domingo, 19 de novembro de 2017

O REGRESSO


A beleza sentava-se neste espaço do Éden
a cadeira de baloiço espera no alpendre
que o homem regresse
às noites tranquilas, às nostalgias frescas
das manhãs, atravessadas por aves audazes
que fazem um cântico do silêncio do jardim
seja o que for que cantem
que o homem regresse aos aromas
do jardim, com cabelos tranquilos, com os olhos
limpos, com vestes do campo, aberto
para as pequenas coisas da divindade.


27-07-2016
© João Tomaz Parreira

domingo, 12 de novembro de 2017

NIHIL


foi contra o autocarro
que fazia a última viagem
com passageiros da noite
na mão esquerda ainda tem a garrafa
de london com restos de gin
e a marca de lábios de mulher no rótulo.
o sangue jorra-lhe da cabeça.
a espada de dâmocles
suspensa do fio de crina do cavalo
cortou-lhe a vida contínua
que levava dentro de um fruto maduro;
queria perceber a filosofia de existir.
o último gesto ficou suspenso
junto da paragem de autocarros
sem olhares curiosos
só a sereia da polícia de giro
corta o sossego da noite
cumprindo com um sorriso
e gestos comprometidos
outra forma de estar
agarrado à existência.
josé félix

domingo, 5 de novembro de 2017

O SABOR DAS CHAMAS €€€


São falsos patriotas
Figurões, agiotas.

Nas chamas escondidos
Feitos "bandidos"!
...
Num abraço,
Por Alighieri eternizado
A sombra misteriosa
Dum inútil acomodado.
Asteróides sem luz,
Sublimam a conveniência
Do negócio escondido
Na guitarra e no fado.

Vocifera veneno o imbecil,
De bandeira na lapela
No cobarde aproveitar,
Asno, igual a tantos mil
Bebe na desgraça da capela!

...Triste povo que celebras em festa
A razão da incompetência!...


Jc

domingo, 29 de outubro de 2017

"UM FIDALGO DESSES DE LANÇA NO CABIDE"


Vive, ainda, num lugar da Mancha, de cuja
Imortalidade só um nome resta, o Quixote
Só a lança e a espada são reais nas suas mãos 
Metal a balouçar no vento
E Rocinante
No qual cavalga toda a Espanha

Cinquenta anos, seco de carnes, rosto
Enxuto, olhar rijo contra moinhos
Vara de porcos e odres de vinho
Mulheres? Só uma
Dulcinea, que no coração do Quixote
Acalma o tropel das vitórias.

2015
© João Tomaz Parreira

domingo, 22 de outubro de 2017

COISAS DO CORAÇÃO!


Sinto e vejo as ondas a bailar,
Oiço os remos a ranger,
Vejo a força da nortada,
Noto a vela esfarrapada,
Está tudo a acontecer.
Vem aí a escuridão,
O mar está a ralhar,
O barco já está torto
Não quero ficar morto,
Tenho mesmo que aportar.
Hei-de ver boa terra,
Quero falar comigo,
A rota não está perdida
Quero agarrar-me à vida,
Vai haver porto de abrigo.
Vejo a luz inesperada,
Surgindo pra meu conforto,
Cláudia, Joana Luís,
Céu que tanto quis,
Lá achamos o porto.
Cá estou ainda, devidamente ancorado!


Faria Costa, Maio de 2012

domingo, 15 de outubro de 2017

GENT


Em Gent sou o estrangeiro
mais lúdico de Citadelpaark
Os meus olhos bailam nos seios das meninas loiras
e morenas de olhos de cor azul
que o mar de longe traz 
e pousa gaivota nos barcos casas
atracados ao longo dos canais.
A minha lúdica lucidez
deita-se na erva húmida
a beber a brincadeira jovem
branca e alva dos flamengos, morena e azeitona
das mulheres árabes de hijab
rosto lua rosto sol do oásis e do deserto
na tarde quente de agosto.
Os patos os pombos torcazes os melros e as gralhas
partilham o lago com os gansos
bicando as migalhas dos turistas japoneses
quando um grupo de chineses anda de um lado para o outro
à caça de pokémons ao lado do museum of fine arts.
As mulheres continuam a bailar nos meus olhos marinhos
apesar da passagem das bicicletas.

José Felix

quarta-feira, 4 de outubro de 2017

HOJE


Hoje não escrevo
Nem quadras
Nem poemas
Nem nada.
Não quero inventar problemas
Por todos resolvidos.
Deixem-me ser
Um homem qualquer,
Tão saudável
Como um pintor de construção civil
Num domingo de sol
Ou como o rouxinol
Que canta sem saber que canta
E nos agrada.

Hoje não fiz
Nem versos
Nem poemas
Nem nada...
E sou feliz.

Floriano Henriques Silva
HC, 16/4/1968

domingo, 1 de outubro de 2017

VOTAR ?


A política partidária
É clímax do momento.
Após o coito, 
Entra na reflexão paritária...
Do êxtase e dos louros, 
Apenas reparte o excremento!

Jc

domingo, 24 de setembro de 2017

VIGÍLIA


Senhor, partiram tão tristes
Os seus olhos, tão raiados de sonhos
Ainda há pouco punham a vida em dia.
Falávamos de planos, um cigarro
Ardia como única chama dos lábios,
Falávamos da primeira mulher
Que amamos, tão longe o nosso coração.
De Deus falamos às vezes, tão longe
Entre nuvens, aonde quer que fossem
Só os nossos passos cortavam o silêncio.
Agora os seus olhos partiram e só
Têm as minhas lágrimas, que me golpeiam
As pálpebras. O sol tropical é um pobre
Fantasma, ele também entre a névoa matinal.
29-03-2017
© João Tomaz Parreira
(Foto de Catherine Leroy © Vietnan, 1967)

domingo, 17 de setembro de 2017

RETROVISOR



a cidade desliza no retrovisor
do automóvel
à velocidade do olhar distraído
o presente
a memória é quando estacionas o corpo
e vês no espelho a sombra
do que foste
o futuro é a pretensão dos fracos


José Félix

domingo, 3 de setembro de 2017

O MEU MÊS


O meu mês tem trinta dias
Minha paz trinta segundos
Não tem momentos fecundos
sem nunca ter alegrias!

Porém, basta que tu te rias
ou digas ditos profundos
cheios de graça e ironias
para doirar os meus dias,
horas, minutos e segundos.

Aníbal de Oliveira
(AO

domingo, 27 de agosto de 2017

CONTRASTES


O tempo...
Perde-se numa hora ou num momento
Por tanto...
A voz letal do pensamento
Sufoca na impotência do argumento
O delírio infernal de qualquer pranto.
Jc
in "abstracto"

domingo, 20 de agosto de 2017

HIROSHIMA, MEU AMOR


Não, tu não viste nada em Hiroshima
o sol explodindo nos olhos, dentro
da tua cabeça sombras
Tu não viste nada a acontecer
o nada de Hiroshima, nem a fissão
do Amor
Nada viste em Hiroshima
Dez mil sóis de temperatura
a cobrir a morte
como um lençol de cinza.
© João Tomaz Parreira

domingo, 13 de agosto de 2017

AO IVAN JUNQUEIRA



trabalho os ossos na vil paciência
de quem ainda tem caminho certo
requeiro a um e a outro a tal licença
pra se mover na vida o rumo incerto.
conforme a vida vai , e a mudança
dos ossos, soltos, e por fim liberto,
não choro o rosto dos que são usança
dos néscios fazendo dos seus protesto.
é nas ossadas que se mente a história
e se inventa a memória que não é
dos fracos, e se canta toda a glória
da vida nunca solta da ralé.
os ossos são só meus, de mais ninguém.
ninguém os cante nem sirvam a alguém.

josé félix

domingo, 6 de agosto de 2017

DIA DE ANOS


Anos são rosas que murcham,
astros cadentes que correm
anos são prantos que nascem
anos são risos que morrem.

São o despertar das horas
que passamos a sonhar,
são ilusões que nos fogem
são saudades a voar

São folhas secas dispersas
porque os vendavais as partem
são corvos negros que chegam,
são andorinhas que partem

Anos são ondas revoltas
que, depois de encapelar,
se desfazem num rochedo
para nunca mais voltar.


Aníbal de Oliveira
A.O.

domingo, 30 de julho de 2017

UM "POETA DESCONHECIDO", EM ANGOLA


Texto marcado com o nº 18, de um lote manuscrito a caneta-tinteiro "Parker 51", em 1969:
"uma Flor abriu-se
ao calor da chuva
na noite presente nas estrelas
uma Flor acendeu-se
e os homens olharam-na,
mas iluminaram-se com velas." 
Texto marcado com o nº 6, de outro conjunto escrito a esferográfica, de 1969:
"com o rosto na terra
oiço passos cansados
e sorvo silêncios
de lágrimas vertidas
com o rosto na terra
sofro e espero
com o rosto na terra
sei mais de Deus
com a fronte erguida
ouviria outros sinais
mas com o rosto na terra
bebo a origem da vida."

© João Tomaz Parreira

domingo, 23 de julho de 2017

AO TEU ANIVERSÁRIO


Amanhecer sem desejar ser dia,
Lembrança, neblina,saudade,
Infortúnio de já não ter...

Imagem viva mas pungente
lacrimeja a poesia.
Hoje,sempre foi hoje,
A teu lado,na falta do teu viver.
Minhas lágrimas em verso iluminam,
Memórias e retratos pintados de amor.
Hoje é sempre berço da eternidade,
Meu orgulho, meu herói,
PAI?!...
Para ti uma uma flor!


Júlio Corredeira
31-10-2016

domingo, 16 de julho de 2017

O LUGAR ONDE



ao lado das pedras
na ternura táctil da noite
é fácil o desejo
o lugar onde se acomoda o corpo
na sombra dos gestos
a voz sussurra
a desvendar caminhos, margens
rio que toca os dedos
a tactear a foz, a emoção
já um segredo
na árvore deste lugar
onde a pedra vive
a carícia da mão



in O Lugar Onde
José Félix

domingo, 9 de julho de 2017

O CÃO DE GIACOMETTI


O cão da melancolia
procura qualquer coisa, põe o faro
paciente no chão
pescoço longo em baixo como uma tristeza
para pendurar as orelhas
O cão de Giacometti vê
as coisas
de barriga para baixo
O cão cabisbaixo, indiferente
às alegorias
flutua na arquitrave
dos seus ossos.
© João Tomaz Parreira

domingo, 2 de julho de 2017

COMPANHEIROS




Eu tenho um livro velho, amarelado
que sabe quase toda a minha vida;
Vibrou comigo em sonho enamorado,
sofreu comigo a chaga dolorida.

Relendo as folhas mortas, com cuidado
componho aquela história já sentida.
e sinto o coração alvoraçado
sofrendo a mesma angústia revivida

Mas o meu livro amarelado, antigo
está já tão velhinho, este meu amigo
que já não quer gravar mais dissabores,
apenas os bons momentos,
que ainda tenho da vida

Já me viu em tantas lágrimas perdidas,
fi-lo seguir comigo tantas vidas
que ele também se cansou de tantas dores.

Aníbal de Oliveira
A.O.


domingo, 25 de junho de 2017

FELICIDADE


Ela tem
A cândida serenidade
Dos eleitos e dos profetas.
No regaço sereno da esperança,
Essa virtude admirável
Que está para a bem- aventurança,
Como o amor para os poetas,
Como o sono para a eternidade,
Ela tem
O despertar de uma princesa,
A felicidade espelhada no olhar,
O sonho para além do firmamento,
O corpo de flor despida,
A candura que desperta o momento,
A fantasia nas palavras do falar,
A chama perene de vela acesa.
Ela tem
Tudo o que uma flor pode dar!
JCorredeira

domingo, 18 de junho de 2017

HOJE!



Saltam salgadas,
Roliças!
De onde virão?
Porque virão?
Não sei adivinhar,
Mas não posso ignorar,
Que vêm do coração.
Porque não param?
Porque me molham a face?
Que terei feito lágrimas salgadas?
Quero pensar,
Não me quero enganar,
Que chegaram molhadas,
Mas enfim, enganadas.

domingo, 11 de junho de 2017

O LUGAR DA POESIA


ao josé antónio gonçalves

eu sei onde vou pôr a minha poesia
vou colocá-la detrás dos buracos das fechaduras
nas frinchas das portas
e nos parapeitos das janelas.
vou vê-la andar por aí a fazer jogging
passeando o cão como se ele fosse
o psicanalista de serviço em domingos assim
imaginados pelo ruy belo
que até o sol do meio-dia agarra a melancolia
num girassol seco de sede e solitário
na carícia de uma papoila rubra
no fim da estação.
eu sei caro amigo que as coisas não são simples
e verei a poesia pendurada nos candeeiros
escondida em papel de prata dos maços de cigarros
ou em papel barato embrulhando
as figuras mais ridículas e rejeitadas
atiradas para o sótão onde o lixo aguarda
o tempo propício para que o index resolva
definitivamente a morte feita de gangrena
raiva ódio desprezo e de um amor
incompreensível que só os ratos
na sua extrema compreensão
terão o entendimento possível
das palavras semeadas a esmo
na lavradura de uma terra infértil
esganada pela ditadura de sacanas
que cortam rente as flores silvestres
a língua com o gosto das amoras
o primeiro sabor de um pêssego
e até a infrutescência de um figo lampo.
há tantos lugares onde se põe a poesia
esquecida nos sofás ou a mexer um copo de gin
nas noites que se pretendem mais escuras
do que as noites mais escuras na imaginação
do pedreiro de um poema feito com tijolo
de sete furos para a construção de uma casa-poema
onde cabe o sol de todo o ano e um riso cristalino
a começar as madrugadas.
eu sei onde vou pôr a minha poesia
no canto dos lábios de vinho de um homem do leste
no rap a passear no rossio ou nos restauradores
nos bares das docas da 24 de julho
e no corpo das putas possíveis que amam
na plenitude a vida como as outras mulheres.
ah com tanto lugar onde pôr a poesia
ainda verei gente como numa procissão de
homossexuais e lésbicas com bandeiras de poemas
e caixas parecidas com as dos bombons
a oferecerem a todos os filhos da puta
a poesia travestida de grandeza
como a humanidade se importasse
com as palavras presas numa garrafa
atirada ao oceano à procura de uma areia
longínqua uma ilha do dia antes
como se fosse uma sombra na imaginação
de um poeta-judeu ou de um judeu-poeta
que é precisamente a mesma coisa.
e como não há outra alternativa
eu sei onde vou pôr a minha poesia.

josé félix

domingo, 4 de junho de 2017

" O VOO DO AMOR "


Somos dois pombos doidos a voar
Pois só sabemos o verbo amar
Somos dois pombos levados neste voo
Por um louco amor que nos fintou.

Voamos esquecidos pelo tempo
Bem longe do mundo e do movimento
São nossas asas nosso louco amor
Voando...

Somos dois pombos doidos a voar
Pois só sabemos o verbo amar
Somos dois pombos levados neste voo
Por um louco amor que nos fintou.

E agora vão seguir-se outros dias
Lembro-me então do tempo em que vivias
Em que vivias sem ninguém para amar
E agora...

Somos dois pombos doidos a voar
Pois só sabemos o verbo amar
Somos dois pombos levados neste voo
Por um louco amor que nos fintou.


domingo, 28 de maio de 2017

FESTA DE DESPEDIDA


21  de Fevereiro, Henrique de Carvalho
Esquadras 401 e 403
Lugar ao sol e trabalho
E de festas de quando em vez.

Como sempre há que dizer
Sem que a maldade nos tussa
E a quem isto fizer doer
Que enfie a carapuça.

E há sempre um primeiro
se me desculpa a discrição
Atenção oh companheiro
Que já não sou Capitão.

Rápido activo, valente
E camarada de sempre
Não há corisco nem trovão
Que lhe possa fazer frente.

Comandante de Esquadra
Dos GEBES e movimentos
Além do Jornal de Parede
Oh terrível sofrimento.

Mas não faz mal camarada
Arrelias não concordo
Porque não há-de ser nada
Quando também for comandante de bordo.

De sorrizinho maroto
(cara 43)
Oh camarada piloto
Sorri, sorri pra nós outra vez.

O "Chuxas" é que o topava
Com a sua voz de trovão
Quando por nós esperava
Já sentado no avião.

E com este, eu acabo
E termino seu sofrimento
Ponha-se a pau, está apanhado
Não pense mais no movimento.

Dos cabelos e das barbas
Dos Clubes e das Infras
E também determinações
E de dar voltas ás tripas.

E é o Grilo que diz
Que do colapso, não escapa
Pois foi o Cristo que não quiz
Que não aterrassem na mata.

Mas numa manhã ardente
Sorrirá pra todos nós
Pois abrirá finalmente
A mina dos PÓPÓS.

Ò amigo vamos nisto
Vai um joguinho aos dados ?
Um gravador? Já viu isto ?
E preços disparatados !!!

Do pipipiri...veterano
Das nocais é batidinho
Oh  Costa mude aí o pano
Não bata mais no ceguinho.

Não puxes ainda pelo lenço
Que ainda não acabei
Quando chegar ao Lourenço
Digo tantas que nem sei.

Afinal, no fim de contas
No fundo és bom rapaz
Além da cabeça tonta
De muito mais és capaz

Mas camarada Capitão
Não fique assim tão contente
Pois ainda tenho na mão
Má língua pra toda a gente.

Você já viram quando
Ele fica bem furioso
Os olhos quase saltando
Vermelho lindo que gozo.

E tu Dinis que és tão alto
De certo que não esqueceste
Das pílulas do pó-de-talco
E dos frasquinhos SNEPS.

E nestas paragens ardentes
Há um gringo malandrão
Vê lá se te arrependes
Se não dás um trambolhão.

Tem cuidado com o pescoço
Se tu ficares cá
Não sou eu que o torço
Olha lá o MPLA.

Ò Guerra a tua esposa ?
Olha bem o que te digo
Quando vais a Teixeira de Sousa
Olha a rapada olha o perigo.

E tu maçarico Oliveira
Que andas tão vermelhinho
Vê lá bem tem maneiras
Vê lá se estás caladinho.

Homem das descobertas
Que já foste ao Samugino
Tens de fazer os alertas
Não te faças de Anjinho.

Oh chanas de todo o Leste
Segurai minha caneta
Oh Lopes tu já fizeste
As contas das cadernetas ?

E tu oh Sebastião
Que sempre foste sisudo
Passa o vinho ó Capitão
Não queiras beber tudo.

Ora esta com franqueza
Olhem bem o maçarico
Com o perdão da mesa
Pareces mesmo um penico.

Não fales pra mim tão grosso
Ò maçarico pia a cantar
Senão levas com o osso
Enquanto não pagas o jantar.

E tu rouxinol que cantas
Que cantar já vai sendo uso
Pois nem a cantar espantas
O castigo que é o Luso.

Henrique oh bom camarada
Mecânico de bom prestígio
De algarvio não tens nada
Pareces mais do Montijo.

E agora vou acabar
Com todas estas cantigas
Pois eu não quero chorar
Na festa das despedidas.

Pra vocês todos um abraço
E pra manter a tradição
Saia o grito do pilotaço
Acção, acção, acção !!!


 Escrito em 21/2/1975 por Alfredo Anacleto dos Santos







quarta-feira, 17 de maio de 2017

" J. CRISTO "


Jesus Cristo, Jesus Cristo, Jesus Cristo,
Tira-me daqui !

Jesus Cristo, Jesus Cristo, Jesus Cristo,
Que eu estou farto disto!

Olho pró céu e vejo aquele "NORD" que vai passando
Olho pra'quele e conto há quantos meses já está lerpando.
Com esta guerra crua ele vão retendo o pobre rapaz
Com esta guerra que afinal não passa de podre paz.

Jesus Cristo, Jesus Cristo, Jesus Cristo,
Tira-me daqui !

Jesus Cristo, Jesus Cristo, Jesus Cristo,
Que eu estou farto disto!

Pensando assim não sei para onde é que este mundo vai
Com tanto ódio e guerra a esperança deste mundo se esvai.
Dizem que és justo e santo e que usas de bondade fervente
Por isso te imploramos que ajudes sempre esta pobre gente.

Jesus Cristo, Jesus Cristo, Jesus Cristo,
Tira-me daqui !

Jesus Cristo, Jesus Cristo, Jesus Cristo,
Que eu estou farto disto!

Gente que sofre por da sua Terra-Mãe se encontrar distante
Gente que luta e na sua juventude está confiante.
E se eu estou aqui eu quero saber qual a razão
Eu te peço Jesus que respondas à minha oração.

Jesus Cristo, Jesus Cristo, Jesus Cristo,
Tira-me daqui !

Jesus Cristo, Jesus Cristo, Jesus Cristo,
Que eu estou farto disto!


Nota: Esta canção, letra de Manuel Bexiga, seria por ele cantada com música homóloga de Roberto Carlos, na festa "Cacimbo-71", mas foi censurada pelo comando e retirada... por subversão !



domingo, 14 de maio de 2017

FADO DO ESPECIALISTA





Onde está o nosso cabo
Esse bravo do passado
Da heróica aviação.
Que até com o fato emprestado
Parecia homem honrado

Mas no bolso sem tostão.
São Cabos Especialistas,
Mecânicos electricistas
Ou Técnicos de avião.

Das boleias nas estradas
Às noitadas bem passadas
São tempos que já lá vão.

E entre os controladores
Operadores, aviadores
Do pifão e coboiada.

Por causa de um avião
Há confusão discussão
Resolvida à bofetada.

Onde está o nosso cabo
Esse bravo do passado
Da heróica aviação.
Que até com fato emprestado
Parecia Homem honrado
Mas no bolso sem tostão.

Autor desconhecido

domingo, 7 de maio de 2017

O POEMA QUE SIGNIFICA A MÃE


Apagou-se essa luz. Podem vir agora
todas as línguas mais tristes dos homens
e dos anjos pianos celestes que são
a sua própria voz, a música
de metal dos sinos que indicam
o caminho na clara noite dos templos.
Nada será igual. Todos os dias
já não são os mesmos
depois que essa luz se apagou. Os olhos
da Mãe já não se iluminam com as lágrimas
como é costume das mães que olham
para os seus recém nascidos.

07-05-2017
© João Tomaz Parreira

domingo, 30 de abril de 2017

RESSONÂNCIAS !


Cansei!
Da alma, fugiu-me a paciência
De ouvir da voz, a opinião.
Esvaziei a mente da sabedoria,
Atulhada de sapiência vã.
Meus olhos só vêm demência,
Palavras em repetição.
Gasta-se a língua em teoria,
Ontem, hoje, igual amanhã.
"Passaritos" chilreando no ar,
Em bandos despidos.
Dinossauros, juízes do saber,
Verdades sem razão.
Solução, falar por falar,
Fulgores de substância feridos.
Criatividade, por querer ser,
Do pensador, a negação.
Esgotei!
"Santa paciência",imperícia,
Fazedor, de alheios a opinião?
Renego beber tal ciência,
"Saturei"!...
Comer, por comer...isso NÃO!!!
--------------//----------------
Na essência como arte, um poeta nunca será um pasteleiro. Na arte como essência, um pasteleiro pode bem ser um poeta.
Na pretensão sem "identidade", um "postador"de Wikipedia nunca será nem uma coisa nem outra...
JCorredeira

segunda-feira, 17 de abril de 2017

GLOSA PARA A PAIXÃO SOBRE UM PRANTO DE LORCA



Às três da tarde
Eram as três rasgando a tarde
Quando os grupos desolaram
O silêncio das esquinas
À hora nona
Num relógio prevenido
As pedras sentiram-se
Como vento
Eram as três em ponto dessa tarde
Que até no coração das aves
Se sentiram
Eram as três em ponto
Nas horas dessa tarde
Já um lençol abria
O linho para a morte
E recolhia o sol
O seu cristal do dia
Eram as três em ferida
Dessa tarde
Já começavam nos olhos das mulheres
Os incensos da vigília
A morte começava
Às três da tarde
Quando o véu rasgou o templo
Com muito ouro e púrpura
Eram as primeiras três
Em ponto dessa tarde
Eram as sombras em todos os relógios
Quando um flanco se cravava
Com carmesim e água.

© João Tomaz Parreira

domingo, 9 de abril de 2017

ELEGIA DE MARÇO-UMA DEDICATÓRIA IMPOSSÍVEL


sento-me à mesa de um café a esculpir palavras
donde sai a poeira que polvilha o pó
nos dias vadios à espera que as margens dos rios
se tornem férteis fartos de pão e pássaros.
uma mesa nua de água límpida no sabor
da língua à míngua de gestos gastos gritos
nas horas pendulares. a vida o pêndulo
o pedúnculo de uma flor cortada no conto de um segundo.
há o sorriso das flores raras
mulheres jovens de carne lisa e desejo a brincar
com o espelho dos olhos com o reflexo lasso
de um poeta sentado à mesa de um café.
travo amargo sem o açúcar de circunstância
o café mal medido comedido
à espera que o pó das palavras se transforme
conforme o previsto.
um poeta tem a beleza de um cacto
simples e cheio de espinhos um estio
desenhado num jardim de inverno um inferno
no éden sémen púbere úbere no cedio do desejo
a mesa. o café tardio sem a surpresa da queda da palavra
o suporte a solidão longe heart with no companion de choen
«para o coração sem companhia para a alma sem um rei para a prima
ballerina que não dança com ninguém».
sou no passo apressado do caminhante o viajeiro errante
à mesa de um café.
decai a tarde no esplendor das folhas
os espelhos das sombras dos pardais perdidos
na luminosidade límpida dos olhos
uma tarde sem nome pronome que arde
sem tempo na ombreira sombria
das sombras diluídas nos olhos dos pássaros
das sombras luídas nas asas dos pássaros
das sombras caídas nas folhas das árvores
do estorvo da luz que zela a sombra
de um pássaro que poisa a brisa no ombro
que mealha as migalhas de searas cumpridas
um café na poesia da tarde oblíqua
na páscoa das palavras remidas. o pecado de um verbo
renasce a face de um fogo uma chama
e todo o tempo que dure essa chama
mas é sempre uma chama que talvez eu penso
incendeie as palavras na babel mesmo assim
que faça o papel a folha a página da árvore
dar a vida na dádiva do incêndio o incenso
da alma que acalma a voz a foz de um grito.
o mês de março tenho-o preso
nas flores murchas mais cedo cedidas
à tempestade dos olhos o reflexo dos espelhos
que toldam a secura dos jardins de promessas.
talvez houvesse que plantar mais dores
nos partos da memória mais sombria como dardos atirados
no escuro sabendo de antemão que os alvos
luzem ao silvo das setas iluminadas.
o mês de março já não é o que antes foi
e também não é o que agora soi
dizer uma explosão de esperança.
uma criança só uma criança pode ter a
palavra com que se cava a terra
e deixar as sementes nas veias do ovo
para que dê uma florescência
provinda da inocência de uma fala
sem a mancha que cala os anjos brancos
nas missas rituais da remissão.
é por isso que vou construindo um
poema no mês de março tardio
vadio de tardes verdes na certeza
de que as giestas amadurecidas
mesmo sem van gohg mesmo sem girassóis
mas com o absinto da cor da agonia.
que importa se os amantes se beijam como antes
no fim do mês de março um traço de primavera
eles plantam canções de florir flores
de promessas cravadas de desejo
nas mãos nas ancas a subentender o sexo
no amplexo suspenso no fio de sol.
vou ter contigo amélia aliada porque
não precisas de mim nem eu de ti tenho precisão
és a parte completa mais completa
de mim onde anuncio as primaveras e
no fio das quimeras planto jardins de margaridas
e flores raras saram a terra aromada
de dádivas nas águas iguais de
na chuva permanente permanecermos rio e foz
duma nascente única corrente.
o mês de março mês que só de marte
tem o nome é tão subjectivo
apesar da explosão de pétalas fogo de cores afago de cheiros.
março é o mês do mar mês de amar
antes de abril abrir completamente as árvores
ao sabor vário das águas jorradas
amanhã é abril. sei que o sol vem
vasto na laminada luminosidade o gume dos dias os gomos
saboreados como franjas de laranjas novembrinas.
resta-me um março que me foge no resto de março
a simples tarde que separa a margem
de outra margem mais longa que prolonga
declina no crepúsculo anoitecido


josé félix

domingo, 2 de abril de 2017

TÁS D´BALADA COMPANHEIRO!



Vais embora amigo,
Mais de meio século a servir Portugal!
Nos céus de Tancos,
De Montijo e Bissalanca.
De Luanda às terras do Moxico,
De Tete, Nampula e Mueda,
Atá para lá de Timor.
Andamos juntos por todos esses sítios!
Quantas saudades nos deixas?
Passeaste a tua beleza,
Mostraste o teu poder,
Nas Portuguesas terras.
Grande e generoso amigo que foste!
Suportaste tudo!
O guincho, a carga suspensa,
Flutuadores de emergência,
Pantufas,IFR,foguetes,
«Lobo mau» lembras-te?
A Savana africana?
Os soldados em«AVP1» chamando a «Mosca»
Precisavam de ti, do correio,
Da comida, da evacuação,
Quiçá do «Lobo Mau».
Lembras-te velha «cotovia»?
Passei mais de trinta anos na tua companhia!
Em terra no mar ou no ar,
Contigo!
Conheço milimetricamente,
Todos os circuitos do teu corpo!
Ainda não foste e já tenho saudades.
Também eu estou a esgotar o potencial!
É a frota em fim de ciclo!
Até sempre companheiro,


Luis Faria Costa

domingo, 19 de março de 2017

RETRATO


Estão em silêncio,
como o silêncio pode ser,
habitado por rostos. Tinham nomes e eu
jamais soube nenhum,
porque assim não há saudade,
é menos sentida a morte, um nome dói.
Estes, tinham nomes como tinham dores
tinham uma terra, como tinham dores
como tinham sonhos.

28-06-2016
© João Tomaz Parreira
(Foto minha, 1969, Angola)

domingo, 12 de março de 2017

MENINA BRANCA


Onde ficam as estrelas
E quem é que olha por elas!
Quem acende estrelas à noite
Quando a gente vê
Toda a alma apaixonante
Desse interminável céu imaculado?
Mas que anjo branco me terá levado
A olhar o firmamento quando o firmamento é
O longe próximo de quem distante
Vive nos meus olhos
Nas dobras de real manto da terra
Onde nasceu?!
Que estranho milagre produz nas plácidas noites na montanha
Essas maravilhosas tintas que na Primavera
Tocam as flores?!
...Essas flores aos cachões, perfumadas,
Brancas, amarelas,de mil cores,
Límpidos canteiros sem par, flores vivas, irmãs gémeas do luar!
JCorredeira

sábado, 4 de março de 2017

O LUGAR ONDE 2


o local da memória
perdeu o lugar
a sensibilidade dos dedos
quando a libelinha poisa
na folha da cameleira
vieste aqui
para olhar a água
simplesmente olhar o espelho
que muda o rosto
no mais curto assobio de vento
e neste lugar
presencias o canto das asas
na ordem mais perfeita das coisas
sem caos

a pele de repente vazia
apodrece
ao lado das pedras.

in O Lugar Onde

José Félix

sábado, 25 de fevereiro de 2017

POEMA Nº. 2

Poema manuscrito a esferográfica e marcado com o nº 2, inicialmente, em 1969, Leste de Angola
" trazes-me um lírio verde
na mão
agarrado pelo bico
- que verdade
não queres
que ele grite
que asa
não queres
que palpite
trazes-me sempre um lírio
verde
tão verde de(a) sufocação
bem preso
inexplicavelmente preso
em tua mão "

© João Tomaz Parreira