nada a declarar, onde tudo começava.

Depois
Guardei todas aqui como raízes da memória.

16-10-2015
© João Tomaz Parreira


domingo, 3 de julho de 2016

AMANHÃ !


Chega a noite triste e mansa
Parte o dia devagar,
Fica uma réstia de esperança
P´ra quando a manhã chegar.
Vêm meninos da rua
Não sabem ter alegria,
Trazem graxa na sacola
Nunca foram à escola
Esperando o novo dia.
Camiões de chapa amolgada
Levando na carga o povo,
Seguem ao longo da estrada
Toda ela esburacada,
Esperando o dia novo.
Chegam do lado do mar
São mulheres de quem as queria,
Sempre a mesma viagem
Trazem filhos na bagagem,
Esperando o novo dia.
Saco cheio de nada,
Na barriga nada de novo,
È o regresso malvado
Desse tempo metralhado,
Esperando o dia novo.
É na esperança do povo
Qual paz tão fugidia,
Que se espera o dia novo
Que se aguarda o novo dia.


Lobito,10 de Maio de 1998
Faria Costa

Costumo escrever com alguma frequência textos sobre desporto, política, tricas do quotidiano, quiçá assuntos de carácter geral. Seguramente que tais textos encontrarão diferenças de opinião, concordâncias e discordâncias.
Hoje para amenizar a leitura, decidi oferecer-vos um «poema”, que escrevi em Angola, Lobito 1998, em plena guerra civil Angolana, quando ali cumpri uma missão no âmbito da Cooperação Técnico-Militar.
Este «poema» mostra a verdade nua e crua que ao tempo se vivia em Angola.
Revela também como era o meu caso, que os militares têm sensibilidade e sentimentos que na maior parte dos casos nada têm a ver com o calibre das munições e o sentido da guerra.
A minha visão de Angola em 1992 era aquela que vos descrevo neste despretensioso «poema».

domingo, 26 de junho de 2016

PERGUNTAS AO TEMPO, POR FREIXO DE ESPADA Á CINTA.


Como tudo me parece diferente!
Onde estão do outrora,essas imagens em que eu via o mundo em sonhos de menino?
A torre, meu castelo de ilusões. O lendário freixo, orgulhoso da sua nobreza. O cronista do Oriente imortalizado em pedestal. A praça salão nobre dos "raparigos". O poeta que me viu "partir chorando". A igreja orgulho de todos nós, filhos da terra manuelina .O rio, esse Douro mágico, que espalha seiva por tudo o que é mundo!
E Vós, Senhora dos Montes Ermos,
quantas mães te prometeram a jorna, pela troca de uma
promessa cumprida?
A tua morada continua na alvura dos anjos?
Lembra-me, Freixo,do trigo das searas arrastado pela brisa suave das manhãs de Junho; da horta da tia Francisca, onde as romãs eram presentes da velha mina!
Onde é sepulto o velho jumento do tio António, que tantas vezes, pelo raiar do dia, me passeava pelo tortuoso caminho do" valduço"?
Onde são as fantásticas miragens, de sonhos esvaídos no passado, que o Penedo Durão pintava no meu pensamento ?
Posso recordar as amendoeiras em flor, que no vale ou monte, transformavam a agreste paisagem?
Ainda vejo junto à fresca e velha fonte, a mítica imagem do lavrador acariciando a terra?
Ali bem perto, a frondosa árvore, lembrava as velhas histórias do tio Branqueja, repassadas na narração, mas sempre com flores novas na minha inocência!
Diz-me, freixo da espada, os sinos ainda tocam às trindades?
Como tudo parece hoje diferente, quando vos analiso à luz fria e neutral do pensamento!


J.C

domingo, 19 de junho de 2016

KALUNGA


é um vento de zinco
que beija os mamoeiros.
quiandas e cazumbis,
detrás das aduelas,
em coro com os cães,
espantam os morcegos
que vagueiam na noite.
os desenhos geométricos
das estrelas mais vivas
são as casas do sonho
de passeantes nocturnos
que plantam os desejos
de sementes cativas
no corpo de mulher.
assobios e piar
de pássaros do sul
marulham na folhagem;
muralhas duma água
que desagua fértil
no rosto que desenha
um país de futuro
plantado no passado.
sons de mar, e dos deuses
seduzidos por vozes
semeadas nas lavras,
nos sons íntimos das
cacimbas da maianga.
o meu sabor está
no fruto da mabanga
da ilha luandina,
no cheiro da garoupa
do porto de carvão,
onde o corpo descansa
ao lado das traineiras
esventradas do tempo.
meros e baiacús
constroem o silêncio
na podridão das tábuas.
há sons novos na areia,
e as andorinhas voam
ao lado dos ferrões,
todo o ano beijando a água.
os peixes apodrecem,
mas num sinal decúbito,
o dia vem remando
ventos de madrugada.

josé félix in "a outra fala"

domingo, 12 de junho de 2016

ENTRETENIMENTO



Chegas a casa. Liquidas o nó da gravata.
Ligas a TV, o Mundo já não é um lugar de refúgio
o que se passa é que os teus olhos te puxam
para lugares cenas e vozes que aceleram o teu coração
quando o que querias era descanso, um peso
retém-te como uma âncora, o sofá
agora é um abismo, salva-te o vício do jantar.

Regressas. Na TV um teutónico fala, a Europa
começa a ter mártires por todo o lado, é urgente
enviar sondas para outros Martes, descobre-se uma doença
chamada homem, outra nova que já poderia ter cura
mas a indústria diz que não é Deus, zarpas do canal
e noutro, ouves uma canção estragada
por uma telenovela.

18-09-2015
© João Tomaz Parreira

domingo, 29 de maio de 2016

O TEMPO



Aquele que nunca sofreu
Da desgraça os golpes duros;
Aquele que nunca bebeu
Doce amor de lábios puros;

Aquele que nunca sentiu,
No peito as penas dolorosas
Do ódio e jamais ouviu
Gemer os próprios algozes;

Que, aos poucos envelheceu
por conta, peso e medida,
-Não me diga que viveu:
Gastou apenas a vida…

Aníbal de Oliveira
( AO)

domingo, 22 de maio de 2016

O SONHO DO PILOTO


Vou-lhes contar num instante
Um sonho muito interessante
Que tive a noite passada
Pilotando um avião
Voava sobre o sertão
Numa bela madrugada     
                                           

A certa altura que horror
Avariou-se o motor
E com o medo me relaxo
Pensando num esqueleto
Sem pensar onde me meto
Atirei-me lá pra baixo


Na salvação vislumbrei
Um grande leão mirei
Que saía dum buraco
Fiquei cheio de energia
Confesso que me sentia
O Tarzan homem macaco


A socos matei leões,
Elefantes, tubarões,
Giboias e crocodilos
Papagaios e periquitos
Borboletas e mosquitos
Moscas, baratas e grilos


De manhã ao acordar
Quando me pus a olhar
Fiquei muito admirado
Tinha a cama toda partida
A mobília toda torcida
De tanto soco ter dado.
   
                                                                                  
Autor desconhecido
Remetido por Sérgio Durães

domingo, 15 de maio de 2016

UM SONHO


Sonhei-me a voar,
firmamento...
projecto sem destino certo,
luz da alma em rebuliço
tal qual o pensamento,
da gravidade liberto.
espaço como outrora,
entro em nuvens de linho,
não passou o tempo!...
revejo agora,
azul celeste a recordar
"horizontes de memória",
ondas de montes
no olhar.
vi-me a correr
célere como o vento.
das estrelas fiquei perto,
celebro o cometimento.
acordado entro a decifrar
linguagem estranha.
voo onírico,
abraçar.
esforço inconsciente,
alegria subjacente,
voltar de novo
a voar!!!
JCorredeira

segunda-feira, 9 de maio de 2016

MANUAL DE ESCULTURA

na robustez da pedra
aponta
o cinzel que modela
a face oculta

a que tem a substância
da doação
de nítida religiosidade
na sombra do sol

a ferramenta
prepara a pedra
a rugosidade do corpo

envelhece-o
na solidez permanente
do pó





José Félix

domingo, 1 de maio de 2016

A MÃE


Os filhos não são um eu separado das mães
Com elas ao nosso lado nós tínhamos
Um útero, um cordão
De ouro invisível, com elas ao nosso lado
Sabíamos a origem das coisas, de onde viemos
Do seu ventre encanecido, com rugas brancas
Como os cabelos, com as mães ao nosso lado
Nós tínhamos uma certidão de nascimento.



2015
© João Tomaz Parreira

domingo, 24 de abril de 2016

O TOQUE


Canta o clarim sonoro a marcha da alvorada
A tropa chega, avança e passa vitoriada
e que resta depois na imensidão da estrada
Poeira,poeira,poeira…

Juras de amor, poemas de glória inteira
Doces recordações, tudo, tudo teriam
Se calhar em cem anos de viver
o que apenas se vive em um dia
Poeira, poeira, poeira…

O tempo destrói cruel o que é sobranceiro
e bebe a aridez dos céu a água da fonte mansa;
No cume da pirâmide hostil, o vencedor descansa….
Poeira, poeira, poeira…

Ninguém pode fugir a sorte justiceira….
Meu coração é poeira, á poeira o sangue eu devo
e amanhã restará dos versos que escrevo
Poeira, poeira, poeira…

Aníbal de Oliveira
(AO)




domingo, 17 de abril de 2016

SUSPIRO


Que alegria nos trás o verdadeiro amor
Segue connosco a mesma viagem
Quando a vida é suave como a aragem
Refresca-nos em dias longos de calor
E sempre que esmorece o nosso ardor
E vai entardecendo a imagem
Surge como feitiço salvador
Não deixando que tudo seja quimera ou miragem
Mas este amor que nos anima e nos alenta
Em momentos de luz ou de tormenta
Só pode viver da certeza de quem ama


J.Corredeira

sábado, 26 de março de 2016

A RESSURREIÇÃO


sem nada para chorar
senão um túmulo vazio
e dois anjos a arrumarem a casa
vazia para sempre
sem nada sobre o que derramar o seu incenso
as mulheres
recém chegadas ao sepulcro
vão gastar os olhos na vigília
as mulheres sem um corpo onde encostar
o seu olhar silencioso
o fio das suas lágrimas
e regressam, as mulheres
regressam com o vento nas sandálias
as mulheres que vêm com o medo
mas com os cabelos como os ramos
perfumados de alegria.

© João Tomaz Parreira

quinta-feira, 17 de março de 2016

O LUGAR ONDE 1


1
o lugar onde
me circunstancio
é a clareira
da memória, rara,
que leva os dedos
para o corpo feito
de um desejo,
que ficou na cinza
de um fogo aceso
e consumido, breve,
na emoção
de uma palavra em chama.

o lugar, brasa
que me veste o corpo,
fotografia
de um olhar cativo
− a circunstância
dupla e eficaz,
e que regista
a memorização
do próprio fogo
de todo o lugar.

é uma fuga
o local da memória.

In O Lugar Onde
José Félix

domingo, 13 de março de 2016

RESPONDE-ME


(para todos aqueles que a doença lhes bate à porta sem avisar)

Versus finem

A doença vai minando o teu corpo cansado
E reparo que os anos te tornam mais lento
No passo vagaroso e no teu pensamento,
E parece tão breve o tempo já passado.

O vigor da memória de que eras dotado
E que muito retinha num breve momento
Entrou de enfraquecer em passo sem alento
E olho-te, com pena, nesse teu estado!

E, contudo, eu sei que a vida é contingente
E que em todo o momento a morte é iminente
Porque o nosso viver é limitada viagem.

Verdades que os homens vêem dia a dia,
E que todos aceitam em pura teoria,
Mas que vivencialmente parecem miragem !
Jcorredeira

domingo, 6 de março de 2016

LÁZARO À PORTA DO RICO


Deixa que venha o cão da ternura
e amacie as tuas feridas, a rosa
de carne que aguentará mais um inverno.
Deixa que venham as migalhas, gotas de pão
come como as aves com o rosto virado para
o chão, não tens outro lugar, até que o céu envie
os anjos, eles vêm adiante dos pés de Deus
para amaciar o caminho. Deixa que venham
para te carregar na doce imensa
rosa das suas mãos.
© João Tomaz Parreira
(Foto do DN)

domingo, 28 de fevereiro de 2016

O TRISTE BEIJO


Era uma vez um beijo,
Mais ardente do que a lava.
Um dia, de certos lábios
Onde a saudade morava.
Um dia, o alegre beijo partiu
a caminho de umas belas faces para lhes falar de amor,
Na partida ouviu dizer, que a bela a quem se daria
teria a pele suave e mais formosa
que à luz do dia existia.

Lá vem ela!
E mesmo ao longe já lhe adivinha o coração
o palpitar de ansiedade,
Com a pressa de se ir poisar em tão deslumbrante beldade.
Ao curvar-se, galante para a boca rosada….
Que triste decepção,

Quase sufocava entre as nuvens de uma espessa fumarada,
E ao olhar se aquilo é donzela ou não
vê surgir na boca um cigarrito brejeiro
e assim já não entendia,
mas voz era tão feminina,
Que o beijo se apressa a julga-la menina,

Mas não...Mas não.... Mas não…
Seria aquela cabeça de mulher ou de rapaz.?
Que triste decepção

Foge o beijo espavorido
e a todos se foi queixar
de um engano desastroso.
E volta ao ponto de partida
a contar , lamurioso
Aquela donzela tão querida
que apenas estava a fumar
e foi um beijo desolado
Ir tocar nas faces de uma donzela
que mais parecia um varão.
Que triste decepção.

Aníbal de Oliveira






segunda-feira, 15 de fevereiro de 2016

A VOZ DA ALMA


Sentado. Ante meus olhos só o mar
Plano e calmo num dia sonolento ;
Não se ouvia sequer gemer o vento
Nem havia gaivotas a voar.
E não sei se acordado se a sonhar
Vogava sem destino o pensamento
Por mundos onde tudo é movimento,
Sem ponto que me possa nortear.
Voltei da minha ausência; e já desperto
Batida pela aragem,ali bem perto,
Baloiçava uma rosa num jardim.
E ao perguntar se aquela dança em cor
Era estranha mensagem, disse a flor:
"Aquela que desejas ver em mim"...


Julio Corredeira

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2016

MANUAL DE ESCULTURA

na robustez da pedra
aponta
o cinzel que modela
a face oculta

a que tem a substância
da doação
de nítida religiosidade
na sombra do sol

a ferramenta
prepara a pedra
a rugosidade do corpo

envelhece-o
na solidez permanente
do pó


José Félix

domingo, 31 de janeiro de 2016

RETROSPECTIVA

Portugal houve um tempo em que 
dei-te tudo, na minha juventude
um pouco quase fatal do meu sangue 
em África, as candeias da noite 
estiveram com esse sangue a iluminar 
a escuridão, dei-te tudo 
Portugal, e agora não sou nada.
Os cofres estão cheios, alguns
que nunca souberam o que era uma guerra
dizem-no, Portugal, mas eu como tantos
não sou nada. Como diria o Allen
Ginsberg. Vai-te lixar
com os teus merceeiros enriquecidos.

23-03-2015
© João Tomaz Parreira

terça-feira, 26 de janeiro de 2016

SONHO SEM TEMPO

Horas da noite!
desgarrada a fantasia
voei para mundo hoje imaginário.
senti-me só,
homem solitário
imerso em profunda e suave nostalgia.
talvez, uma floresta onde aportei certo dia,
guiado pela oculta mão do meu fadário,
porque ali nem relógio do tempo existia.
mas foi um sonho com forma e também imagem,
terra, onde todos vós foram miragem,
símbolos subtis da minha soledade!...
passados muitos anos, ao certo, nem eu sei...
mas quando a luz entrou no quarto e acordei,
senti dentro de mim mil abraços de saudade!...

JCorredeira
Foto do saudoso Gido Ferreira

domingo, 17 de janeiro de 2016

SE EU PUDESSE ESCOLHER


Se eu pudesse escolher o sitio onde algum dia
Dormindo o meu corpo inanimado há-de ficar
Não era o cemitério, o chão banal que é dado,
Aos que da vida se vão despedindo

Acho que de um cipreste, a sombra é muito esguia…
Que um olmeiro, dos que vejo,
é muito mais copado…
Que um túmulo
de pedra esmaga de pesado,

Mas há uma terra que eu sei, que mais leve me seria.

Se em vez de descansar o meu corpo frio em Campo Santo
Pudesse ter descanso á sombra conhecida,
Das árvores que amei e do cheiro que conheci!...
Desde pequenino…..
Eu sei o que escolheria
Se a terra que pisei me fosse concedida para dormir em paz….
Como eu gostaria…
De ter assim na morte o  que achei de bom na vida.

Aníbal de Oliveira



domingo, 10 de janeiro de 2016

A ACUSAÇÃO


Alguém deve ter espreitado a intimidade
Da mulher. Por isso a trouxeram. Há pouco
As mãos estavam prontas
Para o frio das pedras. Agora todas
As palavras morrem, os olhos
Seguem de perto o lirismo do mistério
Que é escrever no chão.
Afinal quem eram? A farsa da justiça?
E pensar que depois disto, vão para suas casas
Para junto da família, beijar
A mãe, a mulher, os filhos, com uma
Consciência que só condena os outros.
- Depois de ouvirem quem atira a pedra, a primeira
A pedra inicial, não há entre todos um homem
Sem pecado que a atire.


19-08-2015
© João Tomaz Parreira

segunda-feira, 4 de janeiro de 2016

AO CAZOMBO ( uma paixão)


A todos os camaradas que por lá passaram.

Cada lembrança ,
é lágrima de saudade
que dorme nos ventos da solidão.
tempo que parou sem se deter,
hoje cinzento, a cor da verdade
memória em lapidação.
retrato tatuado,
mente em festa por te rever.
cada momento sonhado,
uma realidade,
que o tempo não deixa morrer!
o longe, no peito gravado,
asas de amizade vestidas,
horas a perpetuar vidas!...
sanzala a dormir e serena
som idílico, Zambeze a sorrir
Cazombo, feitiço em voz Luena.
Júlio Corredeira

segunda-feira, 28 de dezembro de 2015

MAIS UM ANO


Um ano mais!...uma vida!...
Mais uma ilusão perdida,
Mais desenganos; enfim!
Novo ano, nova esperança,
Aspirações de criança.
É sempre assim, é sempre assim!...

Ódios, invejas, para quê?
Se tudo quanto se vê,
Não passa de uma quimera,
Se todos somos irmãos,
Porque não darmos as mãos
Sem instintos de feras.

Novo Ano, Nova Vida
renasce a esperança perdida
em dias de felicidade.
Ela se encontra onde quer
fazendo o bem que puder,
Com amor e caridade

Neste viver, terra a terra
tudo quanto o mundo encerra
não satisfaz a ambição.
Somos uns pobres pedintes
Cheios de mútuos molestares
A viver sem coração

Vem um dia, e depois dias
que são as Avé- Marias
de rosário sem fim;
Hoje aurora florescente,
logo depois, sol poente
É sempre assim…
sempre assim será.


Aníbal de Oliveira

segunda-feira, 21 de dezembro de 2015

POEMA DE NATAL NO GUETO


As barbas do pai Aarão não poderiam
destilar os óleos do bálsamo antigo. Nas bocas
já não cabiam salmos, nem gritos, o silêncio
era um tesouro contido, no gueto de Varsóvia.

No início ainda dobravam o azul
dos lençóis, faziam contas ao zloty
guardado sob as ripas do soalho.
Passavam pelas ruas porque havia
sempre alguém a vender alguma coisa
sem o brilho do passado, quando se podia
abrir a janela e cantar para a rua e
desenrolar os rolos da Torah em alta voz.

Não há uma estrela de natal, fria
com filamentos de lume por dentro, ninguém
festeja em torno de um presépio, outra metáfora
alimenta a fé, a Hanukkah, as luzes
e as sombras, caem em silêncio
pelas faces dos judeus.

© João Tomaz Parreira

EVOCANDO BELÉM


Uma vez mais, festeja-se o Natal
Num mundo tão distante de Belém,
Onde ainda tão poucos são alguém 
E onde entre gargalhadas passa o mal.

Onde está esse amor universal
-Inestimável e fecundo bem-
Sempre a unir sem excluir ninguém,
Onde nunca haverá um marginal?

Eu sei que o meu desejo é utopia!
É que a dor,a miséria e a agonia
Hão-de sempre existir na humanidade.

Quando será, porém,frontal clamor
Contra o egoísmo, a guerra,o desamor
Dos homens a viver em sociedade?!...

J.Corredeira

domingo, 13 de dezembro de 2015

O QUINTAL...


Falava-me daquelas flores à chegada.
No afago do abraço, luzia radiante, porque sempre fui seu.
Dos olhos espalhava a ternura que semeou no ventre.
Exibia orgulhosa os lírios amarelos,
contava-me dos malmequeres brancos,
dos amores perfeitos, dos cravos,
da saudosa buganvília,
que o tempo frio queimou.
O quintal era simplesmente uma flor.
O verão vestia-se de festa
naquela rua.
Agosto queimava a saudade,
Bragança era vida que na ausência,vivia dentro de nós.
Foi ontem que abri a porta para além do hoje!
O efémero não cabe na rua da memória!
JCorredeira

domingo, 6 de dezembro de 2015

A DANÇA DE SALOMÉ


A noite na cúpula do palácio, a música
que se arrasta nas paredes, o coração de Salomé
como uma rocha, por dentro duríssimo
com um corpo a dançar sem transparências
Os braços, a que só faltam
as chamas de fogueira, cruzando-se no ar
As pernas ágeis e mortais
e os olhos de Antipas, esquecidos do reino
cada vez mais presos ao abismo
sem poderem reagir ao incêndio da paixão.
13-08-2015
© J.T.Parreira
(Maurycy Gottlieb, Salome's Dance, 1879)

domingo, 29 de novembro de 2015

VIVER


Dia de Outono, tépido e dourado,
Vai agora sereno declinando
e é já quase no fim.
Ali no monte, alguém trabalha, e tem companheira.
Vergam o vime em murmúrio brando
em que há o prazer, é divino
entre essas mãos que os entrelaçam,
E que tremem de enlevo e de ternura
e que se tocam e
vão formar um berço pequenino…
Suave a tarde desce,
o perfume do campo suaviza-se
e na paz envolvente que emana
de tudo o que os rodeia,
parece haver doçura quase humana
que os penetra e enleia e
vejo  sorriso nos seus olhos,
E são felizes…da felicidade
daquela felicidade tão dificil
Dos que sofreram, dos que não conhecem a dor,
Nem a saudade
e ri ligeira, sem dar peso à vida.

Aníbal de Oliveira


segunda-feira, 23 de novembro de 2015

quarta-feira, 18 de novembro de 2015

POEMA


Chegou o amor aos olhos, as lentes
da máquina silenciam-no, a lágrima
entre o olhar e o olho da Canon
Não.
As crianças não sabiam que são o reino dos céus.
E brincavam descalças como os anjos,
a levantar o pó da alegria
mesmos estas, pobres perpétuos.
Mas não brincavam em becos,
porém onde o vento, a perder de vista,
se estendia.


22-05-2015
© João Tomaz Parreira

(Fotografia do autor, 1969, numa das sanzalas de HC )

domingo, 27 de setembro de 2015

UM SONHO


Sonhei-me a voar,
firmamento...
projecto sem destino certo,
luz da alma em rebuliço
tal qual o pensamento,
da gravidade liberto.
espaço como outrora,
entro em nuvens de linho,
não passou o tempo!...
revejo agora,
azul celeste a recordar
"horizontes de memória",
ondas de montes
no olhar.
vi-me a correr
célere como o vento.
das estrelas fiquei perto,
celebro o cometimento.
acordado entro a decifrar
linguagem estranha.
voo onírico,
abraçar.
esforço inconsciente,
alegria subjacente,
voltar de novo
a voar!!!


JCorredeira

domingo, 20 de setembro de 2015

OS SEM PAPÉIS


Poema escrito em 31/12/2006, quando ainda não se pensava em tragédia

Viajam com as cabeças de fora
cortam a espuma
do vento nas ondas
cortam o rosto com sal
viajam com o corpo
uns dos outros
movem-se
nos olhos
uns dos outros
não perguntes
de onde
vêm
vêm
em direcção a ti-
terra
vêm
como
Ninguém


© João Tomaz Parreira
(Foto da imprensa)

domingo, 13 de setembro de 2015

O SONHO VIVIDO


Asas soltas no espaço, as alturas buscando
És o homem do leme,
o companheiro em quem confio
que vai fazer uma subida brusca.
Grande, no teu desprezo ao mundo miserado
Os píncaros do azul garbosamente buscas.
Voa, corta no céu um rasgo de aventura,
A infinita amplidão daquilo que buscas
Vai subindo, subindo… e nem vaciles quando,
O sol reluzindo, o teu olhar ofusca.

Voa, sobe …e sobe sempre…
E sempre mais alto…e altivo
nem que te percas no alto…

Olímpico, viril sem ter sobressalto,
No supremo desdém, de quem morre sorrindo.
Condutor do Sonho,… do teu …do meu…
Que contigo também vivi esse amor…
Voa, sobe …e sobe sempre…
E sempre mais alto…
Audaz, querendo ter a glória
Subir, subir sempre…
Ascender em busca da tua vitória….
Voar, subir, subir mais, e mesmo assim…
Morrer subindo!...
O céu é o lar, o nosso porto de abrigo!...

Aníbal de Oliveira



domingo, 6 de setembro de 2015

domingo, 30 de agosto de 2015

PRECE DE UMA CRIANÇA E UM CRAVO

São milhões de crianças inocentes 
Vítimas de selvagens assassinos,
Pelas quais nem sequer dobram os sinos,
Ecoando os seus ais tristes, dolentes.
Quais pétalas de rosas sorridentes
Que balouçam nos caules tão franzinos,
Sorrindo à vida em suaves, belos hinos,
Morrem às mãos de bárbaros dementes.
E olhando, horrorizado, os lugentes caudais
De seres indefesos em mãos de chacais
Eu te peço, Senhor na minha inocência;
Transforma cada um em autêntico irmão,
Chamando-os ao amor em mente e coração
E lança sobre nós teu olhar de clemência!...
Júlio Corredeira

Ao cravo
Roubaram-lhe o amor,
Roubaram-lhe o chão,
Roubaram-lhe a cor,
Com a palma da mão!