quarta-feira, 17 de maio de 2017

" J. CRISTO "


Jesus Cristo, Jesus Cristo, Jesus Cristo,
Tira-me daqui !

Jesus Cristo, Jesus Cristo, Jesus Cristo,
Que eu estou farto disto!

Olho pró céu e vejo aquele "NORD" que vai passando
Olho pra'quele e conto há quantos meses já está lerpando.
Com esta guerra crua ele vão retendo o pobre rapaz
Com esta guerra que afinal não passa de podre paz.

Jesus Cristo, Jesus Cristo, Jesus Cristo,
Tira-me daqui !

Jesus Cristo, Jesus Cristo, Jesus Cristo,
Que eu estou farto disto!

Pensando assim não sei para onde é que este mundo vai
Com tanto ódio e guerra a esperança deste mundo se esvai.
Dizem que és justo e santo e que usas de bondade fervente
Por isso te imploramos que ajudes sempre esta pobre gente.

Jesus Cristo, Jesus Cristo, Jesus Cristo,
Tira-me daqui !

Jesus Cristo, Jesus Cristo, Jesus Cristo,
Que eu estou farto disto!

Gente que sofre por da sua Terra-Mãe se encontrar distante
Gente que luta e na sua juventude está confiante.
E se eu estou aqui eu quero saber qual a razão
Eu te peço Jesus que respondas à minha oração.

Jesus Cristo, Jesus Cristo, Jesus Cristo,
Tira-me daqui !

Jesus Cristo, Jesus Cristo, Jesus Cristo,
Que eu estou farto disto!


Nota: Esta canção, letra de Manuel Bexiga, seria por ele cantada com música homóloga de Roberto Carlos, na festa "Cacimbo-71", mas foi censurada pelo comando e retirada... por subversão !



domingo, 14 de maio de 2017

FADO DO ESPECIALISTA





Onde está o nosso cabo
Esse bravo do passado
Da heróica aviação.
Que até com o fato emprestado
Parecia homem honrado

Mas no bolso sem tostão.
São Cabos Especialistas,
Mecânicos electricistas
Ou Técnicos de avião.

Das boleias nas estradas
Às noitadas bem passadas
São tempos que já lá vão.

E entre os controladores
Operadores, aviadores
Do pifão e coboiada.

Por causa de um avião
Há confusão discussão
Resolvida à bofetada.

Onde está o nosso cabo
Esse bravo do passado
Da heróica aviação.
Que até com fato emprestado
Parecia Homem honrado
Mas no bolso sem tostão.

Autor desconhecido

domingo, 7 de maio de 2017

O POEMA QUE SIGNIFICA A MÃE


Apagou-se essa luz. Podem vir agora
todas as línguas mais tristes dos homens
e dos anjos pianos celestes que são
a sua própria voz, a música
de metal dos sinos que indicam
o caminho na clara noite dos templos.
Nada será igual. Todos os dias
já não são os mesmos
depois que essa luz se apagou. Os olhos
da Mãe já não se iluminam com as lágrimas
como é costume das mães que olham
para os seus recém nascidos.

07-05-2017
© João Tomaz Parreira

domingo, 30 de abril de 2017

RESSONÂNCIAS !


Cansei!
Da alma, fugiu-me a paciência
De ouvir da voz, a opinião.
Esvaziei a mente da sabedoria,
Atulhada de sapiência vã.
Meus olhos só vêm demência,
Palavras em repetição.
Gasta-se a língua em teoria,
Ontem, hoje, igual amanhã.
"Passaritos" chilreando no ar,
Em bandos despidos.
Dinossauros, juízes do saber,
Verdades sem razão.
Solução, falar por falar,
Fulgores de substância feridos.
Criatividade, por querer ser,
Do pensador, a negação.
Esgotei!
"Santa paciência",imperícia,
Fazedor, de alheios a opinião?
Renego beber tal ciência,
"Saturei"!...
Comer, por comer...isso NÃO!!!
--------------//----------------
Na essência como arte, um poeta nunca será um pasteleiro. Na arte como essência, um pasteleiro pode bem ser um poeta.
Na pretensão sem "identidade", um "postador"de Wikipedia nunca será nem uma coisa nem outra...
JCorredeira

segunda-feira, 17 de abril de 2017

GLOSA PARA A PAIXÃO SOBRE UM PRANTO DE LORCA



Às três da tarde
Eram as três rasgando a tarde
Quando os grupos desolaram
O silêncio das esquinas
À hora nona
Num relógio prevenido
As pedras sentiram-se
Como vento
Eram as três em ponto dessa tarde
Que até no coração das aves
Se sentiram
Eram as três em ponto
Nas horas dessa tarde
Já um lençol abria
O linho para a morte
E recolhia o sol
O seu cristal do dia
Eram as três em ferida
Dessa tarde
Já começavam nos olhos das mulheres
Os incensos da vigília
A morte começava
Às três da tarde
Quando o véu rasgou o templo
Com muito ouro e púrpura
Eram as primeiras três
Em ponto dessa tarde
Eram as sombras em todos os relógios
Quando um flanco se cravava
Com carmesim e água.

© João Tomaz Parreira

domingo, 9 de abril de 2017

ELEGIA DE MARÇO-UMA DEDICATÓRIA IMPOSSÍVEL


sento-me à mesa de um café a esculpir palavras
donde sai a poeira que polvilha o pó
nos dias vadios à espera que as margens dos rios
se tornem férteis fartos de pão e pássaros.
uma mesa nua de água límpida no sabor
da língua à míngua de gestos gastos gritos
nas horas pendulares. a vida o pêndulo
o pedúnculo de uma flor cortada no conto de um segundo.
há o sorriso das flores raras
mulheres jovens de carne lisa e desejo a brincar
com o espelho dos olhos com o reflexo lasso
de um poeta sentado à mesa de um café.
travo amargo sem o açúcar de circunstância
o café mal medido comedido
à espera que o pó das palavras se transforme
conforme o previsto.
um poeta tem a beleza de um cacto
simples e cheio de espinhos um estio
desenhado num jardim de inverno um inferno
no éden sémen púbere úbere no cedio do desejo
a mesa. o café tardio sem a surpresa da queda da palavra
o suporte a solidão longe heart with no companion de choen
«para o coração sem companhia para a alma sem um rei para a prima
ballerina que não dança com ninguém».
sou no passo apressado do caminhante o viajeiro errante
à mesa de um café.
decai a tarde no esplendor das folhas
os espelhos das sombras dos pardais perdidos
na luminosidade límpida dos olhos
uma tarde sem nome pronome que arde
sem tempo na ombreira sombria
das sombras diluídas nos olhos dos pássaros
das sombras luídas nas asas dos pássaros
das sombras caídas nas folhas das árvores
do estorvo da luz que zela a sombra
de um pássaro que poisa a brisa no ombro
que mealha as migalhas de searas cumpridas
um café na poesia da tarde oblíqua
na páscoa das palavras remidas. o pecado de um verbo
renasce a face de um fogo uma chama
e todo o tempo que dure essa chama
mas é sempre uma chama que talvez eu penso
incendeie as palavras na babel mesmo assim
que faça o papel a folha a página da árvore
dar a vida na dádiva do incêndio o incenso
da alma que acalma a voz a foz de um grito.
o mês de março tenho-o preso
nas flores murchas mais cedo cedidas
à tempestade dos olhos o reflexo dos espelhos
que toldam a secura dos jardins de promessas.
talvez houvesse que plantar mais dores
nos partos da memória mais sombria como dardos atirados
no escuro sabendo de antemão que os alvos
luzem ao silvo das setas iluminadas.
o mês de março já não é o que antes foi
e também não é o que agora soi
dizer uma explosão de esperança.
uma criança só uma criança pode ter a
palavra com que se cava a terra
e deixar as sementes nas veias do ovo
para que dê uma florescência
provinda da inocência de uma fala
sem a mancha que cala os anjos brancos
nas missas rituais da remissão.
é por isso que vou construindo um
poema no mês de março tardio
vadio de tardes verdes na certeza
de que as giestas amadurecidas
mesmo sem van gohg mesmo sem girassóis
mas com o absinto da cor da agonia.
que importa se os amantes se beijam como antes
no fim do mês de março um traço de primavera
eles plantam canções de florir flores
de promessas cravadas de desejo
nas mãos nas ancas a subentender o sexo
no amplexo suspenso no fio de sol.
vou ter contigo amélia aliada porque
não precisas de mim nem eu de ti tenho precisão
és a parte completa mais completa
de mim onde anuncio as primaveras e
no fio das quimeras planto jardins de margaridas
e flores raras saram a terra aromada
de dádivas nas águas iguais de
na chuva permanente permanecermos rio e foz
duma nascente única corrente.
o mês de março mês que só de marte
tem o nome é tão subjectivo
apesar da explosão de pétalas fogo de cores afago de cheiros.
março é o mês do mar mês de amar
antes de abril abrir completamente as árvores
ao sabor vário das águas jorradas
amanhã é abril. sei que o sol vem
vasto na laminada luminosidade o gume dos dias os gomos
saboreados como franjas de laranjas novembrinas.
resta-me um março que me foge no resto de março
a simples tarde que separa a margem
de outra margem mais longa que prolonga
declina no crepúsculo anoitecido


josé félix

domingo, 2 de abril de 2017

TÁS D´BALADA COMPANHEIRO!



Vais embora amigo,
Mais de meio século a servir Portugal!
Nos céus de Tancos,
De Montijo e Bissalanca.
De Luanda às terras do Moxico,
De Tete, Nampula e Mueda,
Atá para lá de Timor.
Andamos juntos por todos esses sítios!
Quantas saudades nos deixas?
Passeaste a tua beleza,
Mostraste o teu poder,
Nas Portuguesas terras.
Grande e generoso amigo que foste!
Suportaste tudo!
O guincho, a carga suspensa,
Flutuadores de emergência,
Pantufas,IFR,foguetes,
«Lobo mau» lembras-te?
A Savana africana?
Os soldados em«AVP1» chamando a «Mosca»
Precisavam de ti, do correio,
Da comida, da evacuação,
Quiçá do «Lobo Mau».
Lembras-te velha «cotovia»?
Passei mais de trinta anos na tua companhia!
Em terra no mar ou no ar,
Contigo!
Conheço milimetricamente,
Todos os circuitos do teu corpo!
Ainda não foste e já tenho saudades.
Também eu estou a esgotar o potencial!
É a frota em fim de ciclo!
Até sempre companheiro,


Luis Faria Costa

domingo, 19 de março de 2017

RETRATO


Estão em silêncio,
como o silêncio pode ser,
habitado por rostos. Tinham nomes e eu
jamais soube nenhum,
porque assim não há saudade,
é menos sentida a morte, um nome dói.
Estes, tinham nomes como tinham dores
tinham uma terra, como tinham dores
como tinham sonhos.

28-06-2016
© João Tomaz Parreira
(Foto minha, 1969, Angola)

domingo, 12 de março de 2017

MENINA BRANCA


Onde ficam as estrelas
E quem é que olha por elas!
Quem acende estrelas à noite
Quando a gente vê
Toda a alma apaixonante
Desse interminável céu imaculado?
Mas que anjo branco me terá levado
A olhar o firmamento quando o firmamento é
O longe próximo de quem distante
Vive nos meus olhos
Nas dobras de real manto da terra
Onde nasceu?!
Que estranho milagre produz nas plácidas noites na montanha
Essas maravilhosas tintas que na Primavera
Tocam as flores?!
...Essas flores aos cachões, perfumadas,
Brancas, amarelas,de mil cores,
Límpidos canteiros sem par, flores vivas, irmãs gémeas do luar!
JCorredeira

sábado, 4 de março de 2017

O LUGAR ONDE 2


o local da memória
perdeu o lugar
a sensibilidade dos dedos
quando a libelinha poisa
na folha da cameleira
vieste aqui
para olhar a água
simplesmente olhar o espelho
que muda o rosto
no mais curto assobio de vento
e neste lugar
presencias o canto das asas
na ordem mais perfeita das coisas
sem caos

a pele de repente vazia
apodrece
ao lado das pedras.

in O Lugar Onde

José Félix

sábado, 25 de fevereiro de 2017

POEMA Nº. 2

Poema manuscrito a esferográfica e marcado com o nº 2, inicialmente, em 1969, Leste de Angola
" trazes-me um lírio verde
na mão
agarrado pelo bico
- que verdade
não queres
que ele grite
que asa
não queres
que palpite
trazes-me sempre um lírio
verde
tão verde de(a) sufocação
bem preso
inexplicavelmente preso
em tua mão "

© João Tomaz Parreira

sábado, 14 de janeiro de 2017

O POETASTRO E O POETA

Hoje, a intenção é tirar-vos um sorriso. Humildemente, este aspirante a poeta!
(Aos momentos que me fizeram rir)
O POETASTRO E O POETA
Num dia de verão, passeava o poeta João de Deus,
Numa avenida de Lisboa .
Das árvores frondosas na ramada
Chilreava muito alegre a passarada.
Vai se não quando pára junto dele um moço ,
Não muito alto , mas bastante grosso.
Desculpe! O senhor
É o grande poeta ,
O poeta espontâneo e popular?
E pergunta o mavioso vate a sorrir .
Em que posso servir?
E o rapaz: Eu gostava de saber
A sua opinião
Sobre o meu livro de poesia que escrevi!
Certo, mas deixe-mo primeiro ler, disse o poeta.
Porém , enquanto lia, muito atento,
Cai sobre o livro dum pardal o excremento!
Chegado ao fim, entrega o livro ao poetastro.
E este, curioso, pergunta: Então que tal?
Qual a sua opinião ?
E o poeta sorrindo : a do pardal!...
J.C.

sábado, 7 de janeiro de 2017

VAGABUNDAGEM

Do livro Vagabundagem(um tributo ao poeta chinês Han Shan)

Desenho silêncios 
nas folhas em combustão
Os braços são como ramos de carvalho
presos no vento
Como posso regressar à terra
com outra escritura?
A água da chuva limpa-me
a língua na ira das palavras.

José Félix

sábado, 24 de dezembro de 2016

NOITE DE NATAL


A minha singela homenagem ao Natal da esperança!

NOITE DE NATAL

Só! Absolutamente só, à mesa.
Parentes e amigos tão dispersos,
Levados por destinos bem diversos ,
Comungam na alegria e na tristeza.

A noite fria, de chuvisco e vento,
Escuta, no silêncio, as orações
E o eco longínquo de canções
A evocar de Cristo o nascimento.

Mas na tela da minha fantasia,
Vejo agora, em minha companhia ,
Os amigos distantes e os parentes.

E contemplo também esse caudal
De tantos para os quais não há Natal
Sobretudo famintos e doentes!...


J.C.

domingo, 18 de dezembro de 2016

O ADVENTO


Houve Dezembros que deveriam ter
ficado pelo meio, sem dias 25, nem preces
de Advento no século passado. O Natal
não combina com Auschwitz-Birkenau.
Poucos procuravam Deus nas campinas
de Auschwitz, quando os cordeiros seguiam
para os fornos e a noite de Natal tombava
como cinza sobre arame farpado
e a neve nos pinheiros
tinha maior peso específico que as luzes.
Houve Dezembros em que Jesus
não nascia ou se nascia
ficava ao colo dos irmãos a esperar nada.

10-12-2016
© João Tomaz Parreira

domingo, 11 de dezembro de 2016

IMBRÓGLIO


Este "país"azarado,
defunto da incompetência,
mata a fome,
com futebol e fado.
respira saúde na aparência!
Este "país" azarado,
onde a felicidade é dor,
tem um caso...
vitória de um derrotado,
derrota de um vencedor!

J.C.

domingo, 4 de dezembro de 2016

À SOMBRA DOS CAVALOS


nasci há 4.500 anos em almendres
e no cobre do tempo temperei
o vaso e a espada, que desenhei
para defender dos inimigos o meu clã.
orávamos palavras incompreensíveis
para o rumor das árvores em dias
de ventania. risquei sóis e bucrânios
com litos do xamã ouvindo cantos
de zambujeiro, fúnebres, iguais
à fala para a morte de um imberbe.
na paciência dos dias tive a mulher
que me coube pelo poder do braço
até que um homem novo ma tirou
e senhor do poder de ler os sinais
incendiou o meu coração.
quando fui para longe
recolhi-me na gruta do escoural
e adormeci à sombra dos cavalos.
josé félix

domingo, 27 de novembro de 2016

UM FILHO É A PRIMEIRA COISA


“Vuela niño en la doble / luna del pecho”
Miguel Hernandez
Um filho é a primeira coisa que as mães descobrem
Abrem-se para um corpo frágil
Que sai entre colunas
Dão ao mundo como uma dádiva bendita
Do ventre
Entre os homens não há nada igual
Um amor tão chorado de alegria.
16-06-2016
© João Tomaz Parreira
(Arte: Margarita Sikorskaia, 1968, Rússia)

domingo, 20 de novembro de 2016

RECORDAR...E...VIVER...AB4


Angola Terra Linda!
Como é bom relembrar!...
Os tempos vão passando,
E vós hoje a recordar…
Outrora eram belos jovens,
Hoje já se vão, até queixando…
Partiram com a Força Aérea….
Quis o destino encontrá-los,
Em África esvoaçando…
Naquela terra vermelha e quente,
Lutando pela Pátria!
Momentos tristes,
Horas amargas…
Essas que hoje recordam!!!
Foram fiéis ao chamamento,
Numa luta desigual…
Juraram e lutaram por um ideal!
Defenderam sem igual.
Contavam as horas…
Contavam os dias…
Choravam e riam!!!
O tempo ia passando,
Entregues ao destino!!!
Nasceram aflições.
Ajudaram multidões…
Perderam aviões…
Pobres homens!!!
Mas…
Dia a pós dia…
A vossa coragem nascia!
A vossa esperança surgia!
As famílias esperavam…
As famílias rezavam…
Infindáveis promessas…
No ar havia fé!!!
Quis o destino deixar-vos voltar…                                
Eis que chegaram…
O sol não vos deixou!
O sol vos encaminhou! 
Risos e alegrias as famílias partilharam…
E…
Em cada ponto do País,
A vossa vida se foi construindo!
Mas…
Não esqueceram os colegas!
A amizade perdurou…
E ano após ano,
O sol vos reencontra…
Adoram brindar e contar…
Foram momentos inesquecíveis,
Vividos por todos vós…
É bom sentir,
É bom relembrar,
Aquela terra Linda,
Que vos deixou regressar!!!
Para todos vós,
Eu e o Chambel desejamos….
Mil felicidades sem par!!!
Com muito carinho e amizade …






Maria do Rosário Chambel
  -----Em Argomil-----
Encontro de 12/11/2016             

sábado, 12 de novembro de 2016

SEMPRE NO ESPLENDOR DO JASMIM


Se vires uma violeta caída, repõe-na na humildade do seu canteiro.
A natureza fê-la humilde, para ensinar que o amor não se ufana, mas é o elo verdadeiro,
É o perfume que liga as flores e nunca nos engana!

O rouxinol é a voz dos poetas pelos soutos dispersa;
Em melodias inacabadas como a eternidade!
Vai escutá-lo, quando puderes , na qualidade e esplendor duma aurora insubmersa.
De predicados novos para flores novas...
-Fala-lhe porque podes falar à vontade
Com um rouxinol, o mais poético mensageiro da vida
O mais vivo ser-vivo que se desfaz em trovas
Pela penumbra amanhecida.

JCorredeira.

domingo, 6 de novembro de 2016

CANÇÃO PARA AMÉLIA


Chopin - Prelúdio op. 28 Nº24 - canção para amélia
tem doçura a doce amélia
que no nome pronuncia
o corpo de favos cheio
brotando mel e alegria

na folha da tua face
vai a minha mão menina
que de um modo tão rapace
de um animal no enlace
solta-se a voz na neblina;
os teus olhos na floreira
são dois botões de camélia
estão ali a vida inteira
como o cacho na videira
tem doçura a doce amélia
na serena idade e grave
plantas um beijo nos lábios
que nem a brisa se atreve
secar um ósculo breve
como disseram os sábios.
pois só assim eu nomeio
a fala que se anuncia
e se me perco no enleio
deixo todo o meu anseio
que no nome pronuncia
de ti bebo a fina água
fonte de todo o início
em ti aqueço a minha frágua
deixando as mágoas à míngua
encher-me de ti é vício.
saboreio-te na gula
és o meu pão, meu recheio
o cereal que tremula
de gesto em gesto se anula
o corpo de favos cheio
no jardim da primavera
és uma flor solitária
prima ballerina vera
sobrevindo da quimera
como sempre imaginária.
do pólen me alimento
e toda a flora anuncia;
és para a ferida unguento
a colmeia do acalento
brotando mel e alegria

josé félix

domingo, 30 de outubro de 2016

CAVEM MAIS FUNDO


“Ele grita cavem mais fundo no reino da terra”
Paul Celan (in Fuga da Morte)
Por que será que eles cavam e cavam
Enterram as pás mais fundo na terra
As pás com os seus fios rombos de navalha
Vão encurtando as horas da vida, eles sabem
O que os olhos já viram, mas agora os seus olhos
Não acompanham as mãos
Sob as ordens como pedras, a voz diz
Cavem mais fundo para o reino dos céus.
18-05-2016
© João Tomaz Parreira

domingo, 23 de outubro de 2016

RAZÃO

Razão,a excelente faculdade,
Que penetra no âmago do ser,
Cuja essência procura entrever
E distinguir o erro da verdade.

É também um farol, luz rutilante
Que rasga a cerração da noite escura
Tornando a rota clara e mais segura
Ao homem, esse inquieto navegante.

Mas na sua vida em permanente luta,
Quanta vez ele desvia sua conduta
Dos caminhos traçados p'la razão!

É que o homem é mais que pensamento;
É afectividade , é sentimento,
É amor puro e é também paixão...
JC

domingo, 16 de outubro de 2016

TODOS OS DIAS O CARTEIRO

todos os dias o carteiro traza depressão que lhe convém. depoisevade-se no elevador do prédioe tira à pressa, da camisa branca,os comprimidos que carregam sonhosou os desfazem, dependendo doponto de vista de cada um. Ulissesanda perdido na cidade, e Atenaconhecedora e sábia dos oráculos,demorará o tempo necessáriopara que algum dos deuses se convençae leve o velho marinheiro a Ítaca;só quando a face da mulher que esperanão for sequer o espelho da partida.

josé félix

domingo, 9 de outubro de 2016

CASA DA CAOTINHA

BENGUELA, TERRA DAS RUBRAS ACÁCIAS


Do alto da rochosa casa a pensar,
Oiço o doloroso ranger dos remos,
Na sombra do jango ouvindo o mar,
Sinto os barcos gritarem nas águas,
Apetece-me rir e chorar,
Não sei que fazer às mágoas.

Caotinha, 28 de Novembro de 1999
Faria Costa

domingo, 2 de outubro de 2016

O BOMBARDEIRO


“Meditai que isto aconteceu”
Primo Levi
Passei aqui muitos voos de joelhos, orando
Com os olhos atentos ao soberano deus
Morte, com a morte de aço entre os meus dedos 
Na mira dos homens, enquanto nas casas cálidas
Ninguém suspeitava e eu era um anjo 
Com asas de alumínio, os meus ouvidos
Longe das súplicas a dez mil pés de altura
Testemunham do meu lugar de bombardeiro
Cada ribombar do trovão na noite iluminada
Eu sou o fogo nas ruínas, uma alma
A destruir as outras almas.

27-10-2015
© João Tomaz Parreira

sábado, 24 de setembro de 2016

“OS RAPAZES" DO MEU PAÍS


Tinham eles vinte anos
Os amores de tanta gente
Fosse ele um amor qualquer
Havia sempre uma mulher
A chorar constantemente

Tinham eles vinte anos
Os rapazes da minha terra
Com sonhos no peito ardendo
Foram pela Pátria morrendo
Foram mandados para a guerra

Tinham eles vinte anos
Rapazes do meu País
São homens rindo e chorando
Que o silêncio vão suportando
De uma guerra que ninguém quis!

Têm muito mais que vinte anos
Têm muito mais que desenganos
E ninguém sabe quem eles são
Não sabem quantos estilhaços
Lhes corta a alma em pedaços
E lhes magoa o coração


São eles heróis sem escolta
Numa Pátria a apodrecer
E eu só quero gritar a revolta
Daqueles que nem querem saber

E se este canto é em alta voz
Foi porque deus assim quis
Que jamais nenhum de nós
Esqueça os “rapazes” do meu País


De:
Loureiro, Lurdes (2005/2006), O bate estradas, ano 4, nº 28, Dez./ Jan.

domingo, 31 de julho de 2016

VOZES AMIGAS


Ouço as vozes tão perto e tão distantes,
Que me chegam repletas de amizade,
A despertar em mim uma saudade
Cujo pungir eu não sentira antes.

Batem os corações mais anelantes
Que aliviam minha alma em ansiedade,
E suavizam a dura soledade
Em noites preguiçosas, fatigantes.

E pra além da distância no espaço
Acompanha-me sempre o vosso abraço
Referto de calor e simpatia.

Ó amigos, que amo e compreendo!
Também eu, tantas vezes, vos relembro
Em horas de tristeza e alegria.



J.C.

domingo, 17 de julho de 2016

A MOLDURA DE BARRO


toco-te
como se acariciasse
um jarro de cerâmica 
acabado de moldar
com as minhas mãos
criador dos sentidos
deus é pouco
no muito que consigo
nos gestos transitórios
se isto é amor
ou não é, não sei
perco-me no barro morno
e recrio outro modelo
enquanto a água goteja
no colo do jarro.

José Felix

domingo, 10 de julho de 2016

TATUAGENS









Era costume, nas décadas de 60 e 70 do século passado, os militares trazerem da Guerra Colonial, tatuagens; cada um trouxe as que pôde:


Estas são as tatuagens do outro lado, de dentro
Da minha alma.

A ponta da agulha
Substituída pelo aparo, a única fronteira
Entre a palavra e a celeste planície
Da poesia, riscava a pele, no papel
Branco, ouvindo o silêncio das palavras, ainda
Sem nada a declarar, onde tudo começava.

Depois
Guardei todas aqui como raízes da memória.

16-10-2015
© João Tomaz Parreira


domingo, 3 de julho de 2016

AMANHÃ !


Chega a noite triste e mansa
Parte o dia devagar,
Fica uma réstia de esperança
P´ra quando a manhã chegar.
Vêm meninos da rua
Não sabem ter alegria,
Trazem graxa na sacola
Nunca foram à escola
Esperando o novo dia.
Camiões de chapa amolgada
Levando na carga o povo,
Seguem ao longo da estrada
Toda ela esburacada,
Esperando o dia novo.
Chegam do lado do mar
São mulheres de quem as queria,
Sempre a mesma viagem
Trazem filhos na bagagem,
Esperando o novo dia.
Saco cheio de nada,
Na barriga nada de novo,
È o regresso malvado
Desse tempo metralhado,
Esperando o dia novo.
É na esperança do povo
Qual paz tão fugidia,
Que se espera o dia novo
Que se aguarda o novo dia.


Lobito,10 de Maio de 1998
Faria Costa

Costumo escrever com alguma frequência textos sobre desporto, política, tricas do quotidiano, quiçá assuntos de carácter geral. Seguramente que tais textos encontrarão diferenças de opinião, concordâncias e discordâncias.
Hoje para amenizar a leitura, decidi oferecer-vos um «poema”, que escrevi em Angola, Lobito 1998, em plena guerra civil Angolana, quando ali cumpri uma missão no âmbito da Cooperação Técnico-Militar.
Este «poema» mostra a verdade nua e crua que ao tempo se vivia em Angola.
Revela também como era o meu caso, que os militares têm sensibilidade e sentimentos que na maior parte dos casos nada têm a ver com o calibre das munições e o sentido da guerra.
A minha visão de Angola em 1992 era aquela que vos descrevo neste despretensioso «poema».

domingo, 26 de junho de 2016

PERGUNTAS AO TEMPO, POR FREIXO DE ESPADA Á CINTA.


Como tudo me parece diferente!
Onde estão do outrora,essas imagens em que eu via o mundo em sonhos de menino?
A torre, meu castelo de ilusões. O lendário freixo, orgulhoso da sua nobreza. O cronista do Oriente imortalizado em pedestal. A praça salão nobre dos "raparigos". O poeta que me viu "partir chorando". A igreja orgulho de todos nós, filhos da terra manuelina .O rio, esse Douro mágico, que espalha seiva por tudo o que é mundo!
E Vós, Senhora dos Montes Ermos,
quantas mães te prometeram a jorna, pela troca de uma
promessa cumprida?
A tua morada continua na alvura dos anjos?
Lembra-me, Freixo,do trigo das searas arrastado pela brisa suave das manhãs de Junho; da horta da tia Francisca, onde as romãs eram presentes da velha mina!
Onde é sepulto o velho jumento do tio António, que tantas vezes, pelo raiar do dia, me passeava pelo tortuoso caminho do" valduço"?
Onde são as fantásticas miragens, de sonhos esvaídos no passado, que o Penedo Durão pintava no meu pensamento ?
Posso recordar as amendoeiras em flor, que no vale ou monte, transformavam a agreste paisagem?
Ainda vejo junto à fresca e velha fonte, a mítica imagem do lavrador acariciando a terra?
Ali bem perto, a frondosa árvore, lembrava as velhas histórias do tio Branqueja, repassadas na narração, mas sempre com flores novas na minha inocência!
Diz-me, freixo da espada, os sinos ainda tocam às trindades?
Como tudo parece hoje diferente, quando vos analiso à luz fria e neutral do pensamento!


J.C