domingo, 16 de julho de 2017

O LUGAR ONDE



ao lado das pedras
na ternura táctil da noite
é fácil o desejo
o lugar onde se acomoda o corpo
na sombra dos gestos
a voz sussurra
a desvendar caminhos, margens
rio que toca os dedos
a tactear a foz, a emoção
já um segredo
na árvore deste lugar
onde a pedra vive
a carícia da mão



in O Lugar Onde
José Félix

domingo, 9 de julho de 2017

O CÃO DE GIACOMETTI


O cão da melancolia
procura qualquer coisa, põe o faro
paciente no chão
pescoço longo em baixo como uma tristeza
para pendurar as orelhas
O cão de Giacometti vê
as coisas
de barriga para baixo
O cão cabisbaixo, indiferente
às alegorias
flutua na arquitrave
dos seus ossos.
© João Tomaz Parreira

domingo, 2 de julho de 2017

COMPANHEIROS




Eu tenho um livro velho, amarelado
que sabe quase toda a minha vida;
Vibrou comigo em sonho enamorado,
sofreu comigo a chaga dolorida.

Relendo as folhas mortas, com cuidado
componho aquela história já sentida.
e sinto o coração alvoraçado
sofrendo a mesma angústia revivida

Mas o meu livro amarelado, antigo
está já tão velhinho, este meu amigo
que já não quer gravar mais dissabores,
apenas os bons momentos,
que ainda tenho da vida

Já me viu em tantas lágrimas perdidas,
fi-lo seguir comigo tantas vidas
que ele também se cansou de tantas dores.

Aníbal de Oliveira
A.O.


domingo, 25 de junho de 2017

FELICIDADE


Ela tem
A cândida serenidade
Dos eleitos e dos profetas.
No regaço sereno da esperança,
Essa virtude admirável
Que está para a bem- aventurança,
Como o amor para os poetas,
Como o sono para a eternidade,
Ela tem
O despertar de uma princesa,
A felicidade espelhada no olhar,
O sonho para além do firmamento,
O corpo de flor despida,
A candura que desperta o momento,
A fantasia nas palavras do falar,
A chama perene de vela acesa.
Ela tem
Tudo o que uma flor pode dar!
JCorredeira

domingo, 18 de junho de 2017

HOJE!



Saltam salgadas,
Roliças!
De onde virão?
Porque virão?
Não sei adivinhar,
Mas não posso ignorar,
Que vêm do coração.
Porque não param?
Porque me molham a face?
Que terei feito lágrimas salgadas?
Quero pensar,
Não me quero enganar,
Que chegaram molhadas,
Mas enfim, enganadas.

domingo, 11 de junho de 2017

O LUGAR DA POESIA


ao josé antónio gonçalves

eu sei onde vou pôr a minha poesia
vou colocá-la detrás dos buracos das fechaduras
nas frinchas das portas
e nos parapeitos das janelas.
vou vê-la andar por aí a fazer jogging
passeando o cão como se ele fosse
o psicanalista de serviço em domingos assim
imaginados pelo ruy belo
que até o sol do meio-dia agarra a melancolia
num girassol seco de sede e solitário
na carícia de uma papoila rubra
no fim da estação.
eu sei caro amigo que as coisas não são simples
e verei a poesia pendurada nos candeeiros
escondida em papel de prata dos maços de cigarros
ou em papel barato embrulhando
as figuras mais ridículas e rejeitadas
atiradas para o sótão onde o lixo aguarda
o tempo propício para que o index resolva
definitivamente a morte feita de gangrena
raiva ódio desprezo e de um amor
incompreensível que só os ratos
na sua extrema compreensão
terão o entendimento possível
das palavras semeadas a esmo
na lavradura de uma terra infértil
esganada pela ditadura de sacanas
que cortam rente as flores silvestres
a língua com o gosto das amoras
o primeiro sabor de um pêssego
e até a infrutescência de um figo lampo.
há tantos lugares onde se põe a poesia
esquecida nos sofás ou a mexer um copo de gin
nas noites que se pretendem mais escuras
do que as noites mais escuras na imaginação
do pedreiro de um poema feito com tijolo
de sete furos para a construção de uma casa-poema
onde cabe o sol de todo o ano e um riso cristalino
a começar as madrugadas.
eu sei onde vou pôr a minha poesia
no canto dos lábios de vinho de um homem do leste
no rap a passear no rossio ou nos restauradores
nos bares das docas da 24 de julho
e no corpo das putas possíveis que amam
na plenitude a vida como as outras mulheres.
ah com tanto lugar onde pôr a poesia
ainda verei gente como numa procissão de
homossexuais e lésbicas com bandeiras de poemas
e caixas parecidas com as dos bombons
a oferecerem a todos os filhos da puta
a poesia travestida de grandeza
como a humanidade se importasse
com as palavras presas numa garrafa
atirada ao oceano à procura de uma areia
longínqua uma ilha do dia antes
como se fosse uma sombra na imaginação
de um poeta-judeu ou de um judeu-poeta
que é precisamente a mesma coisa.
e como não há outra alternativa
eu sei onde vou pôr a minha poesia.

josé félix

domingo, 4 de junho de 2017

" O VOO DO AMOR "


Somos dois pombos doidos a voar
Pois só sabemos o verbo amar
Somos dois pombos levados neste voo
Por um louco amor que nos fintou.

Voamos esquecidos pelo tempo
Bem longe do mundo e do movimento
São nossas asas nosso louco amor
Voando...

Somos dois pombos doidos a voar
Pois só sabemos o verbo amar
Somos dois pombos levados neste voo
Por um louco amor que nos fintou.

E agora vão seguir-se outros dias
Lembro-me então do tempo em que vivias
Em que vivias sem ninguém para amar
E agora...

Somos dois pombos doidos a voar
Pois só sabemos o verbo amar
Somos dois pombos levados neste voo
Por um louco amor que nos fintou.


domingo, 28 de maio de 2017

FESTA DE DESPEDIDA


21  de Fevereiro, Henrique de Carvalho
Esquadras 401 e 403
Lugar ao sol e trabalho
E de festas de quando em vez.

Como sempre há que dizer
Sem que a maldade nos tussa
E a quem isto fizer doer
Que enfie a carapuça.

E há sempre um primeiro
se me desculpa a discrição
Atenção oh companheiro
Que já não sou Capitão.

Rápido activo, valente
E camarada de sempre
Não há corisco nem trovão
Que lhe possa fazer frente.

Comandante de Esquadra
Dos GEBES e movimentos
Além do Jornal de Parede
Oh terrível sofrimento.

Mas não faz mal camarada
Arrelias não concordo
Porque não há-de ser nada
Quando também for comandante de bordo.

De sorrizinho maroto
(cara 43)
Oh camarada piloto
Sorri, sorri pra nós outra vez.

O "Chuxas" é que o topava
Com a sua voz de trovão
Quando por nós esperava
Já sentado no avião.

E com este, eu acabo
E termino seu sofrimento
Ponha-se a pau, está apanhado
Não pense mais no movimento.

Dos cabelos e das barbas
Dos Clubes e das Infras
E também determinações
E de dar voltas ás tripas.

E é o Grilo que diz
Que do colapso, não escapa
Pois foi o Cristo que não quiz
Que não aterrassem na mata.

Mas numa manhã ardente
Sorrirá pra todos nós
Pois abrirá finalmente
A mina dos PÓPÓS.

Ò amigo vamos nisto
Vai um joguinho aos dados ?
Um gravador? Já viu isto ?
E preços disparatados !!!

Do pipipiri...veterano
Das nocais é batidinho
Oh  Costa mude aí o pano
Não bata mais no ceguinho.

Não puxes ainda pelo lenço
Que ainda não acabei
Quando chegar ao Lourenço
Digo tantas que nem sei.

Afinal, no fim de contas
No fundo és bom rapaz
Além da cabeça tonta
De muito mais és capaz

Mas camarada Capitão
Não fique assim tão contente
Pois ainda tenho na mão
Má língua pra toda a gente.

Você já viram quando
Ele fica bem furioso
Os olhos quase saltando
Vermelho lindo que gozo.

E tu Dinis que és tão alto
De certo que não esqueceste
Das pílulas do pó-de-talco
E dos frasquinhos SNEPS.

E nestas paragens ardentes
Há um gringo malandrão
Vê lá se te arrependes
Se não dás um trambolhão.

Tem cuidado com o pescoço
Se tu ficares cá
Não sou eu que o torço
Olha lá o MPLA.

Ò Guerra a tua esposa ?
Olha bem o que te digo
Quando vais a Teixeira de Sousa
Olha a rapada olha o perigo.

E tu maçarico Oliveira
Que andas tão vermelhinho
Vê lá bem tem maneiras
Vê lá se estás caladinho.

Homem das descobertas
Que já foste ao Samugino
Tens de fazer os alertas
Não te faças de Anjinho.

Oh chanas de todo o Leste
Segurai minha caneta
Oh Lopes tu já fizeste
As contas das cadernetas ?

E tu oh Sebastião
Que sempre foste sisudo
Passa o vinho ó Capitão
Não queiras beber tudo.

Ora esta com franqueza
Olhem bem o maçarico
Com o perdão da mesa
Pareces mesmo um penico.

Não fales pra mim tão grosso
Ò maçarico pia a cantar
Senão levas com o osso
Enquanto não pagas o jantar.

E tu rouxinol que cantas
Que cantar já vai sendo uso
Pois nem a cantar espantas
O castigo que é o Luso.

Henrique oh bom camarada
Mecânico de bom prestígio
De algarvio não tens nada
Pareces mais do Montijo.

E agora vou acabar
Com todas estas cantigas
Pois eu não quero chorar
Na festa das despedidas.

Pra vocês todos um abraço
E pra manter a tradição
Saia o grito do pilotaço
Acção, acção, acção !!!


 Escrito em 21/2/1975 por Alfredo Anacleto dos Santos







quarta-feira, 17 de maio de 2017

" J. CRISTO "


Jesus Cristo, Jesus Cristo, Jesus Cristo,
Tira-me daqui !

Jesus Cristo, Jesus Cristo, Jesus Cristo,
Que eu estou farto disto!

Olho pró céu e vejo aquele "NORD" que vai passando
Olho pra'quele e conto há quantos meses já está lerpando.
Com esta guerra crua ele vão retendo o pobre rapaz
Com esta guerra que afinal não passa de podre paz.

Jesus Cristo, Jesus Cristo, Jesus Cristo,
Tira-me daqui !

Jesus Cristo, Jesus Cristo, Jesus Cristo,
Que eu estou farto disto!

Pensando assim não sei para onde é que este mundo vai
Com tanto ódio e guerra a esperança deste mundo se esvai.
Dizem que és justo e santo e que usas de bondade fervente
Por isso te imploramos que ajudes sempre esta pobre gente.

Jesus Cristo, Jesus Cristo, Jesus Cristo,
Tira-me daqui !

Jesus Cristo, Jesus Cristo, Jesus Cristo,
Que eu estou farto disto!

Gente que sofre por da sua Terra-Mãe se encontrar distante
Gente que luta e na sua juventude está confiante.
E se eu estou aqui eu quero saber qual a razão
Eu te peço Jesus que respondas à minha oração.

Jesus Cristo, Jesus Cristo, Jesus Cristo,
Tira-me daqui !

Jesus Cristo, Jesus Cristo, Jesus Cristo,
Que eu estou farto disto!


Nota: Esta canção, letra de Manuel Bexiga, seria por ele cantada com música homóloga de Roberto Carlos, na festa "Cacimbo-71", mas foi censurada pelo comando e retirada... por subversão !



domingo, 14 de maio de 2017

FADO DO ESPECIALISTA





Onde está o nosso cabo
Esse bravo do passado
Da heróica aviação.
Que até com o fato emprestado
Parecia homem honrado

Mas no bolso sem tostão.
São Cabos Especialistas,
Mecânicos electricistas
Ou Técnicos de avião.

Das boleias nas estradas
Às noitadas bem passadas
São tempos que já lá vão.

E entre os controladores
Operadores, aviadores
Do pifão e coboiada.

Por causa de um avião
Há confusão discussão
Resolvida à bofetada.

Onde está o nosso cabo
Esse bravo do passado
Da heróica aviação.
Que até com fato emprestado
Parecia Homem honrado
Mas no bolso sem tostão.

Autor desconhecido

domingo, 7 de maio de 2017

O POEMA QUE SIGNIFICA A MÃE


Apagou-se essa luz. Podem vir agora
todas as línguas mais tristes dos homens
e dos anjos pianos celestes que são
a sua própria voz, a música
de metal dos sinos que indicam
o caminho na clara noite dos templos.
Nada será igual. Todos os dias
já não são os mesmos
depois que essa luz se apagou. Os olhos
da Mãe já não se iluminam com as lágrimas
como é costume das mães que olham
para os seus recém nascidos.

07-05-2017
© João Tomaz Parreira

domingo, 30 de abril de 2017

RESSONÂNCIAS !


Cansei!
Da alma, fugiu-me a paciência
De ouvir da voz, a opinião.
Esvaziei a mente da sabedoria,
Atulhada de sapiência vã.
Meus olhos só vêm demência,
Palavras em repetição.
Gasta-se a língua em teoria,
Ontem, hoje, igual amanhã.
"Passaritos" chilreando no ar,
Em bandos despidos.
Dinossauros, juízes do saber,
Verdades sem razão.
Solução, falar por falar,
Fulgores de substância feridos.
Criatividade, por querer ser,
Do pensador, a negação.
Esgotei!
"Santa paciência",imperícia,
Fazedor, de alheios a opinião?
Renego beber tal ciência,
"Saturei"!...
Comer, por comer...isso NÃO!!!
--------------//----------------
Na essência como arte, um poeta nunca será um pasteleiro. Na arte como essência, um pasteleiro pode bem ser um poeta.
Na pretensão sem "identidade", um "postador"de Wikipedia nunca será nem uma coisa nem outra...
JCorredeira

segunda-feira, 17 de abril de 2017

GLOSA PARA A PAIXÃO SOBRE UM PRANTO DE LORCA



Às três da tarde
Eram as três rasgando a tarde
Quando os grupos desolaram
O silêncio das esquinas
À hora nona
Num relógio prevenido
As pedras sentiram-se
Como vento
Eram as três em ponto dessa tarde
Que até no coração das aves
Se sentiram
Eram as três em ponto
Nas horas dessa tarde
Já um lençol abria
O linho para a morte
E recolhia o sol
O seu cristal do dia
Eram as três em ferida
Dessa tarde
Já começavam nos olhos das mulheres
Os incensos da vigília
A morte começava
Às três da tarde
Quando o véu rasgou o templo
Com muito ouro e púrpura
Eram as primeiras três
Em ponto dessa tarde
Eram as sombras em todos os relógios
Quando um flanco se cravava
Com carmesim e água.

© João Tomaz Parreira

domingo, 9 de abril de 2017

ELEGIA DE MARÇO-UMA DEDICATÓRIA IMPOSSÍVEL


sento-me à mesa de um café a esculpir palavras
donde sai a poeira que polvilha o pó
nos dias vadios à espera que as margens dos rios
se tornem férteis fartos de pão e pássaros.
uma mesa nua de água límpida no sabor
da língua à míngua de gestos gastos gritos
nas horas pendulares. a vida o pêndulo
o pedúnculo de uma flor cortada no conto de um segundo.
há o sorriso das flores raras
mulheres jovens de carne lisa e desejo a brincar
com o espelho dos olhos com o reflexo lasso
de um poeta sentado à mesa de um café.
travo amargo sem o açúcar de circunstância
o café mal medido comedido
à espera que o pó das palavras se transforme
conforme o previsto.
um poeta tem a beleza de um cacto
simples e cheio de espinhos um estio
desenhado num jardim de inverno um inferno
no éden sémen púbere úbere no cedio do desejo
a mesa. o café tardio sem a surpresa da queda da palavra
o suporte a solidão longe heart with no companion de choen
«para o coração sem companhia para a alma sem um rei para a prima
ballerina que não dança com ninguém».
sou no passo apressado do caminhante o viajeiro errante
à mesa de um café.
decai a tarde no esplendor das folhas
os espelhos das sombras dos pardais perdidos
na luminosidade límpida dos olhos
uma tarde sem nome pronome que arde
sem tempo na ombreira sombria
das sombras diluídas nos olhos dos pássaros
das sombras luídas nas asas dos pássaros
das sombras caídas nas folhas das árvores
do estorvo da luz que zela a sombra
de um pássaro que poisa a brisa no ombro
que mealha as migalhas de searas cumpridas
um café na poesia da tarde oblíqua
na páscoa das palavras remidas. o pecado de um verbo
renasce a face de um fogo uma chama
e todo o tempo que dure essa chama
mas é sempre uma chama que talvez eu penso
incendeie as palavras na babel mesmo assim
que faça o papel a folha a página da árvore
dar a vida na dádiva do incêndio o incenso
da alma que acalma a voz a foz de um grito.
o mês de março tenho-o preso
nas flores murchas mais cedo cedidas
à tempestade dos olhos o reflexo dos espelhos
que toldam a secura dos jardins de promessas.
talvez houvesse que plantar mais dores
nos partos da memória mais sombria como dardos atirados
no escuro sabendo de antemão que os alvos
luzem ao silvo das setas iluminadas.
o mês de março já não é o que antes foi
e também não é o que agora soi
dizer uma explosão de esperança.
uma criança só uma criança pode ter a
palavra com que se cava a terra
e deixar as sementes nas veias do ovo
para que dê uma florescência
provinda da inocência de uma fala
sem a mancha que cala os anjos brancos
nas missas rituais da remissão.
é por isso que vou construindo um
poema no mês de março tardio
vadio de tardes verdes na certeza
de que as giestas amadurecidas
mesmo sem van gohg mesmo sem girassóis
mas com o absinto da cor da agonia.
que importa se os amantes se beijam como antes
no fim do mês de março um traço de primavera
eles plantam canções de florir flores
de promessas cravadas de desejo
nas mãos nas ancas a subentender o sexo
no amplexo suspenso no fio de sol.
vou ter contigo amélia aliada porque
não precisas de mim nem eu de ti tenho precisão
és a parte completa mais completa
de mim onde anuncio as primaveras e
no fio das quimeras planto jardins de margaridas
e flores raras saram a terra aromada
de dádivas nas águas iguais de
na chuva permanente permanecermos rio e foz
duma nascente única corrente.
o mês de março mês que só de marte
tem o nome é tão subjectivo
apesar da explosão de pétalas fogo de cores afago de cheiros.
março é o mês do mar mês de amar
antes de abril abrir completamente as árvores
ao sabor vário das águas jorradas
amanhã é abril. sei que o sol vem
vasto na laminada luminosidade o gume dos dias os gomos
saboreados como franjas de laranjas novembrinas.
resta-me um março que me foge no resto de março
a simples tarde que separa a margem
de outra margem mais longa que prolonga
declina no crepúsculo anoitecido


josé félix

domingo, 2 de abril de 2017

TÁS D´BALADA COMPANHEIRO!



Vais embora amigo,
Mais de meio século a servir Portugal!
Nos céus de Tancos,
De Montijo e Bissalanca.
De Luanda às terras do Moxico,
De Tete, Nampula e Mueda,
Atá para lá de Timor.
Andamos juntos por todos esses sítios!
Quantas saudades nos deixas?
Passeaste a tua beleza,
Mostraste o teu poder,
Nas Portuguesas terras.
Grande e generoso amigo que foste!
Suportaste tudo!
O guincho, a carga suspensa,
Flutuadores de emergência,
Pantufas,IFR,foguetes,
«Lobo mau» lembras-te?
A Savana africana?
Os soldados em«AVP1» chamando a «Mosca»
Precisavam de ti, do correio,
Da comida, da evacuação,
Quiçá do «Lobo Mau».
Lembras-te velha «cotovia»?
Passei mais de trinta anos na tua companhia!
Em terra no mar ou no ar,
Contigo!
Conheço milimetricamente,
Todos os circuitos do teu corpo!
Ainda não foste e já tenho saudades.
Também eu estou a esgotar o potencial!
É a frota em fim de ciclo!
Até sempre companheiro,


Luis Faria Costa

domingo, 19 de março de 2017

RETRATO


Estão em silêncio,
como o silêncio pode ser,
habitado por rostos. Tinham nomes e eu
jamais soube nenhum,
porque assim não há saudade,
é menos sentida a morte, um nome dói.
Estes, tinham nomes como tinham dores
tinham uma terra, como tinham dores
como tinham sonhos.

28-06-2016
© João Tomaz Parreira
(Foto minha, 1969, Angola)

domingo, 12 de março de 2017

MENINA BRANCA


Onde ficam as estrelas
E quem é que olha por elas!
Quem acende estrelas à noite
Quando a gente vê
Toda a alma apaixonante
Desse interminável céu imaculado?
Mas que anjo branco me terá levado
A olhar o firmamento quando o firmamento é
O longe próximo de quem distante
Vive nos meus olhos
Nas dobras de real manto da terra
Onde nasceu?!
Que estranho milagre produz nas plácidas noites na montanha
Essas maravilhosas tintas que na Primavera
Tocam as flores?!
...Essas flores aos cachões, perfumadas,
Brancas, amarelas,de mil cores,
Límpidos canteiros sem par, flores vivas, irmãs gémeas do luar!
JCorredeira

sábado, 4 de março de 2017

O LUGAR ONDE 2


o local da memória
perdeu o lugar
a sensibilidade dos dedos
quando a libelinha poisa
na folha da cameleira
vieste aqui
para olhar a água
simplesmente olhar o espelho
que muda o rosto
no mais curto assobio de vento
e neste lugar
presencias o canto das asas
na ordem mais perfeita das coisas
sem caos

a pele de repente vazia
apodrece
ao lado das pedras.

in O Lugar Onde

José Félix

sábado, 25 de fevereiro de 2017

POEMA Nº. 2

Poema manuscrito a esferográfica e marcado com o nº 2, inicialmente, em 1969, Leste de Angola
" trazes-me um lírio verde
na mão
agarrado pelo bico
- que verdade
não queres
que ele grite
que asa
não queres
que palpite
trazes-me sempre um lírio
verde
tão verde de(a) sufocação
bem preso
inexplicavelmente preso
em tua mão "

© João Tomaz Parreira

sábado, 14 de janeiro de 2017

O POETASTRO E O POETA

Hoje, a intenção é tirar-vos um sorriso. Humildemente, este aspirante a poeta!
(Aos momentos que me fizeram rir)
O POETASTRO E O POETA
Num dia de verão, passeava o poeta João de Deus,
Numa avenida de Lisboa .
Das árvores frondosas na ramada
Chilreava muito alegre a passarada.
Vai se não quando pára junto dele um moço ,
Não muito alto , mas bastante grosso.
Desculpe! O senhor
É o grande poeta ,
O poeta espontâneo e popular?
E pergunta o mavioso vate a sorrir .
Em que posso servir?
E o rapaz: Eu gostava de saber
A sua opinião
Sobre o meu livro de poesia que escrevi!
Certo, mas deixe-mo primeiro ler, disse o poeta.
Porém , enquanto lia, muito atento,
Cai sobre o livro dum pardal o excremento!
Chegado ao fim, entrega o livro ao poetastro.
E este, curioso, pergunta: Então que tal?
Qual a sua opinião ?
E o poeta sorrindo : a do pardal!...
J.C.

sábado, 7 de janeiro de 2017

VAGABUNDAGEM

Do livro Vagabundagem(um tributo ao poeta chinês Han Shan)

Desenho silêncios 
nas folhas em combustão
Os braços são como ramos de carvalho
presos no vento
Como posso regressar à terra
com outra escritura?
A água da chuva limpa-me
a língua na ira das palavras.

José Félix

sábado, 24 de dezembro de 2016

NOITE DE NATAL


A minha singela homenagem ao Natal da esperança!

NOITE DE NATAL

Só! Absolutamente só, à mesa.
Parentes e amigos tão dispersos,
Levados por destinos bem diversos ,
Comungam na alegria e na tristeza.

A noite fria, de chuvisco e vento,
Escuta, no silêncio, as orações
E o eco longínquo de canções
A evocar de Cristo o nascimento.

Mas na tela da minha fantasia,
Vejo agora, em minha companhia ,
Os amigos distantes e os parentes.

E contemplo também esse caudal
De tantos para os quais não há Natal
Sobretudo famintos e doentes!...


J.C.

domingo, 18 de dezembro de 2016

O ADVENTO


Houve Dezembros que deveriam ter
ficado pelo meio, sem dias 25, nem preces
de Advento no século passado. O Natal
não combina com Auschwitz-Birkenau.
Poucos procuravam Deus nas campinas
de Auschwitz, quando os cordeiros seguiam
para os fornos e a noite de Natal tombava
como cinza sobre arame farpado
e a neve nos pinheiros
tinha maior peso específico que as luzes.
Houve Dezembros em que Jesus
não nascia ou se nascia
ficava ao colo dos irmãos a esperar nada.

10-12-2016
© João Tomaz Parreira

domingo, 11 de dezembro de 2016

IMBRÓGLIO


Este "país"azarado,
defunto da incompetência,
mata a fome,
com futebol e fado.
respira saúde na aparência!
Este "país" azarado,
onde a felicidade é dor,
tem um caso...
vitória de um derrotado,
derrota de um vencedor!

J.C.

domingo, 4 de dezembro de 2016

À SOMBRA DOS CAVALOS


nasci há 4.500 anos em almendres
e no cobre do tempo temperei
o vaso e a espada, que desenhei
para defender dos inimigos o meu clã.
orávamos palavras incompreensíveis
para o rumor das árvores em dias
de ventania. risquei sóis e bucrânios
com litos do xamã ouvindo cantos
de zambujeiro, fúnebres, iguais
à fala para a morte de um imberbe.
na paciência dos dias tive a mulher
que me coube pelo poder do braço
até que um homem novo ma tirou
e senhor do poder de ler os sinais
incendiou o meu coração.
quando fui para longe
recolhi-me na gruta do escoural
e adormeci à sombra dos cavalos.
josé félix

domingo, 27 de novembro de 2016

UM FILHO É A PRIMEIRA COISA


“Vuela niño en la doble / luna del pecho”
Miguel Hernandez
Um filho é a primeira coisa que as mães descobrem
Abrem-se para um corpo frágil
Que sai entre colunas
Dão ao mundo como uma dádiva bendita
Do ventre
Entre os homens não há nada igual
Um amor tão chorado de alegria.
16-06-2016
© João Tomaz Parreira
(Arte: Margarita Sikorskaia, 1968, Rússia)

domingo, 20 de novembro de 2016

RECORDAR...E...VIVER...AB4


Angola Terra Linda!
Como é bom relembrar!...
Os tempos vão passando,
E vós hoje a recordar…
Outrora eram belos jovens,
Hoje já se vão, até queixando…
Partiram com a Força Aérea….
Quis o destino encontrá-los,
Em África esvoaçando…
Naquela terra vermelha e quente,
Lutando pela Pátria!
Momentos tristes,
Horas amargas…
Essas que hoje recordam!!!
Foram fiéis ao chamamento,
Numa luta desigual…
Juraram e lutaram por um ideal!
Defenderam sem igual.
Contavam as horas…
Contavam os dias…
Choravam e riam!!!
O tempo ia passando,
Entregues ao destino!!!
Nasceram aflições.
Ajudaram multidões…
Perderam aviões…
Pobres homens!!!
Mas…
Dia a pós dia…
A vossa coragem nascia!
A vossa esperança surgia!
As famílias esperavam…
As famílias rezavam…
Infindáveis promessas…
No ar havia fé!!!
Quis o destino deixar-vos voltar…                                
Eis que chegaram…
O sol não vos deixou!
O sol vos encaminhou! 
Risos e alegrias as famílias partilharam…
E…
Em cada ponto do País,
A vossa vida se foi construindo!
Mas…
Não esqueceram os colegas!
A amizade perdurou…
E ano após ano,
O sol vos reencontra…
Adoram brindar e contar…
Foram momentos inesquecíveis,
Vividos por todos vós…
É bom sentir,
É bom relembrar,
Aquela terra Linda,
Que vos deixou regressar!!!
Para todos vós,
Eu e o Chambel desejamos….
Mil felicidades sem par!!!
Com muito carinho e amizade …






Maria do Rosário Chambel
  -----Em Argomil-----
Encontro de 12/11/2016             

sábado, 12 de novembro de 2016

SEMPRE NO ESPLENDOR DO JASMIM


Se vires uma violeta caída, repõe-na na humildade do seu canteiro.
A natureza fê-la humilde, para ensinar que o amor não se ufana, mas é o elo verdadeiro,
É o perfume que liga as flores e nunca nos engana!

O rouxinol é a voz dos poetas pelos soutos dispersa;
Em melodias inacabadas como a eternidade!
Vai escutá-lo, quando puderes , na qualidade e esplendor duma aurora insubmersa.
De predicados novos para flores novas...
-Fala-lhe porque podes falar à vontade
Com um rouxinol, o mais poético mensageiro da vida
O mais vivo ser-vivo que se desfaz em trovas
Pela penumbra amanhecida.

JCorredeira.

domingo, 6 de novembro de 2016

CANÇÃO PARA AMÉLIA


Chopin - Prelúdio op. 28 Nº24 - canção para amélia
tem doçura a doce amélia
que no nome pronuncia
o corpo de favos cheio
brotando mel e alegria

na folha da tua face
vai a minha mão menina
que de um modo tão rapace
de um animal no enlace
solta-se a voz na neblina;
os teus olhos na floreira
são dois botões de camélia
estão ali a vida inteira
como o cacho na videira
tem doçura a doce amélia
na serena idade e grave
plantas um beijo nos lábios
que nem a brisa se atreve
secar um ósculo breve
como disseram os sábios.
pois só assim eu nomeio
a fala que se anuncia
e se me perco no enleio
deixo todo o meu anseio
que no nome pronuncia
de ti bebo a fina água
fonte de todo o início
em ti aqueço a minha frágua
deixando as mágoas à míngua
encher-me de ti é vício.
saboreio-te na gula
és o meu pão, meu recheio
o cereal que tremula
de gesto em gesto se anula
o corpo de favos cheio
no jardim da primavera
és uma flor solitária
prima ballerina vera
sobrevindo da quimera
como sempre imaginária.
do pólen me alimento
e toda a flora anuncia;
és para a ferida unguento
a colmeia do acalento
brotando mel e alegria

josé félix